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Maconha é levada a plebiscito
Jornal do Brasil, Internacional, quarta-feira,
06 de novembro de 2002
LOS ANGELES, EUA - Eleitores de seis estados, além de
Washington, não só escolheram seus representantes à Câmara dos Deputados e ao
Senado e o futuro governador, ontem. Votaram também propostas de flexibilização
das leis sobre venda e consumo de maconha sob determinadas circunstâncias.
As propostas levadas a plebiscito em Nevada, Arkansas, Dakota do
Sul, Ohio, Califórnia e Massachusetts enfrentaram forte oposição do czar das
drogas, John Walters, que as classificou de irresponsáveis. Há tempos, a
Agência de Repressão às Drogas (DEA) vem travando uma batalha judicial com a
Prefeitura de São Francisco, na Califórnia.
Este estado, bem como o Arizona, já liberou o consumo de
marijuana para doentes de câncer, Aids e esclerose múltipla. No plebiscito de
ontem, os eleitores de São Francisco tiveram de decidir se aprovavam ou não a
''proposta S'', que permitirá o cultivo e a distribuição da maconha para uso
médico.
As demais propostas são semelhantes. Em Dakota do Sul, pediu-se
autorização para que as pessoas possam plantar ou carregar maconha; no Arizona,
se a criação de um cadastro estadual de pacientes usuários de maconha para fins
terapêuticos é constitucional.
Na capital, Washington, e no estado de Ohio pediu-se que o
eleitor decidisse sobre se, em vez de mandar o consumidor para atrás das
grades, o Estado lhe oferecerá tratamento gratuito.
A proposta mais radical, contudo, foi a de Nevada, onde os
eleitores decidiram se permitem ou não o porte de 84 gramas de maconha, que
poderá ser adquirida em lojas, como cigarros e bebidas.
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Nova missão dos médicos: rastrear vícios: AMB e Cremesp recomendam atenção à
dependência química em qualquer paciente
O Estado de São Paulo, Geral- Quarta-feira, 6
de novembro de 2002; LUCIANA MIRANDA
Todos os médicos têm uma missão: detectar em seus pacientes a
dependência química. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo
(Cremesp) e a Associação Médica Brasileira (AMB) lançaram ontem um manual com a
nova diretriz. O documento tem o objetivo de orientar a conduta dos médicos que
não são especializados no tratamento da dependência química.
Ao suturar um ferimento, o médico deve pensar nas causas daquele
machucado.
O acidente pode ter sido provocado, por exemplo, porque o
paciente abusou de bebida alcoólica. "Bastam três minutos de conversa com
o paciente para fazer o que chamamos de intervenção mínima", explica o
psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador científico do manual e professor da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essa é a oportunidade que o médico
deve aproveitar para transmitir ao paciente informações básicas sobre o uso de
drogas.
O mesmo princípio deve ser seguido no atendimento de
consultório. E a presidente do Cremesp, Regina Parizi, alerta que não é
suficiente o médico perguntar apenas: "Você bebe?". "A resposta
mais comum para essa pergunta é: "Socialmente". É preciso abordagem
adequada, capaz de detalhar o uso que o paciente faz da substância, mas
deixando-o à vontade para falar sobre o assunto."
A idéia parte do princípio de que, mais cedo ou mais tarde, quem
é dependente de alguma droga acaba procurando um serviço de saúde para tratar
outras doenças. Por isso, todos os médicos precisam estar habilitados para
reconhecer a dependência sem que o paciente se queixe dela. Ao detectar o
abuso, cabe ao médico ajudar seu paciente a se tratar. Se o caso for complexo,
o paciente deve ser encaminhado para um especialista.
Preparo - "As escolas de medicina não preparam o
profissional para tratar dependência química", ressalta Laranjeira. Até
porque a abordagem do abuso como um problema de saúde é recente. No passado, a
dependência de drogas era considerada por muitos falta de caráter e fraqueza
moral, não doença a ser tratada. As entidades querem que o médico veja a
dependência química como um problema de saúde.
Regina reforça que o abuso de drogas já é um problema de saúde
pública, pois atinge todas as camadas sociais. "O desafio que acompanha a
história da humanidade é descobrir porque tantas pessoas no mundo precisam da
droga para se sentir melhor." Apesar de a origem do problema permanecer
desconhecida pela ciência, a dependência química tem tratamento que envolve
medicamentos e psicoterapia.
Ainda há carência de serviços públicos especializados para
tratar dependência química, mas Laranjeira diz que as redes têm sido ampliadas.
Os especialistas reforçam que os grupos de auto-ajuda, como os Alcoólicos
Anônimos, também têm um papel importante no tratamento.
No Brasil, o álcool é a principal droga de abuso. Levantamento
realizado nas 107 maiores cidades do País mostra que 11,2% dos brasileiros são
dependentes de bebida alcoólica. "Muitas doenças têm como causa
determinado comportamento. E mudar comportamento faz parte do trabalho do
médico", completa Laranjeira.
O manual, que será distribuído para os 285 mil médicos do
Brasil, traz informações básicas sobre a dependência de oito substâncias:
álcool, nicotina, maconha, cocaína, anfetaminas, benzodiazepínicos (calmantes),
opiáceos (morfina) e solventes. O documento completo também está disponível no
site do Cremesp: www.cremesp.com.br.
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De repente, perda de controle. E as histórias se
repetem: Alcoólicos Anônimos
estão em 150 países, com mais de 2 milhões de freqüentadores
O Estado de São Paulo, Geral - Quarta-feira, 6 de novembro de
2002 - EVANILDO DA SILVEIRA
As histórias dos dependentes que procuram os Alcoólicos Anônimos
(AA) são todas parecidas. A maioria começa a beber cedo e por um longo período
consegue administrar o vício, até que, de repente, perde o controle.
Então procura os AA. A partir daí é uma luta diária para se
manter longe da bebida. Hoje são cerca de 2 milhões de AA em 150 países.
O aposentado Bueno - os AA não se identificam -, de 70 anos, é
um deles.
Começou a beber aos 16 anos, "para vencer a inibição".
Até os 37 anos conseguiu. "Com essa idade, eu era assistente
administrativo de um grande banco", lembra. "Um ano depois, perdi a
mulher e a família. Era um "malocado", vivia numa pensão barata, com
mendigos e bandidos."
Seu colega de AA, Carlos, 52 anos, motorista aposentado, começou
a beber mais cedo, aos 12. "Pelos 25 anos seguintes, vivi bêbado o tempo
todo", conta. "Casei e trabalhava bêbado; só pensava em beber."
Apesar disso, ele ainda não havia chegado ao fundo do poço. Isso ocorreu quando
sua mulher morreu, depois de 20 anos de casamento. Em três meses, Carlos vendeu
a casa e o táxi que tinha e engoliu todo o dinheiro em bebida. "Fui para
as ruas, por onde perambulei entre 1994 e 1995", recorda. "Pedia
esmola para comprar bebida."
Maria Cristina, 50 anos, tem uma história diferente. Ela não foi
tão fundo no alcoolismo. Bebedora esporádica, só começou a acreditar que tinha
problemas com o álcool de uns quatro anos para cá. "Primeiro comecei a
torcer para que o fim de semana chegasse logo para eu beber", revela.
"Depois comecei a beber uma vez por semana, mais tarde duas
e até que fazia isso todo dia."
Os três encontraram uma saída para sua dependência. Bueno a
achou depois de ficar três dias preso. "Fui tomar um banho na casa da
minha irmã", conta.
"Minha mãe estava lá e me convenceu a procurar os AA. Faz 31
anos que não bebo." Carlos encontrou uma nova oportunidade ao bater no
vidro de um carro para pedir esmola. "Quem estava nele era meu
irmão", conta. "Pedi para que me internasse para me livrar do vício.
Estou há sete anos sem beber."
Maria Cristina procurou outra saída. "Lendo uma reportagem,
fiquei sabendo que a Unifesp estava precisando de voluntário para testar um
novo remédio contra o álcool", diz. "Fiz os testes e fui considerada
alcoólatra. Com a medicação e o apoio psicológico parei de beber desde
março."
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DROGAS: Manual
vai orientar o tratamento de usuário - Texto é dirigido a médicos
Folha de São Paulo, Cotidiano, quarta-feira,
06 de novembro de 2002 - AURELIANO BIANCARELLI
Os médicos sabem que as drogas estão por trás de grande parte
das urgências hospitalares e das doenças que eles mesmos enfrentam. Sabem
também que o profissional mais indicado para detectar as dependências e
orientar no tratamento são eles próprios.
Na prática, no entanto, o médico não sabe como diagnosticar o
paciente, não tem diretrizes para tratá-lo ou encaminhá-lo e, muitas vezes,
enfrenta a questão com preconceito e moralismo.
Se depender das instituições médicas, esse quadro está chegando
ao fim.
A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Regional de
Medicina do Estado de São Paulo (CRM) lançaram ontem um manual para
"orientação e tratamento de usuários de cigarro, álcool e drogas".
O manual é uma das cem diretrizes que a Associação Médica
Brasileira está preparando sobre a grande maioria das doenças, declarou Eleuses
Vieira de Paiva, presidente da entidade.
A diretriz é um guia prático para o médico não-especialista.
As drogas são divididas em álcool, tabaco, anfetaminas
(inibidores do apetite e estimulantes), benzodiazepínicos (tranquilizantes),
opiáceos, cocaína, maconha e solventes.
O manual descreve conceitos, padrões de consumo, riscos
relacionados, os critérios de diagnóstico e complicações clínicas.
"Não se trata de um consenso -um caminho a ser seguido-,
mas de uma diretriz que o médico adotará de acordo com o perfil do
paciente", diz Moacyr Roberto Cuce Nobre, que coordena o projeto
Diretrizes, da AMB.
Saúde Pública
O manual coloca a questão da droga na sua condição de saúde
pública, observa Regina Parizi. Da atual diretriz, participaram cerca de 60
especialistas das principais instituições que lidam com o tema, numa
unanimidade nem sempre vista nesse meio.
Mesmo o conceito de "redução de danos", que divide parte
dos profissionais, está implícito na sua essência.
"Todo médico está orientado a cuidar de todos os pacientes,
mesmo daqueles que não conseguem ou não querem abandonar a droga", diz o
psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que coordenou o manual. "A política será
sempre de inclusão."
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Novidade nos EUA para dependentes de drogas: Tratamento poderá ser realizado, em
breve, com uma nova geração de medicamentos
O Estado de São Paulo, Geral - Segunda-feira,
4 de novembro de 2002 - HOWARD MARKEL, The New York Times
NOVA YORK - Nos próximos anos, a dependência de drogas
provavelmente será tratada como a hipertensão, a diabete e outras doenças
crônicas: com uma variedade de medicamentos receitados no consultório médico.
Neste mês, a FDA, a agência americana que regulamenta os
remédios e alimentos, anunciou a aprovação de dois medicamentos com receita
para dependentes de heroína: buprenorfina (um opióide parcial que provoca
mínimas alterações de ânimo) e buprenorfina-naloxona (uma combinação com um
antagonista de opióides). Estudos realizados ao longo da última década indicam
que esses medicamentos podem ser tão eficientes como a metadona para reduzir o
uso de opióides e para evitar que os dependentes abandonem os programas de
tratamento.
A metadona - o tratamento preferido desde os anos 60 - provoca
euforia quando tomada por via oral, e ainda mais quando injetada. Mas a
buprenorfina-naloxona não causa esse efeito por via oral e, se injetada, na
verdade faz o viciado se sentir mal. A buprenorfina-naloxona também tem um
potencial de overdose e sintomas de abstinência muito menores que os da
metadona, e tem de ser usada com menos freqüência - uma vez a cada dois ou três
dias, contra o uso diário da droga mais antiga.
Ainda mais importante que isso, a buprenorfina-naloxona pode ser
receitada na privacidade de um consultório - resultado do Ato de Tratamento da
Dependência de Drogas de 2000, escrito em antecipação à nova geração de
medicamentos. A esperança é que, permitindo aos dependentes que evitem as
visitas a clínicas centralizadas de metadona, seja eliminado o estigma do
tratamento, e mais pacientes procurem ajuda no início da dependência.
O senador Carl M. Levin, co-patrocinador da lei, descreveu-a
como um "passo revolucionário dado pelo governo no tratamento da
dependência de heroína como uma doença, não como um desvio moral". Ele
acrescentou que a iniciativa "trará grandes benefícios sociais com a redução
do crime, da população carcerária e dos gastos com saúde".
Outro patrocinador da lei, o senador Orrin G. Hatch, observou
que o objetivo não é descriminalizar o uso da heroína. "Certamente não
apóio o uso de drogas", afirmou ele. "Mas para aqueles que fizeram
más (e ilegais) escolhas, e vêem-se na agonia da dependência de drogas
ilícitas, a ajuda está a caminho." Alguns especialistas dizem que a nova
era do tratamento da dependência inevitavelmente vai afetar o debate sobre a
descriminalização das drogas.
Se o abuso de heroína é apenas mais uma condição tratável, essa
droga ainda é uma perigosa ameaça à sociedade? "A combinação entre o
desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos e a nova lei permitindo o
tratamento em consultórios privados representa uma mudança realmente
significativa", disse Alan Leshner, presidente da Associação Americana
para o Avanço da Ciência e editor da revista Science. "É uma prova
concreta de que estamos enxergando a dependência como uma doença genuína."
A metadona continua sendo o padrão para o tratamento da dependência de opiáceos
- especialmente para usuários de heroína que têm hábitos já estabelecidos e
requerem grandes doses. Mas medicamentos como a buprenorfina-naloxona permitem
mais alternativas para os pacientes e podem se mostrar especialmente úteis nos
estágios iniciais da dependência.
Curso - O Escritório dos EUA para a Política de Controle
Nacional de Drogas calcula que existem 1,1 milhão de viciados em heroína e que
apenas 200 mil estão inscritos em programas de metadona. A nova lei exige que
os médicos assistam a um curso de oito horas sobre o uso da
buprenorfina-naloxona. Cada médico, ou equipe, pode tratar até 30 pacientes.
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Um quinto das grávidas bebe além do limite: Estudo feito pela USP de Ribeirão
Preto com 450 gestantes mostra que 22,1% ingeriram mais de 28 g de álcool
Folha de
São Paulo, domingo, 22 de setembro de 2002CLÁUDIA COLLUCCI.
A mulher que deseja ter um filho deve abster-se de ingerir
bebidas alcoólicas antes mesmo da gravidez. Especialistas dizem que não há uma
dose-limite segura e que a ingestão de 28 gramas de álcool (o equivalente a
duas latinhas de cerveja), mesmo que ocasional, já pode ser prejudicial ao feto,
especialmente nas primeiras semanas de gravidez.
O consumo de álcool entre as gestantes é mais frequente do que
se imagina. Nos EUA, estima-se que anualmente 65% dos fetos sejam expostos, em
menor ou maior grau, ao álcool. No Brasil, não há estimativa sobre isso.
Mas uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da USP de
Ribeirão Preto (SP) mostra que a situação pode ser bem parecida. O estudo feito
com um grupo de 450 mulheres no último trimestre da gestação revelou que uma em
cada cinco (22,1%) havia consumido álcool acima do limite seguro (mais de 28
gramas).
Um número bem maior, 48% das pesquisadas, relatou algum consumo
de álcool durante a gestação. Desse total, 9,1% das grávidas eram dependentes
de bebida ou a consumiam em excesso.
O álcool ingerido pela gestante atravessa a placenta e faz com
que o feto receba as mesmas concentrações alcoólicas que a mãe. Porém a
exposição fetal é maior devido aos processos de metabolização e eliminação
serem mais lentos, fazendo com que o líquido amniótico permaneça impregnado de
álcool. Como é imaturo, o fígado do feto produz menos enzimas que decompõem o
álcool.
"Se na mãe a metabolização do álcool ocorre em 15 minutos,
no feto demora mais de duas horas", afirma o clínico-geral Maurício
Gattaz, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A pesquisa, feita no ano passado como tese de mestrado do
enfermeiro Carlos Eduardo Fabbri, avaliou gestantes carentes acompanhadas por
uma maternidade filantrópica de Ribeirão Preto.
Segundo Fabbri, o trabalho mostrou que médicos e enfermeiros têm
dificuldades em diagnosticar o consumo de álcool entre as gestantes. Prova
disso é que foram encontrados apenas 2% de registros relativos a grávidas que
consumiam álcool durante a gestação nos prontuários médicos das mulheres
pesquisadas.
Para o ginecologista Rui Ferriani, 45, professor titular da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, essa discrepância dos números é um bom
argumento para propor mudanças na forma como os médicos abordam essas questões
durante o pré-natal.
Ele afirma que as perguntas são genéricas e, geralmente, não se
valoriza o "consumo social" do álcool. "Pelo que vimos, o
consumo pode não estar sendo tão "social" assim", afirma.
A quantidade de álcool consumida pela mãe não é o único fator
que determina o efeito dessa exposição na criança.
A tolerância individual da gestante e do bebê também tem um
papel importante e, por isso, não é possível estipular qual a quantidade que a
mãe pode beber sem provocar danos ao bebê.
Mas não pode nem uma tacinha de vinho durante um jantar entre
amigos? "Não", responde o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, 45,
professor de psiquiatria da Unifesp e presidente da Abead (Associação
Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas).
"O organismo de cada pessoa reage de maneira diferente ao
álcool. Como não sabemos qual é a quantidade que causa esse ou aquele problema
no feto, as grávidas devem se abster totalmente de bebida alcoólica", diz
Laranjeira.
Síndrome
As sequelas causadas no bebê vão depender de diversos fatores,
como a duração do tempo em que a mãe bebeu, os seus hábitos de bebida, a
quantidade de álcool absorvida e a forma como o seu metabolismo elimina o
álcool.
Também é importante a história genética da mãe e o comportamento
em relação ao álcool antes de ficar grávida. Filhos de mulheres com antecedentes
familiares de alcoolismo e uma história pessoal de excessos correm mais riscos
de desenvolver a síndrome do alcoolismo fetal (SAF), um mal que afeta, a cada
ano,12 mil bebês, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
As crianças vítimas dessa doença podem ter lesões cerebrais e
malformações físicas e orgânicas, que afetam olhos, boca, rins, coração e
órgãos genitais, entre outros, assim como problemas de aprendizado e
desenvolvimento.
Cerveja preta não aumenta leite materno
A abstinência de bebidas alcoólicas deve ser levada a sério
também pelas mulheres que estão amamentando. O álcool pode passar para o bebê
por meio do leite materno e causar, entre outros sintomas, sonolência e falta
de apetite.
Portanto esqueça aquela história de que cerveja preta aumenta a
produção de leite. "É puro mito. Não há evidência científica nenhuma de
que a cerveja preta ou vinho do Porto ou qualquer outra bebida ou comida
aumentem a produção do leite", afirma a enfermeira Márcia Regina da Silva,
32, coordenadora do grupo de gestação e amamentação do Hospital São Luiz, em
São Paulo.
Segundo ela, o maior estímulo para a produção do leite é a
sucção do bebê. Quando o recém-nascido está mamando, há liberação de hormônios,
que são responsáveis pela produção e saída do leite.
Márcia diz que essas idéias equivocadas passam de geração para
geração e é difícil tirá-las da cabeça das mães.
"Cada indivíduo é um indivíduo, não dá para generalizar. O
suposto bom resultado da cerveja preta é puramente psicológico", afirma.
Márcia diz que, na escala de dúvidas das gestantes e das
lactantes, a ingestão de álcool aparece em terceiro lugar, perdendo para
questões sobre alimentação e fumo.
Entre as lactantes, são poucas as que se convencem do mal que
pode representar a cerveja preta. "Todas as mulheres da minha família
beberam cerveja preta durante a amamentação. Minha mãe teve quatro filhos,
minhas tias outros tantos e nenhum deles sofreu sequelas por causa da
cerveja", afirma a secretária Carla Regina da Silva, 32, mãe de dois filhos
e grávida do terceiro.
Segundo o clínico-geral Maurício Gattaz, 45, coordenador da
emergência clínica do Hospital das Clínicas de São Paulo, assim como no caso do
fígado dos fetos, o do recém-nascido é incapaz de metabolizar o álcool na mesma
velocidade do da mãe. "O que, para a mãe, é uma taça de vinho, para o
bebê, é uma tremenda bebedeira", afirma Gattaz.
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Traficantes mexicanos vendem 'doses infantis'
O Estado de São Paulo, 18 de Setembro de 02.
CIDADE DO MÉXICO - A polícia informou ter apreendido pacotes
com meia dose de cocaína com traficantes presos nas últimas semanas nas escolas
da periferia da Cidade do México. Os traficantes pretendiam com as "doses
infantis" viciar os estudantes. Nove pessoas foram presas com os pacotes
contendo meio grama de cocaína - metade da quantidade normal para consumo de um
adulto.
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Pesquisa mostra que é generalizada a idéia de que o
consumo de entorpecentes é nocivo, ponto enfatizado em campanhas oficiais: Brasileiro considera fácil o acesso
a drogas
Adriano, que faz tratamento para abandonar as drogas e o álcool,
diz que não é difícil conseguir heroína em São Paulo; para especialistas,
consumo é reduzido no país
Folha de São Paulo, quinta-feira, 05 de
setembro de 2002 IURI DANTAS
Pesquisa da Escola Paulista de Medicina mostra como os
brasileiros consideram fácil ter acesso a drogas, principalmente maconha e
cocaína.
Segundo o levantamento, encomendado pela Senad (Secretaria
Nacional Antidrogas), 60,9% dos entrevistados consideram muito fácil conseguir
maconha, sendo mais da metade desse total composto por jovens de 12 a 17 anos.
Em relação à cocaína, 45,8% disseram acreditar que é fácil obter
a droga, e 36,1% apontaram a facilidade de comprar crack.
A heroína -entorpecente de efeito mais devastador presente na
pesquisa- é vista como de fácil acesso por um em cada cinco brasileiros. Na
região Sudeste, o índice chega a 25,6%.
Segundo José Carlos Galduroz, coordenador do Cebrid (Centro
Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas), entidade ligada à Escola
Paulista de Medicina, a população está com medo, e há um sentimento de que o
tráfico de drogas está muito próximo.
Essa proximidade, porém, não corresponde à realidade, segundo
Galduroz. O argumento se justifica no fato de "apenas" 1% da
população admitir que consome maconha. As outras drogas não apresentaram peso
estatístico considerável.
Galduroz afirma também que o senso comum de que o Sudeste
concentra a maior quantidade de usuários de drogas "cai por terra"
com a pesquisa e que o problema dos entorpecentes é identificável em todo o
território nacional.
Os dados da pesquisa mostram que os moradores do Sul e do
Sudeste afirmam ter mais facilidade para obter as drogas mais pesadas, como
crack, heroína e LSD. Em relação à maconha e à cocaína, a variação é pequena
entre as regiões (veja quadro).
Propaganda
A noção dos danos causados pelo uso contínuo de narcóticos,
segundo o levantamento, já foi assimilado pela população -94,5% acham que há
risco grave no consumo diário de álcool, maconha (95,8%) e crack ou cocaína
(98,8%). Ou seja, o brasileiro já sabe que drogas são nocivas, ponto mais
enfatizado na propaganda oficial contra entorpecentes adotada no país.
A informação vai ajudar a promover alterações na política
nacional antidrogas. Segundo o secretário Paulo Roberto Uchôa, da Senad, novas
peças publicitárias devem destacar os benefícios de não consumir entorpecentes.
Galduroz diz que os resultados contrariam o "imaginário
popular" sobre o tema das drogas, por mostrar que "álcool e tabaco
são o problema fundamental no país", em vez de maconha e cocaína.
Entre os entrevistados, 4% admitiram já ter passado por algum
tratamento devido ao consumo de drogas, ilícitas ou não.
A avaliação de Galduroz é que o número ainda é pequeno,
basicamente, por uma deficiência do sistema de saúde de acolher os dependentes
no momento certo. Em certos casos, diz Galduroz, são necessários dois ou três
meses para conseguir uma consulta.
Um resultado preliminar da pesquisa foi divulgado em junho,
revelando que mais de 9 milhões de brasileiros já haviam consumido alguma droga
-seja ilícita ou permitida, como álcool e tabaco.
A pesquisa foi realizada de setembro a dezembro de 2001 e ouviu
moradores das 107 cidades com mais de 200 mil habitantes em todo o país.
PF já apreendeu 27 kg de heroína
A quantidade de heroína apreendida neste ano pela Polícia Federal
já é pouco superior ao total registrado em 2001. Foram apreendidos 27,7 kg da
droga até agosto. Em 2001, o total foi de 27,4 kg em todo o país.
Segundo o general Paulo Roberto Uchôa, secretário nacional
antidrogas, "a heroína não é um problema para o Brasil". O
levantamento encomendado pela Senad mostrou que menos de 1% da população admite
usar a droga.
Na quinta-feira passada, a PF prendeu o colombiano Alberto
Restrepo Herrera com 13 jaquetas de náilon e uma calça jeans com a droga nos
forros. O peso das roupas com a heroína era de 25 kg. A perícia ainda não
divulgou a quantidade de droga, mas a Folha apurou que deve ser de 15 kg.
Segundo Getúlio Bezerra, delegado responsável pelo Departamento
de Repressão a Entorpecentes da PF, de quase 2.000 ocorrências relacionadas a
drogas anualmente, cerca de quatro se referem à heroína.
A PF apreendeu 8,3 toneladas de cocaína e 146 toneladas de
maconha nos 12 meses de 2001. Até o fim do mês passado, as apreensões de
cocaína totalizaram 7,7 toneladas e 105,8 toneladas de maconha no país. (ID)
Realidade é outra, diz especialista
AURELIANO BIANCARELLI, DA REPORTAGEM LOCAL
Da casa onde mora, em um bairro classe média da zona sul de São
Paulo, o estagiário Adriano, 27, diz que precisa caminhar apenas dez minutos
para encontrar quem lhe forneça heroína. No Rio, onde viveu até dois anos
atrás, "era mais fácil ainda".
"Fiquei nisso anos e conheço os canais, mas quem está fora
não chega lá", diz Adriano. "Precisa conhecer, ter influência."
Ele acha que um grupo muito pequeno de pessoas -mesmo entre os usuários de
cocaína- saberia onde encontrar heroína nessas cidades.
Especialistas também concordam que essa droga é ainda de
pouquíssimo consumo no país. São raros os casos de dependentes nos serviços e a
maioria começou a usar a droga lá fora. O dado de que um quinto das pessoas
considera fácil encontrar heroína "não corresponde à realidade", diz
Ronaldo Laranjeira, presidente da Abead, Associação Brasileira de Álcool e
Drogas, e diretor da Uniad, Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo).
Na sua opinião, as pessoas acreditam que um traficante de
maconha ou cocaína saberia onde encontrar heroína, o que "não é
verdade". "O uso vem crescendo, mas ainda é muito pequeno."
Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Proad, programa de
prevenção e tratamento da Unifesp, diz que a pesquisa reflete "um conceito
errôneo". "As pessoas vêem uma notícia sobre heroína na mídia e
imaginam que saberiam onde achá-la."
Adriano seguiu a trajetória comum a muitos dependentes.
"Sem pai, nem mãe", aos 12 anos já fumava maconha e antes dos 18 já
tinha que vender papelotes de cocaína para ter a sua parte.
Bebia, fumava maconha, cheirava cocaína e às vezes usava heroína
-"cheirada, bebida ou fumada". Ficou preso por "três anos e 57
dias". Quando voltou para a rua, voltou para a dependência.
"Até que não aguentei mais. Aparecia um problema, eu ia da
bebida para a droga, gastava tudo. No dia seguinte, não me lembrava como tinha
voltado para casa."
Há sete meses Adriano frequenta o Proad e é acompanhado por um
terapeuta e a cada 15 dias por um psiquiatra, que o medica. Ontem, comemorava
oito dias sem usar álcool nem droga. "Não sei quanto tempo vou ficar
assim, mas é uma vitória."
"O programa do Proad contempla sucessos parciais e não tem
a abstinência como um pressuposto", diz Xavier da Silveira.
Os modelos de tratamento dividem os profissionais da saúde. Na
semana passada, uma conferência internacional no Recife defendeu a idéia de que
é mais positivo e realista reduzir os riscos das drogas e do álcool do que
pretender acabar com seu uso.
Numa linha mais norte-americana -mais pela abstinência do que
pela redução de danos-, começa amanhã em São Paulo o 1º Congresso Internacional
de Prevenção e Políticas Públicas em Álcool e Drogas. O encontro é promovido
pela Abead-Uniad e tem o apoio da Secretaria Nacional Antidrogas e do Consulado
dos EUA em São Paulo.
Consumo de heroína produz "doente crônico"
LUIZ CAVERSAN - DA REPORTAGEM LOCAL
Carlos, 41, surfista, atlético, dois filhos adolescentes,
arquiteto bem-sucedido, viajava muito ao exterior. Numa dessas viagens, quando
tinha 30 anos, experimentou heroína. Gostou. Muito.
Repetiu a experiência outras vezes. De dois anos para cá, passou
a encontrar a droga no Rio, onde mora. A facilidade fez com que usasse com
frequência. A frequência aumentou e o que era uma "brincadeira"
acabou virando um vício.
Carlos está fazendo tratamento de desintoxicação há seis meses.
"Venci a batalha, mas me tornei um doente crônico. Não posso nem pensar
naquela história de um pouquinho para matar a saudade", diz.
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Jovens devem ser ensinados a beber, afirmam
especialistas - Segmentos
menos favorecidos sofrem mais com dependência
Folha de São Paulo, Cotidiano, quarta-feira,
28 de agosto de 2002 AURELIANO BIANCARELLI
Assim como as pessoas aprendem a dirigir antes de pegar a
estrada, o jovem deveria ser ensinado a beber antes de ter acesso ao álcool. E
o local para esse aprendizado deveria ser a escola.
A tese é defendida por Alan Marlatt, da Universidade de
Washington (Seattle, EUA), que ontem à noite participou da abertura da 1ª
Conferência Internacional de Álcool e Redução de Danos, que acontece no Recife.
Marlatt, titular de psicologia clínica e diretor do Centro de
Estudos do Comportamento Aditivo da Universidade de Washington, ressalva que o
ideal para o jovem é que não beba. Mas, como muitos deles vão beber, a melhor
opção é ensiná-los, de preferência dentro dos currículos escolares.
A brasileira Beatriz Carlini Marlatt, da mesma universidade e
partidária da tese, diz que "não significa que os estudantes vão beber na
colégios, assim como não fazem sexo nas aulas de sexualidade e saúde".
Beatriz falará no congresso sobre "festas virtuais",
espécie de jogos desenvolvidos nos EUA e na Nova Zelândia onde o jovem, pela
internet, participa de uma festa, escolhe a música, a bebida, e vai sendo
informado do nível de álcool e dos riscos a que está sujeito, dirigindo ou
namorando.
O Hospital Albert Einstein, de São Paulo, criou há dois anos uma
"festa virtual", que começou com 60 jovens e hoje "tem cerca de
900 acessos diários", diz Beatriz, que participou da criação do site
(www.einstein.br/alcooledrogas -clicar em "nossa festa").
O encontro do Recife é o primeiro a aplicar o conceito de
redução de danos no consumo de álcool. A idéia vem sendo empregada com sucesso
entre usuários de drogas injetáveis. Para evitar que se infectem com o vírus da
Aids, os programas oferecem seringas e informação.
Dentro do mesmo princípio, acredita-se que o melhor a fazer é
ensinar a beber e a reduzir os riscos da bebida -como a violência urbana e
doméstica- em lugar de tentar banir completamente o seu consumo. Na conferência
participam cerca de 20 convidados estrangeiros e 80 nacionais.
"Para a medicina tradicional, o contrário da dependência é
a abstinência. Dentro dos princípios da redução de danos, o contrário da
dependência é, inclusive, a liberdade de escolha", diz Ana Glória Melcop,
do Centro de Prevenção às Dependências, do Recife, e presidente nacional da
conferência.
"Beber é uma opção que não retira da pessoa o direito ao
respeito, à saúde e a uma vida digna", afirmou.
Para ela, "num país de desemprego e de falta de
oportunidades, o álcool vem mais para amenizar o sofrimento do que como forma
de obtenção de prazer".
Vários trabalhos nacionais e internacionais vão mostrar que a
dependência do álcool ocorre em todas as classes sociais e em todas as idades.
"Mas são os segmentos menos favorecidos, os desempregados,
as populações discriminadas, como as indígenas, os afrodescendentes, que mais
sofrem o impacto da dependência e do abuso do álcool", diz Ana Glória.
A conferência tem apoio da Organização Mundial da Saúde, dos
ministérios da Saúde e da Justiça e de instituições nacionais e internacionais
que trabalham com políticas de redução de danos.
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O efeito da droga - Nota-se uma proliferação de drogas sintéticas, produzidas e
consumidas a baixo custo nos países ricos
Jornal Folha de São Paulo, TENDÊNCIAS/DEBATES,
segunda-feira, 01 de julho de 2002, WÁLTER MAIEROVITCH
Nos últimos 40 anos, fracassaram sistematicamente as políticas e
as estratégias tradicionais empregadas para contrastar a difusão das drogas
proibidas.
A Convenção de Viena, de 1988, reafirmou a política e a
estratégia de repressão total contra a produção e o tráfico de drogas. Proibiu
e criminalizou o porte de drogas para consumo pessoal e preconizou a adoção de
sanções mais rígidas aos consumidores.
Verifica-se, agora, continuar significativo o aumento da oferta
e da demanda das drogas ilícitas. Nota-se, também, uma proliferação de drogas
sintéticas, produzidas e consumidas a baixo custo nos países ricos.
Nesses anos passados, o mercado das drogas nunca apresentou
sinais de crise, quer pela conjuntura econômica, quer por ações repressivas das
polícias. A economia movimentada pelas drogas atraiu o interesse de elites
políticas nos vários países produtores. Existem narco-Estados, países cúmplices
e ditaduras militares de sustentação, como em Mianmar (ex-Birmânia). Além
disso, aumentou a circulação do dinheiro sujo das drogas com o aproveitamento
da tecnologia de ponta fornecida pelos sistemas bancários e financeiros, tanto
nas zonas "on shore" (Miami, Viena etc.) como nos paraísos fiscais.
A geopolítica das drogas, muitas vezes, esconde interesses
hegemônicos, estratégicos e econômicos, como, por exemplo, o sucedido no
Afeganistão, na Colômbia, no Peru e no Paquistão.
Da Europa partiram as novas posturas para o enfrentamento do
fenômeno das drogas e a própria Secretaria Geral da ONU já percebeu a falência
da linha norte-americana da "War on Drugs" (Guerra às Drogas). Mas
Bush mantém-se irredutível e traz de volta o discurso de Ronald Reagan. Aquele
da guerra contra as drogas internacionais, apontando a produção e a oferta
vindas do exterior como de responsabilidade dos inimigos da América.
Na sessão especial da Assembléia Geral de 1998, nem todos
engoliram a máxima do "a drug free world - we can do it" (um mundo
livre das drogas, podemos construí-lo). Muito menos o ufanismo contido no
discurso inaugural de que a "War on Drugs" não estava perdida,
simplesmente porque não havia sido iniciada.
O sinal de desaprovação deveu-se ao fato de a maioria dos
Estados-membros haver vetado a "Strategy for Coca and Opium Poppy
Elimination". Esta estratégia previa a eliminação, em dez anos (até 2008),
do cultivo ilícito de coca e papoula existente no mundo. Para tanto,
estabelecia a erradicação forçada -"manu militari"- e o
desenvolvimento de cultivos alternativos na Colômbia, na Bolívia, no Peru, em
Mianmar, no Laos, no Vietnã, no Afeganistão e no Paquistão.
Os norte-americanos, nesses anos todos, procuraram impedir o
consumo das drogas com a criminalização e obrigatoriedade da abstinência.
Posição que os Estados Unidos fazem pressão para introduzir no mundo todo.
Acreditaram na onipotência da lei da proibição para o fim de
inibir o uso. Investiram no tratamento obrigatório, com abstinência de consumo
durante o seu curso, como alternativa à pena de prisão para o réu primário.
Inventaram, para isso, os Tribunais para Dependentes Químicos, para os quais o
usuário será sempre um criminoso, na cadeia ou em tratamento.
Essa fórmula perversa é maquiada pelo falso slogan do "mais
tratamento, menos cárcere". Foi adotada na Inglaterra, em 1990, no
programa "Drug Treatment and Testing Order". Mas os ingleses
perceberam o erro, pois o verdadeiro slogan seria "mais tratamento, sob a
ameaça de cárcere".
A política sobre drogas ilícitas recentemente anunciada pelo
presidente Fernando Henrique Cardoso adotou o modelo norte-americano.
Criminalizou o porte de droga para uso pessoal. Introduziu, usando um
eufemismo, a Justiça Terapêutica no Brasil. Ou seja, obriga-se o criminoso ao
tratamento, com abstinência e sem possibilidade de controle de danos e riscos:
redução de doses, substituição de drogas pesadas por leves etc.
Entre nós, a criminalização está presente na lei em vigor e no
artigo 20 do projeto de lei 6.108, há pouco encaminhado pelo governo federal ao
Congresso Nacional.
Na política escolhida pelo presidente, o porte para uso pessoal
é crime. A pena por esse tipo de crime pode ser o tratamento obrigatório.
Assim, consagrou o presidente Fernando Henrique o caminho ironizado na Europa
como sendo o da solidariedade autoritária.
A imaginada redenção pela Justiça Terapêutica elimina a
possibilidade de adoção da prática sociossanitária européia, conhecida como
redução de danos. E a redução de danos não implica abandono de uso, mas
controle dos riscos.
Diversos países europeus têm uma abordagem mais pragmática e
humana. Reconhecem consistir o uso de drogas em um fato social que não se
consegue impedir. Daí a importância do controle dos danos e do abandono da
criminalização e do tratamento coercitivo.
Portugal virou modelo. O porte de drogas para uso próprio é uma
infração administrativa, ou seja, não criminal. Foram criadas 18 comissões
civis, nas quais especialistas, fora da área criminal, orientam e informam o
consumidor. No caso de reincidência, há um elenco de medidas que não diminuem
nem afetam a dignidade do consumidor.
Talvez ainda haja tempo para o presidente anunciar mudança na
sua política, que encerra a ideologia norte-americana da intolerância e
estabeleceu uma solidariedade autoritária para com os consumidores.
Wálter Fanganiello Maierovitch, 55, juiz aposentado do Tribunal
de Alçada Criminal de São Paulo, é presidente do Instituto Brasileiro de
Ciências Criminais Giovanne Falcone. Foi secretário nacional antidrogas da
Presidência da República (1999-2000).
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Escola nos EUA já pode fazer teste de droga - Suprema Corte americana decide que
escolas podem exigir exames de seus alunos para atividades extracurriculares.
Folha de São Paulo, sexta-feira, 28 de junho
de 2002 - JAMES VICINI - DA REUTERS, EM WASHINGTON.
A Suprema Corte dos EUA decidiu, em votação apertada, que as
escolas públicas de segundo grau têm o direito de exigir testes de drogas para
alunos que participem de atividades extracurriculares, como coral ou banda, sem
que isso constitua violação de seu direito à privacidade.
O tribunal sustentou, por 5 votos a 4, um programa do Estado de
Oklahoma que requer que estudantes que tomam parte em atividades posteriores ao
período das aulas se submetam a exames de urina aleatórios.
Os testes, que são exigidos independentemente de suspeita de uso
de drogas, envolvem estudantes da 7ª à 12ª séries, na faixa dos 12 aos 18 anos,
que se matriculam para as atividades.
A decisão da Suprema Corte anulou uma sentença de uma corte de
apelações federal segundo a qual um programa de testes de drogas, adotado pelo
condado de Pottawatomie (Oklahoma), não era legal, pois não havia um problema
específico de drogas que justificasse a ação.
Alunos que se recusem a fazer o teste ou cujos testes apontem
presença de drogas mais de duas vezes não serão admitidos em competições pelo
restante do ano letivo.
Os estudantes passarão por testes no começo do ano letivo e por
exames aleatórios a qualquer momento, com nomes sorteados para os testes a cada
mês.
Estímulo
A decisão pode estimular o uso de testes de drogas nas escolas.
Ao longo dos últimos três anos, cerca de 5% das escolas americanas passaram a exigir
testes de drogas para os estudantes que praticam esportes, enquanto cerca de 2%
delas testaram os estudantes envolvidos em outras atividades extracurriculares.
Ao defender os testes de drogas, a Suprema Corte adotou a
posição defendida pelo governo Bush. Nos depoimentos referentes ao caso, um
advogado representando o governo Bush declarou que uma escola teria até mesmo o
direito de testar todos os seus alunos à procura de drogas sem que isso
constituísse violação de seus direitos de privacidade.
A Corte Suprema tratou dessa questão pela última vez em 1995,
quando decidiu que as escolas públicas de segundo grau e intermediárias podiam
forçar os estudantes que praticam esportes a passar por testes de drogas. O
caso do Oklahoma envolvia outras atividades extracurriculares que não o
atletismo.
Em Tecumseh, uma cidade rural localizada a 64 km de Oklahoma
City, dois estudantes contestaram a norma depois que ela foi adotada em 1998,
alegando que a escola não demonstrara que sofre problemas devido ao uso de drogas
ilegais.
O conselho escolar defendeu o programa e sua autoridade para
adotar testes para reprimir e combater o uso de drogas.
Dos mais de 500 estudantes que passaram por testes enquanto o
programa esteve em vigor, durante parte de dois anos letivos, apenas três
alunos, todos os quais atletas, apresentaram traços de uso de drogas. Dois dos
atletas participavam também de outras atividades extracurriculares.
A juíza Ruth Bader Ginsburg, que votou contra, alegou que o
programa de testes não era razoável, que era injusto e até mesmo
"perverso", porque "tem por alvo a população estudantil cuja
probabilidade de risco diante de drogas ilícitas e seus efeitos negativos é
mais baixa".
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42% dos universitários já utilizaram drogas
Folha de São Paulo, quinta-feira, 27 de junho
de 2002 - ANA PAULA MARGARIDO, DA FOLHA CAMPINAS
No Dia Nacional de Combate às Drogas, a PUC-Campinas (Pontifícia
Universidade Católica de Campinas) divulgou pesquisa que aponta o crescimento de
25%, nos últimos quatro anos, no percentual de estudantes universitários que já
experimentaram alguma substância psicoativa.
O estudo mostra que, em 98, 33,2% dos 1.567 alunos pesquisados
já haviam usado algum tipo de droga pelo menos uma vez. Em 2001, esse
percentual passou para 41,5% dos 1.487 alunos ouvidos.
Revela também que a média de idade de
início do consumo caiu de 17 para 16 anos. A maconha e os solventes são,
segundo a pesquisa, as drogas mais usadas, seguidos dos estimulantes. O estudo
ouviu alunos entre 17 e 23 anos da área de ciências biomédicas.
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DROGAS: Cresce
a procura por tratamento - Médicos dizem que nem sempre internação é o melhor.
Folha de São Paulo, Folhateen, segunda-feira,
24 de junho de 2002, DA REPORTAGEM LOCAL
Com a discussão sobre dependência química levantada pela
falecida novela "O Clone", de Glória Perez, vista por até 36 milhões
de pessoas ao mesmo tempo, os principais serviços de informação sobre drogas
tiveram um salto de procura por parte de pais que pediam orientação e de jovens
que buscavam indicações de clínicas de tratamento para o problema.
Só na Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) a média mensal de
ligações passou de 750 para mais de 4.500 nos últimos dois meses. O Conselho
Estadual de Entorpecentes de São Paulo apontou também um aumento de mais de
100% na procura do serviço, especialmente por jovens.
"A novela serviu de campanha, o que dificilmente
conseguiríamos realizar", admite Paulo Roberto Uchôa, 61, secretário
nacional antidrogas, que divulgou na semana passada o primeiro levantamento
domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas, feito pelo Cebrid (Centro
Brasileiro de Informações sobre Drogas).
No despertar para o tratamento da dependência, é preciso cuidado
na hora de eleger uma clínica ou um profissional.
"Há estabelecimentos bem-intencionados mas, como em quase
tudo, há também os mal-intencionados", alerta Arthur Guerra, 48, do Grea
(grupo de estudos de drogas do Hospital das Clínicas).
Segundo Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal
de São Paulo e coordenador da Rede Estadual de Apoio a Médicos Dependentes
Químicos, nos últimos dez anos houve uma explosão no consumo de drogas e na
busca de ajuda. "Ainda há profissionais pouco aparelhados para lidar com o
problema", diz.
"Muitas clínicas se baseiam na internação do paciente. O
dependente mal bate na porta e já é internado, e a maioria dos usuários não
necessita disso. Os casos de internação são a exceção da exceção. O tratamento
ambulatorial é o mais indicado", esclarece.
Laranjeira, que integra uma comissão da Senad que pretende
estabelecer os critérios de qualidade dos centros de tratamento, também chama a
atenção para as clínicas que baseiam seu tratamento em ex-usuários. "Eles
têm conhecimento limitado do problema e podem ser bons só em alguns
casos."
Sua dica é que um familiar ou o próprio dependente pergunte ao
profissional que o trata que tipo de especialização ele tem em dependência
química. Há ainda os serviços telefônicos da Senad (0800-61 43 21) e dos
Conselhos Estaduais Antidrogas, que podem indicar clínicas e ambulatórios de
tratamento, assim como serviços públicos, como o do Hospital das Clínicas e o
da Escola Paulista de Medicina.
Caminho das pedras
Segundo dados da pesquisa do Cebrid, realizada nas 107 maiores
cidades do país, mais de 1,2 milhão de jovens entre 12 e 24 anos já
experimentaram maconha no Brasil. Entre eles, cerca de 280 mil são considerados
dependentes.
Se a novela fosse como a vida real, quase todos eles passariam
da maconha para a cocaína e daí para o crime. Jogo pesado.
"Pode não acontecer nada. Mas nem todos têm essa
sorte", diz Raul Pinto, diretor-executivo da Associação Parceria Contra as
Drogas.
Segundo Laranjeira, a polêmica história de que a maconha é a
porta de entrada para outras drogas não se deve a "uma reação
farmacológica", mas a uma "influência social". "Quem nunca
experimentou maconha tem menos chances de experimentar outras drogas do que
quem a consome", explica. E o estudante Hideki Katsumata, 18, sabe disso
muito bem.
Aos 13 anos, experimentou maconha com os novos amigos de um
condomínio no Rio de Janeiro, onde morava. Dois anos depois, no interior de São
Paulo, foi apresentado à cocaína, e passou a usá-la diariamente. Aos 17, depois
de muitas confusões e de dois anos perdidos na escola, foi internado pela
família em uma clínica. "A crise de abstinência é muito forte. Quebrei
toda uma clínica e fui levado à força para outra. Não achava aquilo
justo."
Depois de oito meses de tratamento, Hideki diz que entrou no
mundo "mais velho". "Criei o Provim, Projeto Vida Melhor (tel.
0/ xx/11/4427-3169), no qual dou palestras. Minha história serve para ajudar
outras pessoas", diz.
"Comecei a usar drogas na alta
sociedade carioca e terminei nas ruas do centro de São Paulo. Ainda tenho
sequelas, surtos de perseguição e coisas assim. Só não consigo é ficar de
braços cruzados diante desse problema." (FERNANDA MENA)
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DANOS DO ÁLCOOL
Folha de São Paulo, pg. A2, segunda-feira, 10
de junho de 2002
Em agosto próximo, o Brasil vai sediar a 1ª Conferência
Internacional de Álcool e Redução de Danos. É um conceito polêmico dentro da
própria psiquiatria. A noção de redução de danos ganhou destaque internacional
com os projetos de trocas de seringa para viciados em drogas injetáveis. Essas
primeiras iniciativas, reconhecendo a incapacidade do agente de saúde para
convencer o dependente a abandonar as drogas, se propunham a pelo menos evitar
que os viciados se contaminassem com a Aids ao compartilhar seringas. Os
índices de infecção entre usuários caíram em muitos dos lugares onde programas
dessa natureza foram implantados.
Esses projetos acabavam levando usuários de drogas a frequentar
serviços de saúde, num primeiro momento só para trocar as seringas.
Verificou-se que a simples aproximação com os centros médicos já ampliava as
chances de o dependente aceitar participar de um tratamento.
Programas de redução de danos ganharam rápida fama. Havia outros
campos de atuação além de troca de seringas, como convencer dependentes a não
dirigir enquanto estivessem sob o efeito de drogas ou não fazer sexo sem
proteção.
No caso do álcool, a questão é mais polêmica. Durante décadas a
maioria dos tratamentos para alcoolismo operou com o conceito de abstinência. A
psiquiatria não vai mudar essa abordagem sem dispor de sólidos estudos que
demonstrem a eficiência da redução de danos para o álcool.
Parte do sucesso do conceito de redução se deve ao
desenvolvimento de uma relação de confiança entre paciente e médico num
contexto em que a droga é ilícita. Como o álcool não é ilícito, as coisas podem
não funcionar de modo idêntico.
Mesmo considerando essas dificuldades, é bastante positivo que
se proponham e discutam alternativas às abordagens tradicionais, seja da
psiquiatria seja das políticas públicas para lidar com os problemas gerados
pelo consumo de álcool.
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O risco fatal do ecstasy
ADRIANA IRION; MARIANA BERTOLUCCI - ZH JORNAL ZERO HORA -
Domingo 19/05/2002 - Página: 33 Porto Alegre
Primeiro, ele apareceu em encontros de grupos restritos. Depois,
sorrateiro, passou por bares e boates e invadiu grandes festas abertas ao
público. Na última semana, mostrou sua cara perversa, ultrapassando os limites
da diversão para se tornar suspeito da morte de uma jovem.
O ecstasy chegou ao Rio Grande do Sul. A droga, cara e que pode
matar na primeira dose, conquistou consumidores pegando de surpresa
autoridades, médicos e pais.
Em uma semana, as pílulas saltaram da categoria de desconhecidas
e aparentemente inexistentes no Estado para o rol de prioridades da polícia.
Até então, não havia notícias de apreensões ou investigações sobre ecstasy, mas
seu consumo já era prática comum em festas e casas noturnas da Capital e do
Interior.
O ecstasy ou "e", como é apelidado, é uma espécie de
anfetamina com moléculas semelhantes às de um alucinógeno. Droga sintética,
produzida em laboratórios, não provoca alucinações como o LSD (ácido lisérgico)
nem excitação como a cocaína, mas combina efeitos moderados das duas drogas.
É impressionante como o ecstasy pode te levar a extremos em
questão de horas. No começo, surge uma alegria imensa. Não dá vontade de parar
de sorrir, de abraçar as pessoas e falar palavras de afeto e carinho. É uma
sensação maravilhosa. Mas isso tudo é uma ilusão e dura de três a quatro horas.
Aí, a excitação vai dando lugar à tristeza. A tristeza bate de tal forma que a
pessoa sente um vazio enorme. E não há nada que faça esse vazio passar. É uma
sensação muito ruim - contou a Zero Hora uma estudante de 22 anos.
Para a psicanalista Maria Cecília Pereira da Silva, da Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo - Estado onde é alto o consumo da droga
-, o uso do ecstasy pelos jovens está associado à busca do prazer imediato:
- Os efeitos podem durar até 12 horas. O ecstasy gera
dependência, taquicardia, elevação da temperatura do corpo e depressão. Os
jovens usam por uma fantasia de prazer imediato ou por desejar "uma
viagem" que os afaste de suas inseguranças diante do futuro. São
frustrações, impotências, sentimentos próprios da adolescência, nem sempre
fáceis de suportar.
***
BOX:
OS EFEITOS NO ORGANISMO
(Página 33)
A origem
Já existia em 1912. Em 1914, o laboratório alemão Merck
patenteou a fórmula, esperando que estancasse hemorragias. Permaneceu esquecida
até ser ressuscitada na Califórnia (EUA), nos anos 60. O químico Alexander
Schulgin sintetizou o MDMA em seu laboratório e testou os efeitos em si mesmo.
Em 1978, psicoterapeutas americanos começaram a usar como droga auxiliar em
seus tratamentos. Nos anos 80, podia ser encontrado em bares americanos com os
nomes de Adam, Essence e Love e em cidades européias. Em 1986, a droga foi
proibida.
O princípio ativo
O ecstasy é composto pelo MDMA (metilenodioxidometanfetamina). É
um tipo de anfetamina com moléculas semelhantes às de um alucinógeno.
O ecstasy é ingerido por via oral. Chega à circulação sangüínea
em 20 a 60 minutos, por meio do aparelho digestivo, e espalha-se pelo corpo.
O uso prolongado danifica o fígado, o coração e o cérebro.
A serotonina é um dos reguladores da temperatura do corpo. Um
riscoimediato de quem toma ecstasy é o da hipertermia - superaquecimento do
organismo. As mortes associadas às drogas são decorrentes quase sempre da
elevação da temperatura do corpo acima dos 42ºC.
No cérebro, atua sobre os neurotransmissores - responsáveis pela
transmissão de informações do cérebro -, que regulam o humor e outras funções.
São três os neurotransmissores afetados: a serotonina, a dopamina e a noradrenalina.
O mais atingido pela droga é a serotonina, que controla emoções e regula o
domínio sensorial e motor. O MDMA provoca uma descarga de serotonina nas
células nervosas do cérebro, provocando sensações de bem-estar e leveza. O
efeito pode voltar semanas depois.
OS RISCOS
Hiper-hidratação - O metabolismo acelerado eleva a temperatura
do corpo, e o usuário, desidratado, pode morrer devido ao excesso de consumo
d'água. O sistema que regula a quantidade de líquido no organismo é um
equilíbrio entre os rins e o coração. Se o coração está bombeando mal, os rins
estão eliminando mal. Com o sistema afetado, a alta temperatura faz com que a
sede aumente. O excesso de líquido no corpo poderá fazer o sangue concentrar-se
no pulmão, provocando um edema agudo pulmonar, que leva à morte.
Danos ao cérebro - Com o sistema circulatório afetado, o sangue
estará sendo maldistribuído, principalmente para o cérebro, o que poderá causar
danos a longo prazo. O ecstasy pode degenerar o sistema dopaminégico - da
substância cerebral dopamina -, provocando alterações motoras importantes como
o Mal de Parkinson (perda de coordenação e tremor, uma espécie de paralisia).
Hipertermia maligna - O aumento da temperatura do corpo no nível
do tronco cerebral (na altura da nuca) é intolerável, e o corpo começa a
utilizar proteínas circulantes rapidamente e a alterar os sistemas muscular,
cardiovascular (coração, principais veias e artérias) e renal.
Danos ao coração - O sangue pode coagular, produzindo convulsões
e parada cardíaca. O aumento dos batimentos também pode levar à morte.
Danos aos rins - Altera imediatamente todo o sistema renal.
Danos ao fígado - Se o uso é continuado, poderá causar hepatite.
OS EFEITOS
Gerais - Euforia, impulsividade, perda de juízo crítico,
sentimentos de facilidade para a sociabilidade, sensualidade, felicidade e
autoconfiança, excitação e disposição física, podendo chegar à exaustão.
Colaterais - Falta de apetite, boca seca, taquicardia, calor e
frio, dificuldades de memorização e atenção, vontade de urinar e insônia.
Danos físicos - Hipertermia, arritmia cardíaca, insuficiência
hepática e renal, convulsões, hemorragia cerebral e morte súbita.
Problemas psiquiátricos - Pânico, depressão, paranóia,
dificuldade cognitiva, perda de memória e de atenção, promiscuidade sexual,
psicose crônica (alucinações, delírios e confusão mental) e insônia crônica.
QUEM PROCURAR:
O psiquiatra Cássio Castellarin, do Centro de Informações
Toxicológicas CIT, aconselha que as pessoas não devem ter vergonha nem medo de
procurar um serviço de emergência, ao sentir qualquer tipo de mal-estar.
AS ROTAS
Os Estados Unidos são os maiores produtores e consumidores de
ecstasy do mundo.
Na Europa, a Holanda é quem distribui a droga. Ela é enviada
para a África, que a remete para a América do Sul. O ecstasy chega pelo
Paraguai e, depois, entra no Brasil
Na Ásia, os laboratórios clandestinos estão na República de
Mianmar (antiga Birmânia). De lá, o ectasy vai para o Japão e para a Nigéria
Fontes: José Outeiral, psiquiatra, Flavio Pechansky, psiquiatra
e coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto
Alegre, Mauro Soibelman, especialista em dependência química e chefe do setor
de clínica do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS), Angelo Campana,
psiquiatra da unidade de dependentes químicos do Hospital Mãe de Deus,
Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas dos Estados Unidos e Escola Paulista
de Medicina
O risco fatal do ecstasy
Comprimido é vendido livremente na noite
É relativamente fácil comprar ecstasy em bares, danceterias e
festas rave de Porto Alegre.
Zero Hora esteve em uma festa realizada neste mês, na Capital.
De 23 pessoas entrevistadas, 21 admitiram estar sob efeito da droga, facilmente
comprada de traficantes e consumidores a R$ 40 o comprimido.
Desinformados, muitos jovens tomam "bala", pastilha
ou, simplesmente, "e" (como é chamado o tóxico pelos usuários).
Iludidos com o prazer rápido, confuso e momentâneo, não imaginam do que o
"e" é capaz e desconhecem o risco que correm.
Na festa, duas garotas de 18 anos conversam deitadas com um
pirulito na
mão:
- Quem toma "e" tem de chupar pirulito. O sabor fica
bem melhor - diz uma delas.
Depois de consumir a droga, a publicitária Joana (nome fictício,
assim como outros nesta reportagem), 24 anos, a modelo Samantha, 21, e a
advogada Cândida, 25, circulam pela pista. De repente, Joana convida, eufórica:
- Vamos correr?!!!
As amigas dão as mãos e saem correndo. Na volta, descrevem a ZH
o que sentem.
- É tudo de bom. O bom dessa droga é que a tua cabeça é quem
decide o que quer fazer porque não se perde a consciência nem por um minuto. Tu
é quem escolhe o barato que quer curtir. Tu é quem domina a droga, entende? -
diz Samantha.
Pura ilusão, alertam especialistas.
- Eu jamais me sentaria ao lado de alguém que está dirigindo
depois de ter tomado ecstasy - afirma Flavio Pechansky, coordenador do Programa
de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas.
O sangue pode coagular, produzindo convulsões, aumento dos
batimentos, parada cardíaca e até a morte. Com o sistema circulatório afetado,
o sangue é maldistribuído, principalmente para o cérebro, o que causa danos a
longo prazo. O uso contínuo pode provocar alterações motoras e resultar em Mal
de Parkinson.
Essas informações são desconhecidas pela estudante Camila, 16
anos. Além do "e", aspira lança-perfume na festa. Perguntada se não
tem medo, responde:
- Medo do quê? É só ir na manha que não dá nada.
Também conhecida como "pílula do amor", a droga, na
opinião de usuários, tira a inibição e acentua a sensualidade e a
sensibilidade.
Depois de experimentar o ecstasy com o namorado - cada um tomou
meio comprimido -, a estudante de Medicina Helena, 28 anos, está nervosa. Não
pára de mexer as mãos, em questão de minutos tira e coloca o casaco várias
vezes. Não sente vontade de dançar:
- Não gosto dessa música. Tô impressionada com a cor forte da
brasa do cigarro e como é maravilhoso beijar o pescoço do meu namorado.
Esperava mais da droga pelo que me diziam. Tento identificar o que sinto, e o
máximo que percebo é que tenho muita sede. Meu corpo está mole, mas a cabeça
está normal.
O namorado, o empresário Juliano, 33 anos, está eufórico.
- Meus sentidos ficaram à flor da pele. Fiquei muito mais
sociável, sensível aos toques. Alongar meu corpo foi prazeroso. Perdi o cansaço
e fiquei ativo. Sensível às batidas graves da música eletrônica - descreve
Juliano.
Perto das 5h, Joana, Samantha e Cândida seguem experimentando
novos movimentos.
- É fantástico! Tu perde a vergonha de fazer qualquer coisa. Já
tirei as calças em uma outra festa. Tiro aqui se quiserem (foi impedida pelas
amigas) - ameaça Joana.
Seis da manhã. Pessoas deitadas. A pista continua cheia, e a
sensação de depressão pós-droga é resumida por Helena.
- Parece que tem chumbo nas minhas pernas - descreve, ao sofrer
uma das conseqüências comuns entre consumidores, o esgotamento muscular, devido
à excitação.
* Leia mais nesta e na página 33.
O risco fatal do ecstasy
O risco fatal do ecstasy
Droga atinge sistemas vitais
O ecstasy danifica sistemas vitais do organismo, como a
circulação sangüínea, causando parada cardíaca.
A droga afeta a serotonina, substância que regula o humor, a
agressividade, a atividade sexual, o sono e a sensitividade à dor.
- O pós-efeito é perceptível na ausência da droga. Possivelmente
causa dependência, depressão, angústia, inquietude e fissura pela falta. É um
quadro dramático - define o médico Mauro Soibelman, especialista em dependência
química e chefe do setor de clínica do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de
Porto Alegre.
Pesquisa do National Institute in Drug Abuse (Estados Unidos) em
macacos mostrou que a exposição ao ecstasy por quatro dias causou dano cerebral
que persistiram por sete anos.
- É extremamente potente. Produz sensações de rapidez e
agitação. É parecida com a cocaína, mas produz alucinações. A pessoa é capaz de
se atirar embaixo de um carro - explica Flavio Pechansky, psiquiatra e
coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto
Alegre.
Combinado com outras drogas e o álcool, o consumo oferece mais
perigo.
- O álcool vai atingir o sistema cardiovascular - diz Pechansky.
Outro efeito é a desidratação.
- Nestas festas, guarda-se água em tonéis, em caso de falta. A
pessoa se agita muito, o que provoca vômito e urina. O corpo vai à falência.
Perdem-se muito líquido e sais minerais. A falência dos órgãos independe de a
pessoa ter propensão a problemas de qualquer ordem - alerta o psiquiatra José
Outeiral.
Soibelman concorda que o perigo da droga é justamente o conjunto
de efeitos aparentemente positivos e inofensivos:
- Não existe nada mais perfeito para uma festa. É uma droga
muito perigosa por isso.
O mito da "pílula do amor" é descartado pelo
psiquiatra Angelo Campana, da unidade de dependentes químicos do Hospital Mãe
de Deus:
- Não existe isso. A pessoa transa porque está acordada e
excitada e não porque a droga dá tesão. Há uns 10 anos, quando começou a entrar
no Brasil, já começamos a nos preocupar. No Exterior, já está diminuindo o
consumo em função das mortes.
* Leia mais nesta e na página 33.
O risco fatal do ecstasy
ZH Volume: 039 Edição: 13.418 Domingo 19/05/2002 Página: 33
Editoria: Geral
Seção: Polícia
Assunto: Indlet, Saúde, Droga, Tóxico, Entorpecente, Dependente
Químico,
Vício, Viciado, Utilização, Usuário, Dependência Química,
Drogado,
Comportamento, Droga Ilícita, Mapa, Traficante, Tráfico,
Narcotráfico,
Narcotraficante, Crime, Criminoso, Suspeita, Morte, Vítima
Fatal,
Comprimido, Drágea, Pílula, Boate, Noite, Festa, Rio Grande do
Sul,
Consumo, Consumidor, Substância tóxica, Frase, Declaração,
Risco,
Perigo, Dano, Organismo, Conseqüência, Atuação, Efeito, Duração,
Tempo,
Sensação, Característica, Venda, Comercialização, Compra, Reação
Química, Alteração, Comportamento, Relato, Descrição, Caso,
Case,
Família, Familiar, Frase, Declaração, Comentário, Opinião
O risco fatal do ecstasy
"Vão matar muita gente inocente"
A jovem de 23 anos que morreu no domingo por suspeita de uso de
ecstasy se formaria em Psicologia, adorava animais, praia e costumava conversar
com a família sobre drogas.
Ela saiu de casa, em Porto Alegre, sábado à noite, para ir ao
aniversário de uma amiga. Domingo de manhã, depois de ir a uma boate, morreu
com edema pulmonar agudo.
Os pais não descartam a hipótese de ela ter experimentado
ecstasy por curiosidade. A polícia investiga o caso e aguarda exames sobre a
presença da droga no organismo. Abaixo, trechos da entrevista que os pais
concederam a Zero Hora na sexta-feira:
Pai - Foi um golpe muito duro. Ela era muita vida, era a vida da
nossa casa. Era uma liderança. Tinha tempo para resolver tudo. Estudava, fazia
estágio, organizava as coisas em casa. É inacreditável o que ocorreu. Tinha
amor pela vida, muita energia. A solidariedade dos amigos é grande.
Mãe - A nossa casa está sempre cheia, mas ficamos esperando que
ela chegue a toda hora. É um pesadelo. Estou muito chateada porque me despedi
dela sábado sem dar um beijo, ela tomava banho para ir à festa. A imagem que
tenho é ela entrando em casa com livros, avental, pasta, falando.
Mãe - A gente não acredita ainda. Era uma menina sadia, que
tinha horror às drogas. Falávamos muito em drogas. Correm boatos de que ela
usava drogas. Mas ela não usava.
Mãe - Não digo que ela não tenha tomado ecstasy, a gente não
sabe o que ocorreu, é uma suspeita. Ela deve ter tomado para ver o que era, mas
não foi de boba. Pode ter tomado para experimentar, ela tinha curiosidade com
as coisas. Estou muito magoada por perder minha filha, que era um modelo de
menina, especial.
Pai - Eu estou horrorizado, vão matar muita gente inocente, pois
dizem que é fácil comprar essa droga. Estou revoltado. Me disseram que é só
chegar e pedir. A polícia não vai lá porque não quer.
Pai - Não sabemos dos detalhes. A amiga que estava com ela está
chocada. Perguntei para o ex-namorado dela sobre como estava na festa. Ele viu
ela bem. Estava bem e depois ocorre isso.
Pai - Estou indignado. Ninguém faz nada para impedir, não
entendo a liberdade com que o pessoal tem acesso a essa droga. Quantos
inocentes vão morrer? É a juventude, a criançada que está tomando. Queria um basta,
isso não pode ocorrer."
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Consumo de drogas atinge 32% das escolas
Folha de São Paulo, 10/05/2002 - São Paulo - SP
Pesquisa feita em 2.351 estabelecimentos de todo o país mostra
ainda que o problema provoca aumento de violência João Carlos Silva da
Reportagem Local
Pesquisa inédita feita em todo o país revela que o consumo de
drogas está presente em 32,1% das escolas de ensino médio e fundamental. Já o
tráfico de entorpecentes aparece em 21,7% desses estabelecimentos. A consulta
foi feita em unidades de ensino municipais, estaduais e particulares. Os
índices constam da pesquisa "Retratos da Escola 2", da Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Educação. No estudo, divulgado ontem, foram ouvidos
cerca de 20 mil alunos e 2.000 professores e funcionários em 2.351
estabelecimentos de ensino. No estudo, o parâmetro para atestar a presença de
tráfico ou de consumo de drogas nas escolas permite que o problema seja
ocasional ou frequente e possa ter ocorrido dentro ou no entorno da escola
pesquisada. No caso de tráfico de drogas, o Rio Grande do Sul aparece, em
extrato da pesquisa com dados por Estado, com o maior índice de ocorrência
ocasional dentro e fora da escola -23,1% e de 40,4%, respectivamente. Nesse item,
o Estado de São Paulo está em 10º (9,8%) e 6º (34,7%) lugares. Já as escolas da
Paraíba aparecem na liderança de casos de consumo ocasional de droga nas
dependências do estabelecimento de ensino -43,2% (São Paulo, 15,4%) e as do
Ceará no entorno -66,7% (São Paulo, 22,9%). "Os índices, quaisquer que
sejam eles, nos amedrontam porque eles atingem crianças e adolescentes",
disse Teresa Leitão, secretária-geral da Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação. Efeito Apesar da presença de tráfico e de consumo de
drogas poder aparecer apenas fora da escola, o estudo aponta que os problemas
afetam diretamente a vida e o desempenho dos estudantes e dos funcionários de
um estabelecimento de ensino. O levantamento permite chegar à conclusão que as
drogas não chegam sozinhas às escolas. Elas provocam também aumento de
agressões, roubo, furto, pichações, sujeira e depredação. E o pior: diminuem a
probabilidade de o aluno aprender e, consequentemente, ser aprovado. Um dos
itens da pesquisa, por exemplo, compara a porcentagem de agressões físicas em
escolas com e sem presença de drogas. No primeiro caso, foi constatada
ocorrência de agressões em 46,9% delas. No outro, a porcentagem cai quase pela
metade (24%). Esse exemplo se repete nos outros casos de violência. As
porcentagens também mostram que escolas públicas apresentam os maiores índices,
comparado aos das particulares. Nas públicas, os maiores índices aparecem
frequentemente nas escolas estaduais -onde, por exemplo, há 26% de presença de
armas brancas. Uma explicação para esse comportamento é que essas unidades
concentram, majoritariamente, os estudantes de 5ª a 8ª séries e com a faixa
etária mais suscetível às drogas: de 11 a 17 anos, na maioria dos casos. No
aspecto da interferência da violência da aprendizagem, a diferença entre
escolas particulares e públicas volta a aparecer, mas o contraste é maior,
segundo o estudo da confederação. Cruzamento de dados feitos no estudo aponta,
por exemplo, que um aluno da 4ª série de escola pública terá 14,7% mais facilidade
de aprendizagem se estiver em um estabelecimento em que não há presença de
violência. Mas, se o aluno estiver em uma escola particular, a porcentagem sobe
para 49,6%. Nas unidades em que há violência, os estudantes de escolas
particulares também serão mais afetados negativamente -25,2%, contra 7,4%, das
escolas públicas. A diferença se explica, de acordo com avaliação da
secretária-geral, devido à banalização da violência entre a faixa mais carente
da população. Ou seja: a violência perturba os mais favorecidos, que estariam
mais protegidos contra o problema.
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