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·     Maconha é levada a plebiscito

Jornal do Brasil, Internacional, quarta-feira, 06 de novembro de 2002

LOS ANGELES, EUA - Eleitores de seis estados, além de Washington, não só escolheram seus representantes à Câmara dos Deputados e ao Senado e o futuro governador, ontem. Votaram também propostas de flexibilização das leis sobre venda e consumo de maconha sob determinadas circunstâncias.

As propostas levadas a plebiscito em Nevada, Arkansas, Dakota do Sul, Ohio, Califórnia e Massachusetts enfrentaram forte oposição do czar das drogas, John Walters, que as classificou de irresponsáveis. Há tempos, a Agência de Repressão às Drogas (DEA) vem travando uma batalha judicial com a Prefeitura de São Francisco, na Califórnia.

Este estado, bem como o Arizona, já liberou o consumo de marijuana para doentes de câncer, Aids e esclerose múltipla. No plebiscito de ontem, os eleitores de São Francisco tiveram de decidir se aprovavam ou não a ''proposta S'', que permitirá o cultivo e a distribuição da maconha para uso médico.

As demais propostas são semelhantes. Em Dakota do Sul, pediu-se autorização para que as pessoas possam plantar ou carregar maconha; no Arizona, se a criação de um cadastro estadual de pacientes usuários de maconha para fins terapêuticos é constitucional.

Na capital, Washington, e no estado de Ohio pediu-se que o eleitor decidisse sobre se, em vez de mandar o consumidor para atrás das grades, o Estado lhe oferecerá tratamento gratuito.

A proposta mais radical, contudo, foi a de Nevada, onde os eleitores decidiram se permitem ou não o porte de 84 gramas de maconha, que poderá ser adquirida em lojas, como cigarros e bebidas.

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·     Nova missão dos médicos: rastrear vícios: AMB e Cremesp recomendam atenção à dependência química em qualquer paciente

O Estado de São Paulo, Geral- Quarta-feira, 6 de novembro de 2002; LUCIANA MIRANDA

Todos os médicos têm uma missão: detectar em seus pacientes a dependência química. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e a Associação Médica Brasileira (AMB) lançaram ontem um manual com a nova diretriz. O documento tem o objetivo de orientar a conduta dos médicos que não são especializados no tratamento da dependência química.

Ao suturar um ferimento, o médico deve pensar nas causas daquele machucado.

O acidente pode ter sido provocado, por exemplo, porque o paciente abusou de bebida alcoólica. "Bastam três minutos de conversa com o paciente para fazer o que chamamos de intervenção mínima", explica o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador científico do manual e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essa é a oportunidade que o médico deve aproveitar para transmitir ao paciente informações básicas sobre o uso de drogas.

O mesmo princípio deve ser seguido no atendimento de consultório. E a presidente do Cremesp, Regina Parizi, alerta que não é suficiente o médico perguntar apenas: "Você bebe?". "A resposta mais comum para essa pergunta é: "Socialmente". É preciso abordagem adequada, capaz de detalhar o uso que o paciente faz da substância, mas deixando-o à vontade para falar sobre o assunto."

A idéia parte do princípio de que, mais cedo ou mais tarde, quem é dependente de alguma droga acaba procurando um serviço de saúde para tratar outras doenças. Por isso, todos os médicos precisam estar habilitados para reconhecer a dependência sem que o paciente se queixe dela. Ao detectar o abuso, cabe ao médico ajudar seu paciente a se tratar. Se o caso for complexo, o paciente deve ser encaminhado para um especialista.

Preparo - "As escolas de medicina não preparam o profissional para tratar dependência química", ressalta Laranjeira. Até porque a abordagem do abuso como um problema de saúde é recente. No passado, a dependência de drogas era considerada por muitos falta de caráter e fraqueza moral, não doença a ser tratada. As entidades querem que o médico veja a dependência química como um problema de saúde.

Regina reforça que o abuso de drogas já é um problema de saúde pública, pois atinge todas as camadas sociais. "O desafio que acompanha a história da humanidade é descobrir porque tantas pessoas no mundo precisam da droga para se sentir melhor." Apesar de a origem do problema permanecer desconhecida pela ciência, a dependência química tem tratamento que envolve medicamentos e psicoterapia.

Ainda há carência de serviços públicos especializados para tratar dependência química, mas Laranjeira diz que as redes têm sido ampliadas. Os especialistas reforçam que os grupos de auto-ajuda, como os Alcoólicos Anônimos, também têm um papel importante no tratamento.

No Brasil, o álcool é a principal droga de abuso. Levantamento realizado nas 107 maiores cidades do País mostra que 11,2% dos brasileiros são dependentes de bebida alcoólica. "Muitas doenças têm como causa determinado comportamento. E mudar comportamento faz parte do trabalho do médico", completa Laranjeira.

O manual, que será distribuído para os 285 mil médicos do Brasil, traz informações básicas sobre a dependência de oito substâncias: álcool, nicotina, maconha, cocaína, anfetaminas, benzodiazepínicos (calmantes), opiáceos (morfina) e solventes. O documento completo também está disponível no site do Cremesp: www.cremesp.com.br.

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·     De repente, perda de controle. E as histórias se repetem: Alcoólicos Anônimos estão em 150 países, com mais de 2 milhões de freqüentadores

O Estado de São Paulo, Geral - Quarta-feira, 6 de novembro de 2002 - EVANILDO DA SILVEIRA

As histórias dos dependentes que procuram os Alcoólicos Anônimos (AA) são todas parecidas. A maioria começa a beber cedo e por um longo período consegue administrar o vício, até que, de repente, perde o controle.

Então procura os AA. A partir daí é uma luta diária para se manter longe da bebida. Hoje são cerca de 2 milhões de AA em 150 países.

O aposentado Bueno - os AA não se identificam -, de 70 anos, é um deles.

Começou a beber aos 16 anos, "para vencer a inibição". Até os 37 anos conseguiu. "Com essa idade, eu era assistente administrativo de um grande banco", lembra. "Um ano depois, perdi a mulher e a família. Era um "malocado", vivia numa pensão barata, com mendigos e bandidos."

Seu colega de AA, Carlos, 52 anos, motorista aposentado, começou a beber mais cedo, aos 12. "Pelos 25 anos seguintes, vivi bêbado o tempo todo", conta. "Casei e trabalhava bêbado; só pensava em beber." Apesar disso, ele ainda não havia chegado ao fundo do poço. Isso ocorreu quando sua mulher morreu, depois de 20 anos de casamento. Em três meses, Carlos vendeu a casa e o táxi que tinha e engoliu todo o dinheiro em bebida. "Fui para as ruas, por onde perambulei entre 1994 e 1995", recorda. "Pedia esmola para comprar bebida."

Maria Cristina, 50 anos, tem uma história diferente. Ela não foi tão fundo no alcoolismo. Bebedora esporádica, só começou a acreditar que tinha problemas com o álcool de uns quatro anos para cá. "Primeiro comecei a torcer para que o fim de semana chegasse logo para eu beber", revela.

"Depois comecei a beber uma vez por semana, mais tarde duas e até que fazia isso todo dia."

Os três encontraram uma saída para sua dependência. Bueno a achou depois de ficar três dias preso. "Fui tomar um banho na casa da minha irmã", conta.

"Minha mãe estava lá e me convenceu a procurar os AA. Faz 31 anos que não bebo." Carlos encontrou uma nova oportunidade ao bater no vidro de um carro para pedir esmola. "Quem estava nele era meu irmão", conta. "Pedi para que me internasse para me livrar do vício. Estou há sete anos sem beber."

Maria Cristina procurou outra saída. "Lendo uma reportagem, fiquei sabendo que a Unifesp estava precisando de voluntário para testar um novo remédio contra o álcool", diz. "Fiz os testes e fui considerada alcoólatra. Com a medicação e o apoio psicológico parei de beber desde março."

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·     DROGAS: Manual vai orientar o tratamento de usuário - Texto é dirigido a médicos

Folha de São Paulo, Cotidiano, quarta-feira, 06 de novembro de 2002 - AURELIANO BIANCARELLI

Os médicos sabem que as drogas estão por trás de grande parte das urgências hospitalares e das doenças que eles mesmos enfrentam. Sabem também que o profissional mais indicado para detectar as dependências e orientar no tratamento são eles próprios.

Na prática, no entanto, o médico não sabe como diagnosticar o paciente, não tem diretrizes para tratá-lo ou encaminhá-lo e, muitas vezes, enfrenta a questão com preconceito e moralismo.

Se depender das instituições médicas, esse quadro está chegando ao fim.

A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CRM) lançaram ontem um manual para "orientação e tratamento de usuários de cigarro, álcool e drogas".

O manual é uma das cem diretrizes que a Associação Médica Brasileira está preparando sobre a grande maioria das doenças, declarou Eleuses Vieira de Paiva, presidente da entidade.

A diretriz é um guia prático para o médico não-especialista.

As drogas são divididas em álcool, tabaco, anfetaminas (inibidores do apetite e estimulantes), benzodiazepínicos (tranquilizantes), opiáceos, cocaína, maconha e solventes.

O manual descreve conceitos, padrões de consumo, riscos relacionados, os critérios de diagnóstico e complicações clínicas.

"Não se trata de um consenso -um caminho a ser seguido-, mas de uma diretriz que o médico adotará de acordo com o perfil do paciente", diz Moacyr Roberto Cuce Nobre, que coordena o projeto Diretrizes, da AMB.

Saúde Pública

O manual coloca a questão da droga na sua condição de saúde pública, observa Regina Parizi. Da atual diretriz, participaram cerca de 60 especialistas das principais instituições que lidam com o tema, numa unanimidade nem sempre vista nesse meio.

Mesmo o conceito de "redução de danos", que divide parte dos profissionais, está implícito na sua essência.

"Todo médico está orientado a cuidar de todos os pacientes, mesmo daqueles que não conseguem ou não querem abandonar a droga", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que coordenou o manual. "A política será sempre de inclusão."

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·     Novidade nos EUA para dependentes de drogas: Tratamento poderá ser realizado, em breve, com uma nova geração de medicamentos

O Estado de São Paulo, Geral - Segunda-feira, 4 de novembro de 2002 - HOWARD MARKEL, The New York Times

NOVA YORK - Nos próximos anos, a dependência de drogas provavelmente será tratada como a hipertensão, a diabete e outras doenças crônicas: com uma variedade de medicamentos receitados no consultório médico.

Neste mês, a FDA, a agência americana que regulamenta os remédios e alimentos, anunciou a aprovação de dois medicamentos com receita para dependentes de heroína: buprenorfina (um opióide parcial que provoca mínimas alterações de ânimo) e buprenorfina-naloxona (uma combinação com um antagonista de opióides). Estudos realizados ao longo da última década indicam que esses medicamentos podem ser tão eficientes como a metadona para reduzir o uso de opióides e para evitar que os dependentes abandonem os programas de tratamento.

A metadona - o tratamento preferido desde os anos 60 - provoca euforia quando tomada por via oral, e ainda mais quando injetada. Mas a buprenorfina-naloxona não causa esse efeito por via oral e, se injetada, na verdade faz o viciado se sentir mal. A buprenorfina-naloxona também tem um potencial de overdose e sintomas de abstinência muito menores que os da metadona, e tem de ser usada com menos freqüência - uma vez a cada dois ou três dias, contra o uso diário da droga mais antiga.

Ainda mais importante que isso, a buprenorfina-naloxona pode ser receitada na privacidade de um consultório - resultado do Ato de Tratamento da Dependência de Drogas de 2000, escrito em antecipação à nova geração de medicamentos. A esperança é que, permitindo aos dependentes que evitem as visitas a clínicas centralizadas de metadona, seja eliminado o estigma do tratamento, e mais pacientes procurem ajuda no início da dependência.

O senador Carl M. Levin, co-patrocinador da lei, descreveu-a como um "passo revolucionário dado pelo governo no tratamento da dependência de heroína como uma doença, não como um desvio moral". Ele acrescentou que a iniciativa "trará grandes benefícios sociais com a redução do crime, da população carcerária e dos gastos com saúde".

Outro patrocinador da lei, o senador Orrin G. Hatch, observou que o objetivo não é descriminalizar o uso da heroína. "Certamente não apóio o uso de drogas", afirmou ele. "Mas para aqueles que fizeram más (e ilegais) escolhas, e vêem-se na agonia da dependência de drogas ilícitas, a ajuda está a caminho." Alguns especialistas dizem que a nova era do tratamento da dependência inevitavelmente vai afetar o debate sobre a descriminalização das drogas.

Se o abuso de heroína é apenas mais uma condição tratável, essa droga ainda é uma perigosa ameaça à sociedade? "A combinação entre o desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos e a nova lei permitindo o tratamento em consultórios privados representa uma mudança realmente significativa", disse Alan Leshner, presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência e editor da revista Science. "É uma prova concreta de que estamos enxergando a dependência como uma doença genuína." A metadona continua sendo o padrão para o tratamento da dependência de opiáceos - especialmente para usuários de heroína que têm hábitos já estabelecidos e requerem grandes doses. Mas medicamentos como a buprenorfina-naloxona permitem mais alternativas para os pacientes e podem se mostrar especialmente úteis nos estágios iniciais da dependência.

Curso - O Escritório dos EUA para a Política de Controle Nacional de Drogas calcula que existem 1,1 milhão de viciados em heroína e que apenas 200 mil estão inscritos em programas de metadona. A nova lei exige que os médicos assistam a um curso de oito horas sobre o uso da buprenorfina-naloxona. Cada médico, ou equipe, pode tratar até 30 pacientes.

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·     Um quinto das grávidas bebe além do limite: Estudo feito pela USP de Ribeirão Preto com 450 gestantes mostra que 22,1% ingeriram mais de 28 g de álcool

Folha de São Paulo, domingo, 22 de setembro de 2002CLÁUDIA COLLUCCI.

A mulher que deseja ter um filho deve abster-se de ingerir bebidas alcoólicas antes mesmo da gravidez. Especialistas dizem que não há uma dose-limite segura e que a ingestão de 28 gramas de álcool (o equivalente a duas latinhas de cerveja), mesmo que ocasional, já pode ser prejudicial ao feto, especialmente nas primeiras semanas de gravidez.

O consumo de álcool entre as gestantes é mais frequente do que se imagina. Nos EUA, estima-se que anualmente 65% dos fetos sejam expostos, em menor ou maior grau, ao álcool. No Brasil, não há estimativa sobre isso.

Mas uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (SP) mostra que a situação pode ser bem parecida. O estudo feito com um grupo de 450 mulheres no último trimestre da gestação revelou que uma em cada cinco (22,1%) havia consumido álcool acima do limite seguro (mais de 28 gramas).

Um número bem maior, 48% das pesquisadas, relatou algum consumo de álcool durante a gestação. Desse total, 9,1% das grávidas eram dependentes de bebida ou a consumiam em excesso.

O álcool ingerido pela gestante atravessa a placenta e faz com que o feto receba as mesmas concentrações alcoólicas que a mãe. Porém a exposição fetal é maior devido aos processos de metabolização e eliminação serem mais lentos, fazendo com que o líquido amniótico permaneça impregnado de álcool. Como é imaturo, o fígado do feto produz menos enzimas que decompõem o álcool.

"Se na mãe a metabolização do álcool ocorre em 15 minutos, no feto demora mais de duas horas", afirma o clínico-geral Maurício Gattaz, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

A pesquisa, feita no ano passado como tese de mestrado do enfermeiro Carlos Eduardo Fabbri, avaliou gestantes carentes acompanhadas por uma maternidade filantrópica de Ribeirão Preto.

Segundo Fabbri, o trabalho mostrou que médicos e enfermeiros têm dificuldades em diagnosticar o consumo de álcool entre as gestantes. Prova disso é que foram encontrados apenas 2% de registros relativos a grávidas que consumiam álcool durante a gestação nos prontuários médicos das mulheres pesquisadas.

Para o ginecologista Rui Ferriani, 45, professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, essa discrepância dos números é um bom argumento para propor mudanças na forma como os médicos abordam essas questões durante o pré-natal.

Ele afirma que as perguntas são genéricas e, geralmente, não se valoriza o "consumo social" do álcool. "Pelo que vimos, o consumo pode não estar sendo tão "social" assim", afirma.

A quantidade de álcool consumida pela mãe não é o único fator que determina o efeito dessa exposição na criança.

A tolerância individual da gestante e do bebê também tem um papel importante e, por isso, não é possível estipular qual a quantidade que a mãe pode beber sem provocar danos ao bebê.

Mas não pode nem uma tacinha de vinho durante um jantar entre amigos? "Não", responde o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, 45, professor de psiquiatria da Unifesp e presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas).

"O organismo de cada pessoa reage de maneira diferente ao álcool. Como não sabemos qual é a quantidade que causa esse ou aquele problema no feto, as grávidas devem se abster totalmente de bebida alcoólica", diz Laranjeira.

Síndrome

As sequelas causadas no bebê vão depender de diversos fatores, como a duração do tempo em que a mãe bebeu, os seus hábitos de bebida, a quantidade de álcool absorvida e a forma como o seu metabolismo elimina o álcool.

Também é importante a história genética da mãe e o comportamento em relação ao álcool antes de ficar grávida. Filhos de mulheres com antecedentes familiares de alcoolismo e uma história pessoal de excessos correm mais riscos de desenvolver a síndrome do alcoolismo fetal (SAF), um mal que afeta, a cada ano,12 mil bebês, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

As crianças vítimas dessa doença podem ter lesões cerebrais e malformações físicas e orgânicas, que afetam olhos, boca, rins, coração e órgãos genitais, entre outros, assim como problemas de aprendizado e desenvolvimento.

Cerveja preta não aumenta leite materno

A abstinência de bebidas alcoólicas deve ser levada a sério também pelas mulheres que estão amamentando. O álcool pode passar para o bebê por meio do leite materno e causar, entre outros sintomas, sonolência e falta de apetite.

Portanto esqueça aquela história de que cerveja preta aumenta a produção de leite. "É puro mito. Não há evidência científica nenhuma de que a cerveja preta ou vinho do Porto ou qualquer outra bebida ou comida aumentem a produção do leite", afirma a enfermeira Márcia Regina da Silva, 32, coordenadora do grupo de gestação e amamentação do Hospital São Luiz, em São Paulo.

Segundo ela, o maior estímulo para a produção do leite é a sucção do bebê. Quando o recém-nascido está mamando, há liberação de hormônios, que são responsáveis pela produção e saída do leite.

Márcia diz que essas idéias equivocadas passam de geração para geração e é difícil tirá-las da cabeça das mães.

"Cada indivíduo é um indivíduo, não dá para generalizar. O suposto bom resultado da cerveja preta é puramente psicológico", afirma.

Márcia diz que, na escala de dúvidas das gestantes e das lactantes, a ingestão de álcool aparece em terceiro lugar, perdendo para questões sobre alimentação e fumo.

Entre as lactantes, são poucas as que se convencem do mal que pode representar a cerveja preta. "Todas as mulheres da minha família beberam cerveja preta durante a amamentação. Minha mãe teve quatro filhos, minhas tias outros tantos e nenhum deles sofreu sequelas por causa da cerveja", afirma a secretária Carla Regina da Silva, 32, mãe de dois filhos e grávida do terceiro.

Segundo o clínico-geral Maurício Gattaz, 45, coordenador da emergência clínica do Hospital das Clínicas de São Paulo, assim como no caso do fígado dos fetos, o do recém-nascido é incapaz de metabolizar o álcool na mesma velocidade do da mãe. "O que, para a mãe, é uma taça de vinho, para o bebê, é uma tremenda bebedeira", afirma Gattaz.

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·     Traficantes mexicanos vendem 'doses infantis'

O Estado de São Paulo, 18 de Setembro de 02.

CIDADE DO MÉXICO - A polícia informou ter apreendido pacotes com meia dose de cocaína com traficantes presos nas últimas semanas nas escolas da periferia da Cidade do México. Os traficantes pretendiam com as "doses infantis" viciar os estudantes. Nove pessoas foram presas com os pacotes contendo meio grama de cocaína - metade da quantidade normal para consumo de um adulto.

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·     Pesquisa mostra que é generalizada a idéia de que o consumo de entorpecentes é nocivo, ponto enfatizado em campanhas oficiais: Brasileiro considera fácil o acesso a drogas

Adriano, que faz tratamento para abandonar as drogas e o álcool, diz que não é difícil conseguir heroína em São Paulo; para especialistas, consumo é reduzido no país

Folha de São Paulo, quinta-feira, 05 de setembro de 2002 IURI DANTAS

Pesquisa da Escola Paulista de Medicina mostra como os brasileiros consideram fácil ter acesso a drogas, principalmente maconha e cocaína.

Segundo o levantamento, encomendado pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), 60,9% dos entrevistados consideram muito fácil conseguir maconha, sendo mais da metade desse total composto por jovens de 12 a 17 anos.

Em relação à cocaína, 45,8% disseram acreditar que é fácil obter a droga, e 36,1% apontaram a facilidade de comprar crack.

A heroína -entorpecente de efeito mais devastador presente na pesquisa- é vista como de fácil acesso por um em cada cinco brasileiros. Na região Sudeste, o índice chega a 25,6%.

Segundo José Carlos Galduroz, coordenador do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas), entidade ligada à Escola Paulista de Medicina, a população está com medo, e há um sentimento de que o tráfico de drogas está muito próximo.

Essa proximidade, porém, não corresponde à realidade, segundo Galduroz. O argumento se justifica no fato de "apenas" 1% da população admitir que consome maconha. As outras drogas não apresentaram peso estatístico considerável.

Galduroz afirma também que o senso comum de que o Sudeste concentra a maior quantidade de usuários de drogas "cai por terra" com a pesquisa e que o problema dos entorpecentes é identificável em todo o território nacional.

Os dados da pesquisa mostram que os moradores do Sul e do Sudeste afirmam ter mais facilidade para obter as drogas mais pesadas, como crack, heroína e LSD. Em relação à maconha e à cocaína, a variação é pequena entre as regiões (veja quadro).

Propaganda

A noção dos danos causados pelo uso contínuo de narcóticos, segundo o levantamento, já foi assimilado pela população -94,5% acham que há risco grave no consumo diário de álcool, maconha (95,8%) e crack ou cocaína (98,8%). Ou seja, o brasileiro já sabe que drogas são nocivas, ponto mais enfatizado na propaganda oficial contra entorpecentes adotada no país.

A informação vai ajudar a promover alterações na política nacional antidrogas. Segundo o secretário Paulo Roberto Uchôa, da Senad, novas peças publicitárias devem destacar os benefícios de não consumir entorpecentes.

Galduroz diz que os resultados contrariam o "imaginário popular" sobre o tema das drogas, por mostrar que "álcool e tabaco são o problema fundamental no país", em vez de maconha e cocaína.

Entre os entrevistados, 4% admitiram já ter passado por algum tratamento devido ao consumo de drogas, ilícitas ou não.

A avaliação de Galduroz é que o número ainda é pequeno, basicamente, por uma deficiência do sistema de saúde de acolher os dependentes no momento certo. Em certos casos, diz Galduroz, são necessários dois ou três meses para conseguir uma consulta.

Um resultado preliminar da pesquisa foi divulgado em junho, revelando que mais de 9 milhões de brasileiros já haviam consumido alguma droga -seja ilícita ou permitida, como álcool e tabaco.

A pesquisa foi realizada de setembro a dezembro de 2001 e ouviu moradores das 107 cidades com mais de 200 mil habitantes em todo o país.

PF já apreendeu 27 kg de heroína

A quantidade de heroína apreendida neste ano pela Polícia Federal já é pouco superior ao total registrado em 2001. Foram apreendidos 27,7 kg da droga até agosto. Em 2001, o total foi de 27,4 kg em todo o país.

Segundo o general Paulo Roberto Uchôa, secretário nacional antidrogas, "a heroína não é um problema para o Brasil". O levantamento encomendado pela Senad mostrou que menos de 1% da população admite usar a droga.

Na quinta-feira passada, a PF prendeu o colombiano Alberto Restrepo Herrera com 13 jaquetas de náilon e uma calça jeans com a droga nos forros. O peso das roupas com a heroína era de 25 kg. A perícia ainda não divulgou a quantidade de droga, mas a Folha apurou que deve ser de 15 kg.

Segundo Getúlio Bezerra, delegado responsável pelo Departamento de Repressão a Entorpecentes da PF, de quase 2.000 ocorrências relacionadas a drogas anualmente, cerca de quatro se referem à heroína.

A PF apreendeu 8,3 toneladas de cocaína e 146 toneladas de maconha nos 12 meses de 2001. Até o fim do mês passado, as apreensões de cocaína totalizaram 7,7 toneladas e 105,8 toneladas de maconha no país. (ID)

Realidade é outra, diz especialista

AURELIANO BIANCARELLI, DA REPORTAGEM LOCAL

Da casa onde mora, em um bairro classe média da zona sul de São Paulo, o estagiário Adriano, 27, diz que precisa caminhar apenas dez minutos para encontrar quem lhe forneça heroína. No Rio, onde viveu até dois anos atrás, "era mais fácil ainda".

"Fiquei nisso anos e conheço os canais, mas quem está fora não chega lá", diz Adriano. "Precisa conhecer, ter influência." Ele acha que um grupo muito pequeno de pessoas -mesmo entre os usuários de cocaína- saberia onde encontrar heroína nessas cidades.

Especialistas também concordam que essa droga é ainda de pouquíssimo consumo no país. São raros os casos de dependentes nos serviços e a maioria começou a usar a droga lá fora. O dado de que um quinto das pessoas considera fácil encontrar heroína "não corresponde à realidade", diz Ronaldo Laranjeira, presidente da Abead, Associação Brasileira de Álcool e Drogas, e diretor da Uniad, Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Na sua opinião, as pessoas acreditam que um traficante de maconha ou cocaína saberia onde encontrar heroína, o que "não é verdade". "O uso vem crescendo, mas ainda é muito pequeno."

Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Proad, programa de prevenção e tratamento da Unifesp, diz que a pesquisa reflete "um conceito errôneo". "As pessoas vêem uma notícia sobre heroína na mídia e imaginam que saberiam onde achá-la."

Adriano seguiu a trajetória comum a muitos dependentes. "Sem pai, nem mãe", aos 12 anos já fumava maconha e antes dos 18 já tinha que vender papelotes de cocaína para ter a sua parte.

Bebia, fumava maconha, cheirava cocaína e às vezes usava heroína -"cheirada, bebida ou fumada". Ficou preso por "três anos e 57 dias". Quando voltou para a rua, voltou para a dependência.

"Até que não aguentei mais. Aparecia um problema, eu ia da bebida para a droga, gastava tudo. No dia seguinte, não me lembrava como tinha voltado para casa."

Há sete meses Adriano frequenta o Proad e é acompanhado por um terapeuta e a cada 15 dias por um psiquiatra, que o medica. Ontem, comemorava oito dias sem usar álcool nem droga. "Não sei quanto tempo vou ficar assim, mas é uma vitória."

"O programa do Proad contempla sucessos parciais e não tem a abstinência como um pressuposto", diz Xavier da Silveira.

Os modelos de tratamento dividem os profissionais da saúde. Na semana passada, uma conferência internacional no Recife defendeu a idéia de que é mais positivo e realista reduzir os riscos das drogas e do álcool do que pretender acabar com seu uso.

Numa linha mais norte-americana -mais pela abstinência do que pela redução de danos-, começa amanhã em São Paulo o 1º Congresso Internacional de Prevenção e Políticas Públicas em Álcool e Drogas. O encontro é promovido pela Abead-Uniad e tem o apoio da Secretaria Nacional Antidrogas e do Consulado dos EUA em São Paulo.

Consumo de heroína produz "doente crônico"

LUIZ CAVERSAN - DA REPORTAGEM LOCAL

Carlos, 41, surfista, atlético, dois filhos adolescentes, arquiteto bem-sucedido, viajava muito ao exterior. Numa dessas viagens, quando tinha 30 anos, experimentou heroína. Gostou. Muito.

Repetiu a experiência outras vezes. De dois anos para cá, passou a encontrar a droga no Rio, onde mora. A facilidade fez com que usasse com frequência. A frequência aumentou e o que era uma "brincadeira" acabou virando um vício.

Carlos está fazendo tratamento de desintoxicação há seis meses. "Venci a batalha, mas me tornei um doente crônico. Não posso nem pensar naquela história de um pouquinho para matar a saudade", diz.

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·     Jovens devem ser ensinados a beber, afirmam especialistas - Segmentos menos favorecidos sofrem mais com dependência

Folha de São Paulo, Cotidiano, quarta-feira, 28 de agosto de 2002 AURELIANO BIANCARELLI

Assim como as pessoas aprendem a dirigir antes de pegar a estrada, o jovem deveria ser ensinado a beber antes de ter acesso ao álcool. E o local para esse aprendizado deveria ser a escola.

A tese é defendida por Alan Marlatt, da Universidade de Washington (Seattle, EUA), que ontem à noite participou da abertura da 1ª Conferência Internacional de Álcool e Redução de Danos, que acontece no Recife.

Marlatt, titular de psicologia clínica e diretor do Centro de Estudos do Comportamento Aditivo da Universidade de Washington, ressalva que o ideal para o jovem é que não beba. Mas, como muitos deles vão beber, a melhor opção é ensiná-los, de preferência dentro dos currículos escolares.

A brasileira Beatriz Carlini Marlatt, da mesma universidade e partidária da tese, diz que "não significa que os estudantes vão beber na colégios, assim como não fazem sexo nas aulas de sexualidade e saúde".

Beatriz falará no congresso sobre "festas virtuais", espécie de jogos desenvolvidos nos EUA e na Nova Zelândia onde o jovem, pela internet, participa de uma festa, escolhe a música, a bebida, e vai sendo informado do nível de álcool e dos riscos a que está sujeito, dirigindo ou namorando.

O Hospital Albert Einstein, de São Paulo, criou há dois anos uma "festa virtual", que começou com 60 jovens e hoje "tem cerca de 900 acessos diários", diz Beatriz, que participou da criação do site (www.einstein.br/alcooledrogas -clicar em "nossa festa").

O encontro do Recife é o primeiro a aplicar o conceito de redução de danos no consumo de álcool. A idéia vem sendo empregada com sucesso entre usuários de drogas injetáveis. Para evitar que se infectem com o vírus da Aids, os programas oferecem seringas e informação.

Dentro do mesmo princípio, acredita-se que o melhor a fazer é ensinar a beber e a reduzir os riscos da bebida -como a violência urbana e doméstica- em lugar de tentar banir completamente o seu consumo. Na conferência participam cerca de 20 convidados estrangeiros e 80 nacionais.

"Para a medicina tradicional, o contrário da dependência é a abstinência. Dentro dos princípios da redução de danos, o contrário da dependência é, inclusive, a liberdade de escolha", diz Ana Glória Melcop, do Centro de Prevenção às Dependências, do Recife, e presidente nacional da conferência.

"Beber é uma opção que não retira da pessoa o direito ao respeito, à saúde e a uma vida digna", afirmou.

Para ela, "num país de desemprego e de falta de oportunidades, o álcool vem mais para amenizar o sofrimento do que como forma de obtenção de prazer".

Vários trabalhos nacionais e internacionais vão mostrar que a dependência do álcool ocorre em todas as classes sociais e em todas as idades.

"Mas são os segmentos menos favorecidos, os desempregados, as populações discriminadas, como as indígenas, os afrodescendentes, que mais sofrem o impacto da dependência e do abuso do álcool", diz Ana Glória.

A conferência tem apoio da Organização Mundial da Saúde, dos ministérios da Saúde e da Justiça e de instituições nacionais e internacionais que trabalham com políticas de redução de danos.

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·     O efeito da droga - Nota-se uma proliferação de drogas sintéticas, produzidas e consumidas a baixo custo nos países ricos

Jornal Folha de São Paulo, TENDÊNCIAS/DEBATES, segunda-feira, 01 de julho de 2002, WÁLTER MAIEROVITCH

Nos últimos 40 anos, fracassaram sistematicamente as políticas e as estratégias tradicionais empregadas para contrastar a difusão das drogas proibidas.

A Convenção de Viena, de 1988, reafirmou a política e a estratégia de repressão total contra a produção e o tráfico de drogas. Proibiu e criminalizou o porte de drogas para consumo pessoal e preconizou a adoção de sanções mais rígidas aos consumidores.

Verifica-se, agora, continuar significativo o aumento da oferta e da demanda das drogas ilícitas. Nota-se, também, uma proliferação de drogas sintéticas, produzidas e consumidas a baixo custo nos países ricos.

Nesses anos passados, o mercado das drogas nunca apresentou sinais de crise, quer pela conjuntura econômica, quer por ações repressivas das polícias. A economia movimentada pelas drogas atraiu o interesse de elites políticas nos vários países produtores. Existem narco-Estados, países cúmplices e ditaduras militares de sustentação, como em Mianmar (ex-Birmânia). Além disso, aumentou a circulação do dinheiro sujo das drogas com o aproveitamento da tecnologia de ponta fornecida pelos sistemas bancários e financeiros, tanto nas zonas "on shore" (Miami, Viena etc.) como nos paraísos fiscais.

A geopolítica das drogas, muitas vezes, esconde interesses hegemônicos, estratégicos e econômicos, como, por exemplo, o sucedido no Afeganistão, na Colômbia, no Peru e no Paquistão.

Da Europa partiram as novas posturas para o enfrentamento do fenômeno das drogas e a própria Secretaria Geral da ONU já percebeu a falência da linha norte-americana da "War on Drugs" (Guerra às Drogas). Mas Bush mantém-se irredutível e traz de volta o discurso de Ronald Reagan. Aquele da guerra contra as drogas internacionais, apontando a produção e a oferta vindas do exterior como de responsabilidade dos inimigos da América.

Na sessão especial da Assembléia Geral de 1998, nem todos engoliram a máxima do "a drug free world - we can do it" (um mundo livre das drogas, podemos construí-lo). Muito menos o ufanismo contido no discurso inaugural de que a "War on Drugs" não estava perdida, simplesmente porque não havia sido iniciada.

O sinal de desaprovação deveu-se ao fato de a maioria dos Estados-membros haver vetado a "Strategy for Coca and Opium Poppy Elimination". Esta estratégia previa a eliminação, em dez anos (até 2008), do cultivo ilícito de coca e papoula existente no mundo. Para tanto, estabelecia a erradicação forçada -"manu militari"- e o desenvolvimento de cultivos alternativos na Colômbia, na Bolívia, no Peru, em Mianmar, no Laos, no Vietnã, no Afeganistão e no Paquistão.

Os norte-americanos, nesses anos todos, procuraram impedir o consumo das drogas com a criminalização e obrigatoriedade da abstinência. Posição que os Estados Unidos fazem pressão para introduzir no mundo todo.

Acreditaram na onipotência da lei da proibição para o fim de inibir o uso. Investiram no tratamento obrigatório, com abstinência de consumo durante o seu curso, como alternativa à pena de prisão para o réu primário. Inventaram, para isso, os Tribunais para Dependentes Químicos, para os quais o usuário será sempre um criminoso, na cadeia ou em tratamento.

Essa fórmula perversa é maquiada pelo falso slogan do "mais tratamento, menos cárcere". Foi adotada na Inglaterra, em 1990, no programa "Drug Treatment and Testing Order". Mas os ingleses perceberam o erro, pois o verdadeiro slogan seria "mais tratamento, sob a ameaça de cárcere".

A política sobre drogas ilícitas recentemente anunciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso adotou o modelo norte-americano. Criminalizou o porte de droga para uso pessoal. Introduziu, usando um eufemismo, a Justiça Terapêutica no Brasil. Ou seja, obriga-se o criminoso ao tratamento, com abstinência e sem possibilidade de controle de danos e riscos: redução de doses, substituição de drogas pesadas por leves etc.

Entre nós, a criminalização está presente na lei em vigor e no artigo 20 do projeto de lei 6.108, há pouco encaminhado pelo governo federal ao Congresso Nacional.

Na política escolhida pelo presidente, o porte para uso pessoal é crime. A pena por esse tipo de crime pode ser o tratamento obrigatório. Assim, consagrou o presidente Fernando Henrique o caminho ironizado na Europa como sendo o da solidariedade autoritária.

A imaginada redenção pela Justiça Terapêutica elimina a possibilidade de adoção da prática sociossanitária européia, conhecida como redução de danos. E a redução de danos não implica abandono de uso, mas controle dos riscos.

Diversos países europeus têm uma abordagem mais pragmática e humana. Reconhecem consistir o uso de drogas em um fato social que não se consegue impedir. Daí a importância do controle dos danos e do abandono da criminalização e do tratamento coercitivo.

Portugal virou modelo. O porte de drogas para uso próprio é uma infração administrativa, ou seja, não criminal. Foram criadas 18 comissões civis, nas quais especialistas, fora da área criminal, orientam e informam o consumidor. No caso de reincidência, há um elenco de medidas que não diminuem nem afetam a dignidade do consumidor.

Talvez ainda haja tempo para o presidente anunciar mudança na sua política, que encerra a ideologia norte-americana da intolerância e estabeleceu uma solidariedade autoritária para com os consumidores.

Wálter Fanganiello Maierovitch, 55, juiz aposentado do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, é presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais Giovanne Falcone. Foi secretário nacional antidrogas da Presidência da República (1999-2000).

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·     Escola nos EUA já pode fazer teste de droga - Suprema Corte americana decide que escolas podem exigir exames de seus alunos para atividades extracurriculares.

Folha de São Paulo, sexta-feira, 28 de junho de 2002 - JAMES VICINI - DA REUTERS, EM WASHINGTON.

A Suprema Corte dos EUA decidiu, em votação apertada, que as escolas públicas de segundo grau têm o direito de exigir testes de drogas para alunos que participem de atividades extracurriculares, como coral ou banda, sem que isso constitua violação de seu direito à privacidade.

O tribunal sustentou, por 5 votos a 4, um programa do Estado de Oklahoma que requer que estudantes que tomam parte em atividades posteriores ao período das aulas se submetam a exames de urina aleatórios.

Os testes, que são exigidos independentemente de suspeita de uso de drogas, envolvem estudantes da 7ª à 12ª séries, na faixa dos 12 aos 18 anos, que se matriculam para as atividades.

A decisão da Suprema Corte anulou uma sentença de uma corte de apelações federal segundo a qual um programa de testes de drogas, adotado pelo condado de Pottawatomie (Oklahoma), não era legal, pois não havia um problema específico de drogas que justificasse a ação.

Alunos que se recusem a fazer o teste ou cujos testes apontem presença de drogas mais de duas vezes não serão admitidos em competições pelo restante do ano letivo.

Os estudantes passarão por testes no começo do ano letivo e por exames aleatórios a qualquer momento, com nomes sorteados para os testes a cada mês.

Estímulo

A decisão pode estimular o uso de testes de drogas nas escolas. Ao longo dos últimos três anos, cerca de 5% das escolas americanas passaram a exigir testes de drogas para os estudantes que praticam esportes, enquanto cerca de 2% delas testaram os estudantes envolvidos em outras atividades extracurriculares.

Ao defender os testes de drogas, a Suprema Corte adotou a posição defendida pelo governo Bush. Nos depoimentos referentes ao caso, um advogado representando o governo Bush declarou que uma escola teria até mesmo o direito de testar todos os seus alunos à procura de drogas sem que isso constituísse violação de seus direitos de privacidade.

A Corte Suprema tratou dessa questão pela última vez em 1995, quando decidiu que as escolas públicas de segundo grau e intermediárias podiam forçar os estudantes que praticam esportes a passar por testes de drogas. O caso do Oklahoma envolvia outras atividades extracurriculares que não o atletismo.

Em Tecumseh, uma cidade rural localizada a 64 km de Oklahoma City, dois estudantes contestaram a norma depois que ela foi adotada em 1998, alegando que a escola não demonstrara que sofre problemas devido ao uso de drogas ilegais.

O conselho escolar defendeu o programa e sua autoridade para adotar testes para reprimir e combater o uso de drogas.

Dos mais de 500 estudantes que passaram por testes enquanto o programa esteve em vigor, durante parte de dois anos letivos, apenas três alunos, todos os quais atletas, apresentaram traços de uso de drogas. Dois dos atletas participavam também de outras atividades extracurriculares.

A juíza Ruth Bader Ginsburg, que votou contra, alegou que o programa de testes não era razoável, que era injusto e até mesmo "perverso", porque "tem por alvo a população estudantil cuja probabilidade de risco diante de drogas ilícitas e seus efeitos negativos é mais baixa".

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·     42% dos universitários já utilizaram drogas

Folha de São Paulo, quinta-feira, 27 de junho de 2002 - ANA PAULA MARGARIDO, DA FOLHA CAMPINAS

No Dia Nacional de Combate às Drogas, a PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) divulgou pesquisa que aponta o crescimento de 25%, nos últimos quatro anos, no percentual de estudantes universitários que já experimentaram alguma substância psicoativa.

O estudo mostra que, em 98, 33,2% dos 1.567 alunos pesquisados já haviam usado algum tipo de droga pelo menos uma vez. Em 2001, esse percentual passou para 41,5% dos 1.487 alunos ouvidos.

Revela também que a média de idade de início do consumo caiu de 17 para 16 anos. A maconha e os solventes são, segundo a pesquisa, as drogas mais usadas, seguidos dos estimulantes. O estudo ouviu alunos entre 17 e 23 anos da área de ciências biomédicas.

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·     DROGAS: Cresce a procura por tratamento - Médicos dizem que nem sempre internação é o melhor.

Folha de São Paulo, Folhateen, segunda-feira, 24 de junho de 2002, DA REPORTAGEM LOCAL

Com a discussão sobre dependência química levantada pela falecida novela "O Clone", de Glória Perez, vista por até 36 milhões de pessoas ao mesmo tempo, os principais serviços de informação sobre drogas tiveram um salto de procura por parte de pais que pediam orientação e de jovens que buscavam indicações de clínicas de tratamento para o problema.

Só na Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) a média mensal de ligações passou de 750 para mais de 4.500 nos últimos dois meses. O Conselho Estadual de Entorpecentes de São Paulo apontou também um aumento de mais de 100% na procura do serviço, especialmente por jovens.

"A novela serviu de campanha, o que dificilmente conseguiríamos realizar", admite Paulo Roberto Uchôa, 61, secretário nacional antidrogas, que divulgou na semana passada o primeiro levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas, feito pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas).

No despertar para o tratamento da dependência, é preciso cuidado na hora de eleger uma clínica ou um profissional.

"Há estabelecimentos bem-intencionados mas, como em quase tudo, há também os mal-intencionados", alerta Arthur Guerra, 48, do Grea (grupo de estudos de drogas do Hospital das Clínicas).

Segundo Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo e coordenador da Rede Estadual de Apoio a Médicos Dependentes Químicos, nos últimos dez anos houve uma explosão no consumo de drogas e na busca de ajuda. "Ainda há profissionais pouco aparelhados para lidar com o problema", diz.

"Muitas clínicas se baseiam na internação do paciente. O dependente mal bate na porta e já é internado, e a maioria dos usuários não necessita disso. Os casos de internação são a exceção da exceção. O tratamento ambulatorial é o mais indicado", esclarece.

Laranjeira, que integra uma comissão da Senad que pretende estabelecer os critérios de qualidade dos centros de tratamento, também chama a atenção para as clínicas que baseiam seu tratamento em ex-usuários. "Eles têm conhecimento limitado do problema e podem ser bons só em alguns casos."

Sua dica é que um familiar ou o próprio dependente pergunte ao profissional que o trata que tipo de especialização ele tem em dependência química. Há ainda os serviços telefônicos da Senad (0800-61 43 21) e dos Conselhos Estaduais Antidrogas, que podem indicar clínicas e ambulatórios de tratamento, assim como serviços públicos, como o do Hospital das Clínicas e o da Escola Paulista de Medicina.

Caminho das pedras

Segundo dados da pesquisa do Cebrid, realizada nas 107 maiores cidades do país, mais de 1,2 milhão de jovens entre 12 e 24 anos já experimentaram maconha no Brasil. Entre eles, cerca de 280 mil são considerados dependentes.

Se a novela fosse como a vida real, quase todos eles passariam da maconha para a cocaína e daí para o crime. Jogo pesado.

"Pode não acontecer nada. Mas nem todos têm essa sorte", diz Raul Pinto, diretor-executivo da Associação Parceria Contra as Drogas.

Segundo Laranjeira, a polêmica história de que a maconha é a porta de entrada para outras drogas não se deve a "uma reação farmacológica", mas a uma "influência social". "Quem nunca experimentou maconha tem menos chances de experimentar outras drogas do que quem a consome", explica. E o estudante Hideki Katsumata, 18, sabe disso muito bem.

Aos 13 anos, experimentou maconha com os novos amigos de um condomínio no Rio de Janeiro, onde morava. Dois anos depois, no interior de São Paulo, foi apresentado à cocaína, e passou a usá-la diariamente. Aos 17, depois de muitas confusões e de dois anos perdidos na escola, foi internado pela família em uma clínica. "A crise de abstinência é muito forte. Quebrei toda uma clínica e fui levado à força para outra. Não achava aquilo justo."

Depois de oito meses de tratamento, Hideki diz que entrou no mundo "mais velho". "Criei o Provim, Projeto Vida Melhor (tel. 0/ xx/11/4427-3169), no qual dou palestras. Minha história serve para ajudar outras pessoas", diz.

"Comecei a usar drogas na alta sociedade carioca e terminei nas ruas do centro de São Paulo. Ainda tenho sequelas, surtos de perseguição e coisas assim. Só não consigo é ficar de braços cruzados diante desse problema." (FERNANDA MENA)

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·     DANOS DO ÁLCOOL

Folha de São Paulo, pg. A2, segunda-feira, 10 de junho de 2002

Em agosto próximo, o Brasil vai sediar a 1ª Conferência Internacional de Álcool e Redução de Danos. É um conceito polêmico dentro da própria psiquiatria. A noção de redução de danos ganhou destaque internacional com os projetos de trocas de seringa para viciados em drogas injetáveis. Essas primeiras iniciativas, reconhecendo a incapacidade do agente de saúde para convencer o dependente a abandonar as drogas, se propunham a pelo menos evitar que os viciados se contaminassem com a Aids ao compartilhar seringas. Os índices de infecção entre usuários caíram em muitos dos lugares onde programas dessa natureza foram implantados.

Esses projetos acabavam levando usuários de drogas a frequentar serviços de saúde, num primeiro momento só para trocar as seringas. Verificou-se que a simples aproximação com os centros médicos já ampliava as chances de o dependente aceitar participar de um tratamento.

Programas de redução de danos ganharam rápida fama. Havia outros campos de atuação além de troca de seringas, como convencer dependentes a não dirigir enquanto estivessem sob o efeito de drogas ou não fazer sexo sem proteção.

No caso do álcool, a questão é mais polêmica. Durante décadas a maioria dos tratamentos para alcoolismo operou com o conceito de abstinência. A psiquiatria não vai mudar essa abordagem sem dispor de sólidos estudos que demonstrem a eficiência da redução de danos para o álcool.

Parte do sucesso do conceito de redução se deve ao desenvolvimento de uma relação de confiança entre paciente e médico num contexto em que a droga é ilícita. Como o álcool não é ilícito, as coisas podem não funcionar de modo idêntico.

Mesmo considerando essas dificuldades, é bastante positivo que se proponham e discutam alternativas às abordagens tradicionais, seja da psiquiatria seja das políticas públicas para lidar com os problemas gerados pelo consumo de álcool.

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·     O risco fatal do ecstasy

ADRIANA IRION; MARIANA BERTOLUCCI - ZH JORNAL ZERO HORA - Domingo 19/05/2002 - Página: 33 Porto Alegre

Primeiro, ele apareceu em encontros de grupos restritos. Depois, sorrateiro, passou por bares e boates e invadiu grandes festas abertas ao público. Na última semana, mostrou sua cara perversa, ultrapassando os limites da diversão para se tornar suspeito da morte de uma jovem.

O ecstasy chegou ao Rio Grande do Sul. A droga, cara e que pode matar na primeira dose, conquistou consumidores pegando de surpresa autoridades, médicos e pais.

Em uma semana, as pílulas saltaram da categoria de desconhecidas e aparentemente inexistentes no Estado para o rol de prioridades da polícia. Até então, não havia notícias de apreensões ou investigações sobre ecstasy, mas seu consumo já era prática comum em festas e casas noturnas da Capital e do Interior.

O ecstasy ou "e", como é apelidado, é uma espécie de anfetamina com moléculas semelhantes às de um alucinógeno. Droga sintética, produzida em laboratórios, não provoca alucinações como o LSD (ácido lisérgico) nem excitação como a cocaína, mas combina efeitos moderados das duas drogas.

É impressionante como o ecstasy pode te levar a extremos em questão de horas. No começo, surge uma alegria imensa. Não dá vontade de parar de sorrir, de abraçar as pessoas e falar palavras de afeto e carinho. É uma sensação maravilhosa. Mas isso tudo é uma ilusão e dura de três a quatro horas. Aí, a excitação vai dando lugar à tristeza. A tristeza bate de tal forma que a pessoa sente um vazio enorme. E não há nada que faça esse vazio passar. É uma sensação muito ruim - contou a Zero Hora uma estudante de 22 anos.

Para a psicanalista Maria Cecília Pereira da Silva, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo - Estado onde é alto o consumo da droga -, o uso do ecstasy pelos jovens está associado à busca do prazer imediato:

- Os efeitos podem durar até 12 horas. O ecstasy gera dependência, taquicardia, elevação da temperatura do corpo e depressão. Os jovens usam por uma fantasia de prazer imediato ou por desejar "uma viagem" que os afaste de suas inseguranças diante do futuro. São frustrações, impotências, sentimentos próprios da adolescência, nem sempre fáceis de suportar.

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BOX:

OS EFEITOS NO ORGANISMO (Página 33)            

A origem

Já existia em 1912. Em 1914, o laboratório alemão Merck patenteou a fórmula, esperando que estancasse hemorragias. Permaneceu esquecida até ser ressuscitada na Califórnia (EUA), nos anos 60. O químico Alexander Schulgin sintetizou o MDMA em seu laboratório e testou os efeitos em si mesmo. Em 1978, psicoterapeutas americanos começaram a usar como droga auxiliar em seus tratamentos. Nos anos 80, podia ser encontrado em bares americanos com os nomes de Adam, Essence e Love e em cidades européias. Em 1986, a droga foi proibida.

O princípio ativo

O ecstasy é composto pelo MDMA (metilenodioxidometanfetamina). É um tipo de anfetamina com moléculas semelhantes às de um alucinógeno.

O ecstasy é ingerido por via oral. Chega à circulação sangüínea em 20 a 60 minutos, por meio do aparelho digestivo, e espalha-se pelo corpo.

O uso prolongado danifica o fígado, o coração e o cérebro.

A serotonina é um dos reguladores da temperatura do corpo. Um riscoimediato de quem toma ecstasy é o da hipertermia - superaquecimento do organismo. As mortes associadas às drogas são decorrentes quase sempre da elevação da temperatura do corpo acima dos 42ºC.

No cérebro, atua sobre os neurotransmissores - responsáveis pela transmissão de informações do cérebro -, que regulam o humor e outras funções. São três os neurotransmissores afetados: a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. O mais atingido pela droga é a serotonina, que controla emoções e regula o domínio sensorial e motor. O MDMA provoca uma descarga de serotonina nas células nervosas do cérebro, provocando sensações de bem-estar e leveza. O efeito pode voltar semanas depois.

OS RISCOS

Hiper-hidratação - O metabolismo acelerado eleva a temperatura do corpo, e o usuário, desidratado, pode morrer devido ao excesso de consumo d'água. O sistema que regula a quantidade de líquido no organismo é um equilíbrio entre os rins e o coração. Se o coração está bombeando mal, os rins estão eliminando mal. Com o sistema afetado, a alta temperatura faz com que a sede aumente. O excesso de líquido no corpo poderá fazer o sangue concentrar-se no pulmão, provocando um edema agudo pulmonar, que leva à morte.

Danos ao cérebro - Com o sistema circulatório afetado, o sangue estará sendo maldistribuído, principalmente para o cérebro, o que poderá causar danos a longo prazo. O ecstasy pode degenerar o sistema dopaminégico - da substância cerebral dopamina -, provocando alterações motoras importantes como o Mal de Parkinson (perda de coordenação e tremor, uma espécie de paralisia).

Hipertermia maligna - O aumento da temperatura do corpo no nível do tronco cerebral (na altura da nuca) é intolerável, e o corpo começa a utilizar proteínas circulantes rapidamente e a alterar os sistemas muscular, cardiovascular (coração, principais veias e artérias) e renal.

Danos ao coração - O sangue pode coagular, produzindo convulsões e parada cardíaca. O aumento dos batimentos também pode levar à morte.

Danos aos rins - Altera imediatamente todo o sistema renal.

Danos ao fígado - Se o uso é continuado, poderá causar hepatite.

OS EFEITOS

Gerais - Euforia, impulsividade, perda de juízo crítico, sentimentos de facilidade para a sociabilidade, sensualidade, felicidade e autoconfiança, excitação e disposição física, podendo chegar à exaustão.

Colaterais - Falta de apetite, boca seca, taquicardia, calor e frio, dificuldades de memorização e atenção, vontade de urinar e insônia.

Danos físicos - Hipertermia, arritmia cardíaca, insuficiência hepática e renal, convulsões, hemorragia cerebral e morte súbita.

Problemas psiquiátricos - Pânico, depressão, paranóia, dificuldade cognitiva, perda de memória e de atenção, promiscuidade sexual, psicose crônica (alucinações, delírios e confusão mental) e insônia crônica.

QUEM PROCURAR:

O psiquiatra Cássio Castellarin, do Centro de Informações Toxicológicas CIT, aconselha que as pessoas não devem ter vergonha nem medo de procurar um serviço de emergência, ao sentir qualquer tipo de mal-estar.

AS ROTAS

Os Estados Unidos são os maiores produtores e consumidores de ecstasy do mundo.

Na Europa, a Holanda é quem distribui a droga. Ela é enviada para a África, que a remete para a América do Sul. O ecstasy chega pelo Paraguai e, depois, entra no Brasil

Na Ásia, os laboratórios clandestinos estão na República de Mianmar (antiga Birmânia). De lá, o ectasy vai para o Japão e para a Nigéria

Fontes: José Outeiral, psiquiatra, Flavio Pechansky, psiquiatra e coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Mauro Soibelman, especialista em dependência química e chefe do setor de clínica do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS), Angelo Campana, psiquiatra da unidade de dependentes químicos do Hospital Mãe de Deus, Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas dos Estados Unidos e Escola Paulista de Medicina

O risco fatal do ecstasy

Comprimido é vendido livremente na noite

É relativamente fácil comprar ecstasy em bares, danceterias e festas rave de Porto Alegre.

Zero Hora esteve em uma festa realizada neste mês, na Capital. De 23 pessoas entrevistadas, 21 admitiram estar sob efeito da droga, facilmente comprada de traficantes e consumidores a R$ 40 o comprimido.

Desinformados, muitos jovens tomam "bala", pastilha ou, simplesmente, "e" (como é chamado o tóxico pelos usuários). Iludidos com o prazer rápido, confuso e momentâneo, não imaginam do que o "e" é capaz e desconhecem o risco que correm.

Na festa, duas garotas de 18 anos conversam deitadas com um pirulito na

mão:

- Quem toma "e" tem de chupar pirulito. O sabor fica bem melhor - diz uma delas.

Depois de consumir a droga, a publicitária Joana (nome fictício, assim como outros nesta reportagem), 24 anos, a modelo Samantha, 21, e a advogada Cândida, 25, circulam pela pista. De repente, Joana convida, eufórica:

- Vamos correr?!!!

As amigas dão as mãos e saem correndo. Na volta, descrevem a ZH o que sentem.

- É tudo de bom. O bom dessa droga é que a tua cabeça é quem decide o que quer fazer porque não se perde a consciência nem por um minuto. Tu é quem escolhe o barato que quer curtir. Tu é quem domina a droga, entende? - diz Samantha.

Pura ilusão, alertam especialistas.

- Eu jamais me sentaria ao lado de alguém que está dirigindo depois de ter tomado ecstasy - afirma Flavio Pechansky, coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas.

O sangue pode coagular, produzindo convulsões, aumento dos batimentos, parada cardíaca e até a morte. Com o sistema circulatório afetado, o sangue é maldistribuído, principalmente para o cérebro, o que causa danos a longo prazo. O uso contínuo pode provocar alterações motoras e resultar em Mal de Parkinson.

Essas informações são desconhecidas pela estudante Camila, 16 anos. Além do "e", aspira lança-perfume na festa. Perguntada se não tem medo, responde:

- Medo do quê? É só ir na manha que não dá nada.

Também conhecida como "pílula do amor", a droga, na opinião de usuários, tira a inibição e acentua a sensualidade e a sensibilidade.

Depois de experimentar o ecstasy com o namorado - cada um tomou meio comprimido -, a estudante de Medicina Helena, 28 anos, está nervosa. Não pára de mexer as mãos, em questão de minutos tira e coloca o casaco várias vezes. Não sente vontade de dançar:

- Não gosto dessa música. Tô impressionada com a cor forte da brasa do cigarro e como é maravilhoso beijar o pescoço do meu namorado. Esperava mais da droga pelo que me diziam. Tento identificar o que sinto, e o máximo que percebo é que tenho muita sede. Meu corpo está mole, mas a cabeça está normal.

O namorado, o empresário Juliano, 33 anos, está eufórico.

- Meus sentidos ficaram à flor da pele. Fiquei muito mais sociável, sensível aos toques. Alongar meu corpo foi prazeroso. Perdi o cansaço e fiquei ativo. Sensível às batidas graves da música eletrônica - descreve Juliano.

Perto das 5h, Joana, Samantha e Cândida seguem experimentando novos movimentos.

- É fantástico! Tu perde a vergonha de fazer qualquer coisa. Já tirei as calças em uma outra festa. Tiro aqui se quiserem (foi impedida pelas amigas) - ameaça Joana.

Seis da manhã. Pessoas deitadas. A pista continua cheia, e a sensação de depressão pós-droga é resumida por Helena.

- Parece que tem chumbo nas minhas pernas - descreve, ao sofrer uma das conseqüências comuns entre consumidores, o esgotamento muscular, devido à excitação.

* Leia mais nesta e na página 33.

O risco fatal do ecstasy

O risco fatal do ecstasy

Droga atinge sistemas vitais

O ecstasy danifica sistemas vitais do organismo, como a circulação sangüínea, causando parada cardíaca.

A droga afeta a serotonina, substância que regula o humor, a agressividade, a atividade sexual, o sono e a sensitividade à dor.

- O pós-efeito é perceptível na ausência da droga. Possivelmente causa dependência, depressão, angústia, inquietude e fissura pela falta. É um quadro dramático - define o médico Mauro Soibelman, especialista em dependência química e chefe do setor de clínica do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre.

Pesquisa do National Institute in Drug Abuse (Estados Unidos) em macacos mostrou que a exposição ao ecstasy por quatro dias causou dano cerebral que persistiram por sete anos.

- É extremamente potente. Produz sensações de rapidez e agitação. É parecida com a cocaína, mas produz alucinações. A pessoa é capaz de se atirar embaixo de um carro - explica Flavio Pechansky, psiquiatra e coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Combinado com outras drogas e o álcool, o consumo oferece mais perigo.

- O álcool vai atingir o sistema cardiovascular - diz Pechansky. Outro efeito é a desidratação.

- Nestas festas, guarda-se água em tonéis, em caso de falta. A pessoa se agita muito, o que provoca vômito e urina. O corpo vai à falência. Perdem-se muito líquido e sais minerais. A falência dos órgãos independe de a pessoa ter propensão a problemas de qualquer ordem - alerta o psiquiatra José Outeiral.

Soibelman concorda que o perigo da droga é justamente o conjunto de efeitos aparentemente positivos e inofensivos:

- Não existe nada mais perfeito para uma festa. É uma droga muito perigosa por isso.

O mito da "pílula do amor" é descartado pelo psiquiatra Angelo Campana, da unidade de dependentes químicos do Hospital Mãe de Deus:

- Não existe isso. A pessoa transa porque está acordada e excitada e não porque a droga dá tesão. Há uns 10 anos, quando começou a entrar no Brasil, já começamos a nos preocupar. No Exterior, já está diminuindo o consumo em função das mortes.

* Leia mais nesta e na página 33.

O risco fatal do ecstasy

ZH Volume: 039 Edição: 13.418 Domingo 19/05/2002 Página: 33

Editoria: Geral

Seção: Polícia

Assunto: Indlet, Saúde, Droga, Tóxico, Entorpecente, Dependente Químico,

Vício, Viciado, Utilização, Usuário, Dependência Química, Drogado,

Comportamento, Droga Ilícita, Mapa, Traficante, Tráfico, Narcotráfico,

Narcotraficante, Crime, Criminoso, Suspeita, Morte, Vítima Fatal,

Comprimido, Drágea, Pílula, Boate, Noite, Festa, Rio Grande do Sul,

Consumo, Consumidor, Substância tóxica, Frase, Declaração, Risco,

Perigo, Dano, Organismo, Conseqüência, Atuação, Efeito, Duração, Tempo,

Sensação, Característica, Venda, Comercialização, Compra, Reação

Química, Alteração, Comportamento, Relato, Descrição, Caso, Case,

Família, Familiar, Frase, Declaração, Comentário, Opinião

O risco fatal do ecstasy

"Vão matar muita gente inocente"

A jovem de 23 anos que morreu no domingo por suspeita de uso de ecstasy se formaria em Psicologia, adorava animais, praia e costumava conversar com a família sobre drogas.

Ela saiu de casa, em Porto Alegre, sábado à noite, para ir ao aniversário de uma amiga. Domingo de manhã, depois de ir a uma boate, morreu com edema pulmonar agudo.

Os pais não descartam a hipótese de ela ter experimentado ecstasy por curiosidade. A polícia investiga o caso e aguarda exames sobre a presença da droga no organismo. Abaixo, trechos da entrevista que os pais concederam a Zero Hora na sexta-feira:

Pai - Foi um golpe muito duro. Ela era muita vida, era a vida da nossa casa. Era uma liderança. Tinha tempo para resolver tudo. Estudava, fazia estágio, organizava as coisas em casa. É inacreditável o que ocorreu. Tinha amor pela vida, muita energia. A solidariedade dos amigos é grande.

Mãe - A nossa casa está sempre cheia, mas ficamos esperando que ela chegue a toda hora. É um pesadelo. Estou muito chateada porque me despedi dela sábado sem dar um beijo, ela tomava banho para ir à festa. A imagem que tenho é ela entrando em casa com livros, avental, pasta, falando.

Mãe - A gente não acredita ainda. Era uma menina sadia, que tinha horror às drogas. Falávamos muito em drogas. Correm boatos de que ela usava drogas. Mas ela não usava.

Mãe - Não digo que ela não tenha tomado ecstasy, a gente não sabe o que ocorreu, é uma suspeita. Ela deve ter tomado para ver o que era, mas não foi de boba. Pode ter tomado para experimentar, ela tinha curiosidade com as coisas. Estou muito magoada por perder minha filha, que era um modelo de menina, especial.

Pai - Eu estou horrorizado, vão matar muita gente inocente, pois dizem que é fácil comprar essa droga. Estou revoltado. Me disseram que é só chegar e pedir. A polícia não vai lá porque não quer.

Pai - Não sabemos dos detalhes. A amiga que estava com ela está chocada. Perguntei para o ex-namorado dela sobre como estava na festa. Ele viu ela bem. Estava bem e depois ocorre isso.

Pai - Estou indignado. Ninguém faz nada para impedir, não entendo a liberdade com que o pessoal tem acesso a essa droga. Quantos inocentes vão morrer? É a juventude, a criançada que está tomando. Queria um basta, isso não pode ocorrer."

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·     Consumo de drogas atinge 32% das escolas

Folha de São Paulo, 10/05/2002 - São Paulo - SP

Pesquisa feita em 2.351 estabelecimentos de todo o país mostra ainda que o problema provoca aumento de violência João Carlos Silva da Reportagem Local

Pesquisa inédita feita em todo o país revela que o consumo de drogas está presente em 32,1% das escolas de ensino médio e fundamental. Já o tráfico de entorpecentes aparece em 21,7% desses estabelecimentos. A consulta foi feita em unidades de ensino municipais, estaduais e particulares. Os índices constam da pesquisa "Retratos da Escola 2", da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. No estudo, divulgado ontem, foram ouvidos cerca de 20 mil alunos e 2.000 professores e funcionários em 2.351 estabelecimentos de ensino. No estudo, o parâmetro para atestar a presença de tráfico ou de consumo de drogas nas escolas permite que o problema seja ocasional ou frequente e possa ter ocorrido dentro ou no entorno da escola pesquisada. No caso de tráfico de drogas, o Rio Grande do Sul aparece, em extrato da pesquisa com dados por Estado, com o maior índice de ocorrência ocasional dentro e fora da escola -23,1% e de 40,4%, respectivamente. Nesse item, o Estado de São Paulo está em 10º (9,8%) e 6º (34,7%) lugares. Já as escolas da Paraíba aparecem na liderança de casos de consumo ocasional de droga nas dependências do estabelecimento de ensino -43,2% (São Paulo, 15,4%) e as do Ceará no entorno -66,7% (São Paulo, 22,9%). "Os índices, quaisquer que sejam eles, nos amedrontam porque eles atingem crianças e adolescentes", disse Teresa Leitão, secretária-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Efeito Apesar da presença de tráfico e de consumo de drogas poder aparecer apenas fora da escola, o estudo aponta que os problemas afetam diretamente a vida e o desempenho dos estudantes e dos funcionários de um estabelecimento de ensino. O levantamento permite chegar à conclusão que as drogas não chegam sozinhas às escolas. Elas provocam também aumento de agressões, roubo, furto, pichações, sujeira e depredação. E o pior: diminuem a probabilidade de o aluno aprender e, consequentemente, ser aprovado. Um dos itens da pesquisa, por exemplo, compara a porcentagem de agressões físicas em escolas com e sem presença de drogas. No primeiro caso, foi constatada ocorrência de agressões em 46,9% delas. No outro, a porcentagem cai quase pela metade (24%). Esse exemplo se repete nos outros casos de violência. As porcentagens também mostram que escolas públicas apresentam os maiores índices, comparado aos das particulares. Nas públicas, os maiores índices aparecem frequentemente nas escolas estaduais -onde, por exemplo, há 26% de presença de armas brancas. Uma explicação para esse comportamento é que essas unidades concentram, majoritariamente, os estudantes de 5ª a 8ª séries e com a faixa etária mais suscetível às drogas: de 11 a 17 anos, na maioria dos casos. No aspecto da interferência da violência da aprendizagem, a diferença entre escolas particulares e públicas volta a aparecer, mas o contraste é maior, segundo o estudo da confederação. Cruzamento de dados feitos no estudo aponta, por exemplo, que um aluno da 4ª série de escola pública terá 14,7% mais facilidade de aprendizagem se estiver em um estabelecimento em que não há presença de violência. Mas, se o aluno estiver em uma escola particular, a porcentagem sobe para 49,6%. Nas unidades em que há violência, os estudantes de escolas particulares também serão mais afetados negativamente -25,2%, contra 7,4%, das escolas públicas. A diferença se explica, de acordo com avaliação da secretária-geral, devido à banalização da violência entre a faixa mais carente da população. Ou seja: a violência perturba os mais favorecidos, que estariam mais protegidos contra o problema.

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