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·        Homens sensíveis e "brucutus" ganham séries

Folha de São Paulo, Ilustrada, domingo, 07 de setembro de 2003 - BRUNO YUTAKA SAITO

O homem moderno vive uma crise de identidade. Pelo menos na TV paga, ele é o próprio dr. Jekyll e sr. Hyde. "Manchild" (Eurochannel) e "No Mundo dos Machos" (Multishow), séries que serão exibidas nesta semana, expõem (e riem) dos extremos e das contradições dessa figura outrora onipotente.

"Manchild" é a mais interessante. Saudado como uma espécie de versão masculina da sitcom "Sex & the City" (Multishow), a série produzida pela BBC inglesa estreou no exterior no ano passado com grande sucesso.

Enquanto "Sex" vasculha os relacionamentos e o sexo sob a ótica feminina -através das desventuras de quatro mulheres independentes beirando os 30, em Nova York-, "Manchild" tem como protagonistas quatro amigos na faixa dos 50, em Londres. Portanto, supõe a série, homens sofrendo as crises da meia-idade.

"Manchild" segue uma linha que começou a ser mais visível com filmes como "Ou Tudo ou Nada" (1997) e livros de Nick Hornby como "Alta Fidelidade" (1996). Estamos na seara dos homens "sensíveis", que admitem e bradam suas fraquezas, "losers" (perdedores) em alguns casos.

Fragilidade masculina

E como agiriam tais "losers" se eles tivessem (muito) dinheiro no bolso? Quem conecta a trama é Terry (Nigel Havers, 53), um pai divorciado. Tem uma namorada adolescente e é um rebelde sem causa tardio: adora motos potentes. Anthony Stewart Head, 49, faz James, sedutor barato e dentista de classe média alta. Completam o quarteto Patrick (Don Warrington), um excêntrico colecionador de arte, solteiro convicto, e Gary (Ray Burdis, 45), o mais "estável", casado e supostamente feliz.

Na série, o grupo frequenta bares caros e gasta dinheiro com vinhos para impressionar garotas mais jovens. Mas nunca de uma forma machista.

"A comparação com "Sex" é meio óbvia. "Manchild" é mais indulgente na questão do sexo", diz Ray Burdis, em entrevista à Folha. Já no primeiro episódio, James passa pelo pesadelo da maioria dos homens: a impotência. No tratamento médico, aproveita para dar uma "esticada" no pênis.

Para Burdis, a intenção não é retratar o homem moderno. "Não existem muitas pessoas na vida real como eles", diz. "Na maior parte do tempo, você nunca vive sua vida. Precisamos pensar sobre isso, ter fantasias e aproveitar a vida. Esse é o verdadeiro assunto."

Como é comum nas comédias britânicas, a ironia chega a massacrar os personagens. São eles simples idiotas ou caras que se deram bem na vida? "À primeira vista, eles parecem ser muito espertos. Mas eles são acidentalmente idiotas, agem como crianças. É um tipo de charme, a graça da série."

Clichês sobre o homem

Já "No Mundo dos Machos" joga anos de correção política pela janela ao mostrar homens assumindo e brincando com seus mais caros estereótipos.

Produzido para a TV norte-americana, o programa é um show apresentado por dois sujeitos, Adam Corola e Jimmy Kimmel, que investem em piadinhas sexistas. Chega a lembrar as "aulas" do guru machista interpretado por Tom Cruise em "Magnólia" (1999). No auditório, formado quase que totalmente por homens com canecas de cerveja na mão, os apresentadores vão mostrando quadros sobre sexo -do tipo "Como se comportar em um clube de striptease"- e pegadinhas à "Jackass" -com rapazes obesos mostrando as nádegas. Detalhe: as poucas mulheres presentes são animadoras que, quando não exibem decotes, vestem fantasias de colegiais, enfermeiras etc.

MANCHILD. Quando: amanhã, às 21h30, no Eurochannel.

NO MUNDO DOS MACHOS. Quando: sábado, às 22h30, no Multishow.

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·        IGUALDADE ENTRE OS SEXOS: O REDUZIDO DIMORFISMO SEXUAL DA ESPÉCIE HUMANA PODE TER 3 MILHÕES DE ANOS, SUGEREM RESTOS DE 9 A 30 AUSTRALOPITECOS ENCONTRADOS NUM ÚNICO SÍTIO DA ETIÓPIA

Folha de São Paulo, Ciência, domingo, 31 de agosto de 2003 - Reinaldo José Lopes - free-lance para a Folha

Eis um dado fundamental de biologia humana, tão corriqueiro que ninguém costuma prestar atenção nele. Escolha ao acaso um homem e uma mulher adultos e compare a massa corporal dos dois. Na média, você não vai encontrar mais que 15% de diferença entre os membros desse casal aleatório. É difícil imaginar que essa proporção aparentemente tão natural pudesse ser diferente. Contudo, basta dar uma boa olhada nos machos e fêmeas de alguns dos parentes mais próximos da humanidade, os gorilas (Gorilla gorilla) e os orangotangos (Pongo pygmaeus), para ver que as coisas poderiam ser bem mais desiguais, afinal: machos enormes, com até o dobro do peso de suas companheiras. Não é à toa que a vida sexual desses primatas está a anos-luz de ser igualitária. Os gorilas e orangotangos do sexo masculino são verdadeiros sultões, arrebanham o maior número possível de fêmeas só para si próprios e, em geral, não toleram outro macho adulto nas vizinhanças do seu harém. Alguma coisa aconteceu, no meio do caminho evolutivo que levou ao Homo sapiens, para que machos e fêmeas se tornassem menos desiguais, mais cooperativos e, talvez, mais monogâmicos. Tudo indicava que esse era um fenômeno muito recente na família humana -até agora. A análise estatisticamente impecável do que restou de indivíduos da espécie Australopithecus afarensis, à qual pertencia a famosa fêmea "Lucy", sugere que a igualdade sexual começou há mais de 3 milhões de anos na linhagem dos hominídeos, desbancando o que parecia ser um dos poucos fatos seguros da paleoantropologia. "Decidimos investigar isso justamente porque parecia ter se tornado um fato estabelecido ao longo dos anos", conta o paleoantropólogo Owen Lovejoy, 60, da Universidade Kent State, no Estado norte-americano de Ohio. Um dos problemas, explica ele, é que poucas coisas são mais difíceis do que estabelecer o sexo de uns poucos pedaços de osso fossilizado -formato no qual, via de regra, são encontrados esses hominídeos antigos. Achar, para cada espécime fragmentário, os ossos da pelve (que, em humanos modernos, costumam dar as melhores pistas sobre o sexo do dono do esqueleto), só com um milagre.

Macho sempre maior

"Como em primatas o macho é quase sempre maior, o que as pessoas faziam era simplesmente pegar os fósseis maiores e concluir que aqueles eram os machos, e [pegar] os menores e atribuí-los a fêmeas", explica Lovejoy. "Acontece que desse jeito você perde toda a variação de tamanho que pode aparecer entre eles. E há também a variação que existe geograficamente ou temporalmente -alguns espécimes podem estar separados por centenas de milhares de anos."

Como se não bastasse esse grau quase inaceitável de incerteza, o mais comum é encontrar cacos anatômicos que não são diretamente comparáveis, como uma mandíbula aqui e um fêmur ali. Com tanta complicação, não é de admirar que a estimativa mais citada de dimorfismo sexual (expressão que os cientistas empregam para designar a variação de tamanho ou características entre machos e fêmeas) tenha usado uma amostra de apenas três supostas A. afarensis.

Os pesquisadores buscaram uma saída dessa bagunça paleontológica escolhendo, logo de cara, um grupo de australopitecos do sítio A.L. 333 que foi preservado numa espécie de cápsula do tempo natural. Todos morreram juntos há 3,2 milhões de anos, no que parece ter sido um único evento catastrófico (provavelmente uma enchente) à beira de um lago em Hadar, hoje localizado na Etiópia. O número estimado de indivíduos que deram adeus às savanas da África Oriental nessa tragédia varia de 9 a 30, mas o importante é que todos parecem pertencer ao mesmo grupo e à mesma época e, portanto, compartilhariam o mesmo tipo de dimorfismo sexual. Permanecia, contudo, o velho problema da falta de pedaços anatômicos comparáveis. O jeito de contorná-lo foi pedir auxílio à boa e velha Lucy, cujo esqueleto está 40% completo e oferece dados únicos sobre as proporções corporais dos australopitecos.

O truque do fêmur

Sabe-se que a cabeça do fêmur (parte arredondada desse osso da coxa que se encaixa na pelve) fornece uma estimativa confiável de massa corporal. O truque, portanto, foi usar os fêmures dos espécimes que os possuíam e, quando não fosse esse o caso, calcular que tamanho ele teria com base na proporção entre um osso e outro achado no esqueleto de Lucy. Para se certificar de que isso funcionava mesmo, Lovejoy comparou os índices que achava com os de primatas vivos -humanos, chimpanzés e gorilas de ambos os sexos. "OK, nós não sabemos quantos ali eram machos ou fêmeas, mas sabemos que todos tinham seu sexo", pondera Lovejoy. "Por isso, nós testamos estatisticamente todas as possibilidades, de uma fêmea e 29 machos a 29 fêmeas a um macho. Fizemos a série inteira, dos menores aos maiores." Deu trabalho, mas nem precisava, de acordo com o paleoantropólogo: não importa onde os pesquisadores traçassem a linha divisória macho-fêmea, o resultado estatístico era praticamente o mesmo, indicando um nível baixíssimo de dimorfismo: 10% quando eram contados apenas os hominídeos do A.L. 333, 15% quando outros A. afarensis de outros lugares entravam na dança. São proporções rigorosamente humanas. "Até poderíamos estimar a altura ou a massa deles quando vivos, mas isso implica uma série de pressuposições um pouco incertas. Se eu tivesse de estimar qual a altura deles, daria cerca de 1,20 m para as fêmeas e 1,35 m para os machos", explica Lovejoy, cuja pesquisa foi publicada na edição de 5 de agosto da revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences", mais conhecida como "PNAS" (www.pnas.org). É quase certo, portanto, que Lucy não fosse só mais uma fêmea de harém. Mas permanece a possibilidade de que a igualdade sexual gerasse não casais de australopitecos, mas bandos mistos e a promiscuidade generalizada que caracterizam os chimpanzés (Pan troglodytes), as criaturas vivas mais próximas da humanidade, cujo genoma coincide em 95% com o do homem, e que também se caracterizam pela diferença pequena de tamanho entre machos e fêmeas. Lovejoy, no entanto, aposta na monogamia por causa de outro tipo de dimorfismo: o tamanho dos caninos dos machos, que são quase iguais aos das fêmeas no A. afarensis, mas muito maiores entre os chimpanzés. Caninos muito grandes são uma arma e tanto e servem principalmente para disputar fêmeas -sinal de que os australopitecos eram menos competitivos e tinham uniões mais estáveis.

Parentes chimpanzés

"As pessoas tendem a achar que, como os chimpanzés são os nossos parentes genéticos mais próximos, os hominídeos primitivos deveriam ser versões antiquadas de chimpanzés, mas não é bem assim", argumenta Lovejoy. "O mero fato de eles serem bípedes e viverem no chão deve ter tornado seu sistema social e seus hábitos alimentares marcadamente diferentes." E não é só isso, salienta o pesquisador: enquanto os chimpanzés modernos ocupam algumas áreas isoladas de mata tropical, os australopitecos parecem ter sido um grupo bem mais comum e bem-sucedido evolutivamente, espalhando-se por toda a África Oriental e Meridional.

"Para conseguir isso, eles precisavam de uma estratégia reprodutiva diferenciada, na qual provavelmente os machos competiam menos entre si e as fêmeas preferiam os menos agressivos, que se dispusessem a ajudar no cuidado com o prole", especula Lovejoy. Para Clark Spencer Larsen, da Universidade do Estado de Ohio, a falta de ambos os dimorfismos nos australopitecos apóia a conclusão de Lovejoy: "O A. afarensis e outros hominídeos tardios podem ter sido mais parecidos com o homem em seu comportamento social básico. Assim, as raízes do comportamento humano podem ser profundas no tempo".

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·        Restrito a homens: São Paulo ganha megaclínica de estética masculina para alívio dos vaidosos tímidos

Revista Isto É, Comportamento, EDIÇÃO Nº 1756 - Camilo Vannuchi

Expressões como endermologia, estimulação russa, esfoliantes e redução de medidas começam a fazer parte do repertório masculino. Para os membros do clube do bolinha que ainda não sabem o que elas significam, está na hora de adquirir um dicionário de bolso. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 30% das 370 mil intervenções cirúrgicas realizadas em 2002 foram em homens. Em

1994, eram apenas 10%. Vale tudo: lipoaspiração, implante de cabelo, redução da papada e até colocação de prótese peitoral. A vaidade entre os narcisos do mundo moderno agita o setor de higiene pessoal, perfumarian e cosméticos. Nos últimos cinco anos, o crescimento do mercado de cosméticos para homens tem sido maior do que o voltado para as mulheres. Calcula-se que um em cada 15 varões use algum produto contra envelhecimento e que 30% deles tenham uma loção hidratante. O cenário é tão promissor que, desde a inauguração em

São Paulo da Garagem Clínica Estética, em 2001, pipocam centros de beleza restritos aos mancebos.

Há duas semanas, foi inaugurada a Jardim América Estética Masculina. Com 2.200 metros quadrados, a casa goza de total discrição. Na fachada, apenas as palavras "Jardim América" dividem espaço com a imagem de uma cartola estilizada. Do lado de dentro, as únicas mulheres às quais é permitida a entrada são as esteticistas e fisioterapeutas, além de modelos contratadas para colorir o ambiente. "Se a esposa do cliente quiser entrar, não vai poder. Tudo foi criado para que os homens não se sintam envergonhados ao fazer as unhas ou tingir o cabelo", justifica Rogério Abuçafy, um dos sócios da casa.

Enquanto esperam para ser atendidos, os clientes podem aproveitar

o conforto de uma charutaria e de um cardápio refinado de drinques.

O empreendimento de R$ 1,5 milhão tem sido recompensado pela satisfação dos visitantes. Entre os tratamentos, as terapias para redução de medidas são as mais procuradas, como a termoterapia (o homem deita-se em uma câmara e recebe a ação de raios magnéticos que reproduzem a sensação de uma sauna) e a endermologia (o cliente recebe uma massagem aplicada com um pequeno aspirador capaz de quebrar nódulos de gordura por meio de pressurização e sucção). "Resolvi experimentar a endermologia e fiquei surpreso. Cheguei com uma calça apertada na cintura e saí com ela no formato ideal", conta o joalheiro Fernando Liberado, 42 anos. Também na hora de cuidar do visual, Liberado aproveita a comodidade da clínica. "Os homens querem se cuidar, mas sentem-se constrangidos diante das mulheres. Aqui, a gente não fica preocupado com o que elas vão pensar", diz. Às mulheres, basta aprovar o resultado.

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·        O novo sexo frágil: Adiar a entrada na escola ou trazer de volta os colégios separados são algumas propostas para melhorar o desempenho masculino

Revista da Folha, por Débora Yuri, 04/05/2003

Alunos do Centro Educacional e Assistencial de Pedreira, colégio técnico beneficente do Jardim Pedreira, na zona sul, exclusivamente masculino

Gibi dos tempos antigos: Luluzinha e suas amigas choram e batem o pé para entrar no Clube do Bolinha. Na porta da cabana de madeira, que ostenta a placa "Menina não entra", Bolinha e os demais garotos se divertem. O tempo passou e a atualização do gibi traria uma história bem diferente. Hoje, Luluzinha não só já entrou para o clube como está levando vantagem no jogo.

O roteiro encenado no meio educacional atualmente não deixa de ser irônico: depois de décadas de luta para que os dois sexos fossem tratados da mesma forma, uma corrente de educadores e psicólogos defende que os meninos estão sendo prejudicados pelo modelo misto de ensino e ensaiam um coro que pede o retorno à separação dos bancos escolares -ou outro tipo de mudança capaz de reverter a situação.

"No mundo todo, os garotos estão passando por uma grave crise de identidade. Eles estão perdidos, não sabem o que querem, não têm objetivos claros, e tudo isso reflete em mais problemas na escola", disse em entrevista à Revista em São Paulo o psicólogo inglês Steve Biddulph, 49, autor do best-seller "Criando Meninos", com mais de 2 milhões de cópias vendidas na Inglaterra, França e Austrália.

A avaliação do desempenho escolar masculino não deixa dúvidas de que alguma coisa está errada. No Brasil, elas já são mais numerosas do que eles em quase todas as fases escolares (veja quadro acima). Antes que se atribua a culpa à desigualdade social que supostamente levaria os meninos a abandonar a escola para trabalhar, é bom saber que o cenário é idêntico nos países ricos.

Na França, o desempenho feminino supera o masculino desde o ensino médio (leia texto na pág. 12). Idem na Austrália, onde, em 2001, quase 80% delas terminaram o ensino médio, contra 68% deles. O Ministério da Educação do país se engajou na "necessidade de diminuir o buraco" nos colégios, e o governo australiano acaba de destinar mais de US$ 4 milhões para que 226 escolas desenvolvam métodos educativos inovadores para garotos.

Nos EUA, 56% dos diplomas universitários atualmente são delas. "As alunas americanas são melhores no ensino fundamental, no médio e na faculdade. Na verdade, há documentos indicando que elas já eram melhores do que eles desde quando foram admitidas nas escolas", conta o psicólogo americano Michael Thompson, 56, que em 2000 já alertava para os crescentes problemas escolares dos garotos no best-seller "Raising Cain" (editora Ballantine), 400 mil cópias vendidas nos EUA.

O problema, observou em entrevista à Revista, é que as escolas não são feitas para os meninos. "Por volta dos cinco anos, três quartos deles são fisicamente mais ativos, impulsivos e imaturos do que as meninas da mesma idade. O garoto comum também está atrás da garota comum no desenvolvimento da linguagem. Na sala de aula, eles ficam ouvindo mulheres (professoras) e vendo garotas conseguir melhores resultados nas provas. Então deduzem que escola deve ser coisa de menina."

Consultor de uma escola do modelo chamado "same sex school" (colégio de sexo único), Thompson diz que num estabelecimento exclusivamente masculino os garotos se livram dos prejuízos que a comparação pode causar. "Lá, aprender direito e obter boas notas nos exames é algo totalmente masculino, e isso ajuda a melhorar a performance de muitos."

Doutrina Bush

O debate americano ganhou um novo impulso a partir do ano passado, quando o governo de George W. Bush revogou a lei de obrigatoriedade de escolas mistas públicas, promulgada em 1972, e reservou cerca de US$ 3 milhões para estimular a criação de escolas não- mistas. Hoje, os EUA têm cerca de 400 mil alunos em escolas privadas separadas e, no setor público, pelo menos 47 oferecem separação total ou parcial.

"É preciso abrir a cabeça, admitir que meninas e meninos se desenvolvem e aprendem de forma diferente", disse Christopher Wadsworth, 62, diretor da International Boys' Schools Coalition (Coalizão Internacional das Escolas de Meninos), por telefone, de Cambridge (Massachusetts).

"Depois do feminismo, o mundo passou a exigir que 'eles' e 'elas' sejam tratados igualmente. O problema é que isso é diferente de tratá-los como iguais", completa ele, cuja organização reúne 135 colégios só para garotos no mundo, 65 deles americanos (a maioria privados).

Como tudo nos EUA, o outro lado também tem sua organização. Meg Moulton, 56, diretora da National Coalition of Girls' Schools (Coalizão Nacional das Escolas para Garotas), que reúne mais de 400 instituições femininas afiliadas (cem nos EUA), ressalta que nem todos precisam estudar nas "same sex schools". "Não existe mágica, cada pai tem de conhecer seu filho. Mas se as escolas únicas servirem para ajudar 5% da população, deve haver espaço e liberdade para que funcionem", disse, por telefone, de Concord (Massachusetts).

O inglês Biddulph se diz contra a separação, mas propõe duas medidas para mudar o quadro atual. A primeira é que os garotos iniciem o ensino fundamental um ano depois das garotas. "É preciso acabar com essa regra de começar pela idade. O ideal é entrar quando estiver preparado. Uma conversa com a professora da pré-escola daria uma idéia se a criança está pronta ou não", acredita, citando que, na Austrália e Inglaterra, não é incomum os pais deixarem o filho mais um ano na educação infantil, "para evitar problemas futuros".

A proposta do psicólogo é baseada em pesquisas que defendem que, na média, o cérebro masculino se desenvolve mais lentamente e, na idade escolar, estaria de seis meses a um ano atrasado em relação ao feminino. "Mas quero frisar que nem todos terão dificuldades, nem mesmo a maioria deles", ressalta.

Um meio de levar mais homens de volta às classes na educação infantil e no ensino fundamental é outra medida que ele defende. "As dificuldades escolares dos meninos são agravadas porque as mulheres formam a maioria dos professores, principalmente nos primeiros anos de ensino", observa Biddulph.

Essa é outra tendência mundial. Pesquisa da Unesco divulgada no final de 2002 apontou que, no Brasil, 94% dos professores de 1ª a 6ª série são do sexo feminino.

Sem elas

No Brasil, as escolas separatistas praticamente sumiram do mapa. Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), entre as 175.705 escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio, com no mínimo 30 alunos, cadastradas no censo escolar de 2002, 131 tinham somente meninos ou meninas matriculados. O Inep ressalva que isso pode ser apenas coincidência, principalmente nas de menor porte.

Em qualquer lugar do mundo, a opção pelo ensino misto não é só questão pedagógica, mas financeira. "Misturar os dois sexos é vantagem para a escola, porque para as particulares seria inviável excluir metade do mercado", reconhece Álvaro de Oliveira Bento, 59, diretor do Centro Educacional e Assistencial de Pedreira, um colégio beneficente sustentado por doações no Jardim Pedreira, zona sul de São Paulo.

O centro, fundado em 1985, oferece ensino técnico gratuito para meninos de baixa renda, e a opção pela exclusividade masculina obedeceu a critérios socioeconômicos. Mas o diretor defende também razões educacionais. "Os meninos sozinhos rendem mais, isso é uma tendência na França e nos EUA. Acho que o problema é mais psicológico do que pedagógico, porque a escola só com garotos não fica com aquele ar de clube. Eles não precisam ficar tentando 'aparecer' para elas", acredita.

Na vanguarda da proposta do inglês Biddulph, os 40 professores do Pedreira são homens. "Cada classe tem um preceptor, que estabelece uma relação de amizade com os estudantes", conta Bento. "Sua função é dar conselhos, falar sobre futebol, família. Em classe mista seria impossível."

No último exame de ingresso, 1.860 candidatos disputaram as 190 vagas. Álvaro Bento informa que, dentro de dois anos, deverá ser aberta uma segunda unidade escolar, exclusivamente feminina.

Não são só os meninos que se beneficiam com a separação, ressalva a irmã Dionéia Laward, 40, diretora do Mãe de Deus, de Londrina (PR), com 700 alunas. "Há estudos que comprovam que garotas sozinhas se saem melhor nas matérias consideradas masculinas, como química, física e matemática. Além disso, não se diz 'Isso é de meninos, deixe que eles façam'. Todas fazem e aprendem tudo", afirma.

Queixas e diferenças

Polêmico como há muito tempo não se via, o questionamento da escola mista chacoalha convicções e desperta discussões acaloradas entre educadores, psicólogos, pais e alunos.

"A educação que eu tive num colégio exclusivamente feminino teve influência decisiva no meu sucesso profissional. Quando você está sem interferência, você não se dispersa", acredita a fisioterapeuta Isabel Cristina Vicente de Rezende, 40, que tem duas filhas (de 6 e 15 anos) estudando no Mãe de Deus. Seu filho Pedro, 8, só não estuda num colégio masculino porque não existe nenhum em Londrina, diz a mãe.

"Tenho medo de criar filhos sem noção das diferenças. Na vida, eles terão de enfrentar muita competição com elas, então não vejo sentido em dizer que eles aprendem melhor porque não precisam competir com elas na escola", afirma a engenheira Solange Náder Miziara, 40, a primeira mulher a estudar no Arquidiocesano.

Entre os educadores brasileiros, é quase um consenso ser contrário à separação. "A escola separada é muito estreita, e a escola é uma instituição que precisa saber lidar com as diferenças. Se tivermos colégios só para meninos e só para meninas, teremos de ter aqueles só para negros, só para índios", diz Guiomar Namo de Mello, 60, membro do Conselho Nacional de Educação, que defende o que chama de "pedagogia da diversidade".

"Sou contra a separação, os mosteiros já mostraram o mal que fizeram. Essa corrente avança nos EUA porque os americanos são conservadores demais, o Brasil assimila melhor as diferenças", observa Fernando Becker, 60, titular de psicologia da educação da Faculdade de Educação da UFRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Ele ressalva, porém, que é preciso fazer algumas mudanças. "Devido ao baixo salário, o homem desapareceu do ensino fundamental, e as professoras têm dificuldades de compreender e lidar com os problemas dos meninos."

A escola pode ser unissex, mas o tratamento, não. "As meninas são mais precoces, o estirão delas vem mais cedo. Elas têm mais facilidade para linguagem e literatura, e os meninos, para ciências exatas. A matemática é certo ou errado, não tem meio termo. É diferente das matérias em que você precisa usar interpretação, simbolização, atribuição de significado", relata Lino de Macedo, 58, titular de psicologia do desenvolvimento do Instituto de Psicologia da USP.

A constatação, porém, desperta outro tipo de dúvida: as diferenças de aprendizado ou comportamento são uma orientação genética ou cultural? "A cultura do gênero é mais decisiva que a biológica", acredita o professor da USP. Para a psicopedagoga Silvia Amaral de Mello Pinto, 53, diretora do CAD (Clínica de Aprendizagem e Desenvolvimento), a corrente que defende a causa cultural é forte, mas não se pode ignorar a possibilidade da influência da testosterona. "Há estudos indicando que ela teria um efeito de agitação neles", explica.

E o que pensam os pivôs desse imbróglio sobre a volta às escolas separadas? "Os meninos enchem muito o saco às vezes, mas eu nunca conseguiria estudar numa escola só com meninas. Afinal de contas, sem menino não dá pra viver", resume Débora Bae, 11, aluna da 6ª série do colégio Rio Branco. Seu colega de classe Bruno Nogueira De Bortoli, 11, vai na mesma linha: "Elas são muito fofoqueiras, mas eu não ia gostar de um colégio que tivesse só meninos. Porque quando a gente crescesse, como iria saber conviver com elas?".

Colaboraram Juliana Doretto e Lulie Macedo

Entre eles e elas, um muro

por Juliana Doretto

Até a Constituição de 1934, a legislação brasileira tolerava a existência de escolas voltadas exclusivamente para meninos ou para meninas. Hoje, a lei garante o acesso de todos os cidadãos ao ensino, sem preconceito de gênero.

"Se uma menina entrar com uma ação na Justiça para poder estudar em um colégio de meninos, ela provavelmente vai ganhar, porque a Constituição garante. Entretanto pode existir uma tradição, um costume que vem de longa data, principalmente no âmbito das escolas religiosas, que também deverão ser analisados", afirma Carlos Roberto Jamil Cury, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.

A primeira escola para meninas no país surgiu em 1818, criada por d. João 6º. Já o ensino masculino começou por volta de 1560, com os jesuítas, e foi reforçado em 1759, com o início da instrução pública, ainda que mambembe. Os colégios mistos públicos apareceram durante o Império, em 1876, todos com rígida divisão de espaço: elas para um lado, eles para o outro. "Quando não havia salas suficientes, a turma era mista, mas um muro dividia a sala ao meio. Somente a mesa do professor era vista por todos", conta a professora de história da educação da PUC de São Paulo Hyrla Tucci Leal.

A co-educação começou a ser debatida com mais força durante a década de 20, com o surgimento do movimento Escola-Novista -grupo de intelectuais que defendiam a modernização do sistema educacional, estimulando, entre outras medidas, o ensino laico e obrigatório. "Mas não havia, entre eles mesmos, concordância sobre como deveria ser o sistema misto; se as classes seriam separadas ou não", afirma Hyrla Leal.

As escolas mistas se espalham pelo país somente com o desenvolvimento urbano, durante as décadas de 20 e 30, quando a escolaridade básica virou requisito para o emprego. O sistema cresceu pelas necessidades econômicas da época, pela demanda social e hoje a sobrevivência seria praticamente impossível sem o ensino misto.

"Minha mãe era professora do Colégio Nossa Senhora de Sion e, aos dois anos, me colocou lá. A escola tinha acabado de começar a aceitar meninos, eu integrei a quarta turma mista. No início, éramos tão poucos que mal dava para formar um time de futebol. Lembro da sensação de fazer parte de um Clube do Bolinha, porque os garotos costumavam ficar num canto, isolados das meninas.

No ginásio (atual ensino fundamental), a gente começou a se enturmar com elas, mas acho que isso acontece nessa faixa etária em qualquer tipo de colégio. Não sei se facilitava o namoro, mas eu dei umas boas namoradinhas lá.

Tenho dois filhos gêmeos, o Théo e a Letícia, de dois anos, e prefiro manter as crianças num colégio misto. Não acho saudável isolá-los, isso pode trazer dificuldade de relacionamento e de compreensão do outro sexo.

Não queria separar os meus dois filhos, por exemplo, porque um é garoto e a outra é garota.

A escola serve como um início da vida em sociedade, é um treinamento do aperfeiçoamento de relações. Não sei se os colégios não-mistos melhoram o desempenho deles, mas eu não me preocupo apenas se meus filhos vão passar no vestibular numa colocação sensacional. O papel da escola é muito maior do que esse."

Victor Prado Santos, 30, auditor

"Fui a primeira aluna mulher a ser matriculada no Colégio Marista Arquidiocesano de SP, e no primeiro ano inteiro só eu e uma outra menina, a filha da diretora, não éramos do sexo masculino. Eu me sentia um ET, ficava o tempo todo grudada nessa minha amiga, andava pelos corredores de braços dados com ela. Os garotos estranhavam bastante a nossa presença, mas não nos hostilizavam.

Tinha oito anos, morria de vergonha, e senti um choque, porque vinha de um colégio exclusivamente feminino. Eram os meninos de um lado e as meninas de outro, e até hoje eu me recordo dessa sensação forte de estranheza. É isso que me faz defender as escolas mistas.

Tenho dois filhos, o Eduardo, de 11, e o Leonardo, de 7, e jamais os colocaria num colégio só para meninos. Tenho medo de criar filhos sem parâmetro, sem noção das diferenças, da diversidade. Na vida, eles terão de enfrentar muita competição com elas, então não vejo sentido em dizer que eles aprendem melhor porque não precisam competir com elas na escola.

O engraçado é que, na faculdade, eu voltei a estudar entre meninos, porque cursei engenharia civil. E lá também tinha aquela separação: muitos rapazes de um lado, poucas moças do outro."

Solange Náder Miziara, 40, engenheira civil

A luta pela 'egalité' na França

por Fernando Einchenberg, de Paris

Os franceses estão se dando conta de que não basta a introdução da escola mista para resolver a desigualdade sexual. Quase 30 anos depois da lei que instituiu o ensino misto obrigatório, educadores alertam para a degradação do convívio escolar entre meninos e meninas, o aumento de comportamentos sexistas e a falta de preparo dos professores para tratar os alunos de forma igualitária.

Lançada pelo Secretariado Geral do Ensino Católico e pelo Centro Nacional de Ensino Religioso, com cerca de 2 milhões de alunos, a discussão foi incorporada à agenda do Ministério da Educação francês. Para educadores, a atualidade do tema é fruto da divulgação de pesquisas sobre os problemas enfrentados pela escola mista e também por influência americana.

"Os primeiros trabalhos universitários começaram a ser publicados em 1999, mas só agora estão sendo mais conhecidos. Além disso, começamos mesmo a nos questionar a partir da volta das escolas não-mistas nos EUA", diz Michelle Zancarini-Fournel, pesquisadora da igualdade de chances no sistema educativo.

A discussão desperta reações apaixonadas. "Sou totalmente contra toda forma de separação de sexos. Devemos ajudar a criar um sistema que nos ensine a viver juntos, sem discriminação nem estereótipos", diz a psicóloga Françoise Vouillot, pesquisadora do Instituto Nacional de Estudo do Trabalho e de Orientação Profissional.

O debate, porém, está servindo para questionar as deficiências da escola mista, cuja implantação não teve motivação pedagógica nem derivou em estudos sobre como tratar a nova coabitação. Implantada no país a partir dos anos 60, por falta de estabelecimentos e professores suficientes para atender a um sistema separado, a obrigatoriedade do ensino misto foi oficializada pela Lei Harby, em 1975.

Atualmente, a França tem 173 escolas de ensino médio exclusivas, 90 para meninos e 83 para meninas, a maioria particular. No ensino fundamental, são 44, 32 masculinas e 12 femininas.

Na hora da nota, quem leva vantagem são elas. Na passagem ao ensino médio, 66% deles são bem-sucedidos, contra 74% delas. No final desse período escolar, a média de êxito das meninas é de 81,4%, contra 74,9% dos meninos. No "baccalauréat général", o vestibular francês, a dianteira feminina se mantém: 77,4% de aprovação contra 73%.

A boa performance das meninas, no entanto, não é refletida no tratamento em classe. "Sabemos que os professores têm mais relações com os meninos. Eles os interrogam com mais frequência, atentam mais às suas intervenções, dão mais tempo para que respondam. Os professores têm expectativas diferentes em relação à disciplina e aos desempenhos escolares", afirma a filósofa Nicole Mosconi, do Centro de Pesquisas sobre a Educação e a Formação.

Pesquisa da educadora Mireille Desplats com professores de física, homens e mulheres constatou que uma prova de bom nível obtinha melhor nota quando era assinada por um nome masculino. Em compensação, quando o exame era medíocre, a nota era menos severa para as meninas. Conclusão: como a expectativa em relação às meninas nas matérias cientificas é menor, elas são tratadas com indulgência.

Como primeira medida para evitar e corrigir falhas, Françoise Vouillot defende a inclusão do debate na formação dos professores. "A escola francesa é fundada no principio republicano e universalista, ou seja, todo mundo é igual e tratado da mesma maneira. Isso é falso. A escola reproduz, ela também, as desigualdades sociais e de sexo. Para lutar contra isso, é preciso que os atores do sistema educativo tenham consciência dessas desigualdades", defende a psicóloga.

Eles x Elas no Brasil

·  1ª a 4ª (fundamental)

ELES 10.307.125: 52%

ELAS 9.420.559: 48%

·  5ª a 8ª (fundamental)

ELES 7.710.855: 50%

ELAS 7.859.550: 50%

·  Ensino médio

ELES 3.826.466: 46%

ELAS 4.571.542: 54%

·  Ensino superior

ELES 1.324.759: 44%

ELAS 1.705.995: 56%

Fonte: Inep/MEC, 2001

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·        Está tudo errado: Um terapeuta faz sucesso ao pregar que os meninos devem ser educados de modo diferente do das meninas

Revista Veja, Edição 1 801 - 7 de maio de 2003 - Anna Paula Buchalla

O terapeuta familiar Steve Biddulph é extremamente popular na Austrália, país onde mora desde a adolescência, quando deixou a Inglaterra. Sua fama ganhou o mundo com o manual de auto-ajuda Criando Meninos. Ao todo, foram mais de 2 milhões de cópias vendidas. No Brasil, o livro atingiu a marca de 30.000 exemplares e está na lista de VEJA. A editora Fundamento, que publica os livros de Biddulph no país, acaba de lançar mais quatro títulos do autor. Entre eles, outro best-seller: O Segredo das Crianças Felizes. Juntos, seus cinco livros já somaram 11 milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo. Biddulph se tornou um sucesso, entre outros motivos, porque diz a pais e mães que meninos e meninas precisam ser criados de forma diferente, seja em casa ou na escola. É uma ducha de água fria na psicopedagogia moderna, que, desde os anos 60, martela a idéia de que as crianças dos dois sexos devem ter uma educação absolutamente igual. A maior diferença, enfatiza Biddulph, está no processo de desenvolvimento cerebral. No caso dos meninos, ele é mais lento, especialmente no que se refere à verbalização e à habilidade manual. Quando entra na escola, boa parte dos meninos apresenta-se defasada em até um ano em relação às meninas. Por esse motivo, o autor sugere que deveria ser considerada a hipótese de atrasar o ingresso dos garotos na 1ª série.

Criando Meninos parte do princípio de que, se o mundo precisa de homens melhores, é bom que se comece a tratar os meninos com mais compreensão e atenção. O livro avança em temas como os efeitos da testosterona no comportamento dos garotos e a descoberta da masculinidade. Aqui, Biddulph é incisivo: defende a importância de uma presença masculina forte e exemplar na vida dos meninos e afirma que os pais erram ao esperar dos pequenos que eles se tornem homens sozinhos. Pior do que isso, muitos estimulam seus filhos a adotar comportamentos grosseiros, como se isso fosse sinônimo de virilidade. É como se, ao educar um menino para ser gentil, o pai estivesse ferindo os princípios da masculinidade. "Os equívocos cometidos por pais e educadores são tão grandes que já se refletem em aspectos bem concretos", disse Biddulph a VEJA. Para o autor, os erros na formação dos garotos resultam em adultos inseguros emocionalmente e frustrados do ponto de vista profissional. "Os meninos, enfim, estão sendo criados para ser simplesmente máquinas de fazer dinheiro ou estúpidos bebedores de cerveja", resume.

ELAS E ELES

·  Quando entram na escola, muitos meninos estão até um ano atrás das meninas no que se refere ao desenvolvimento das habilidades manuais e de expressão verbal. Segundo Steve Biddulph, o ideal é que os pais discutam com os professores da pré-escola se o seu filho deveria esperar mais um ano antes de ingressar na 1ª série. ·  Como os meninos têm movimentos de sintonia fina menos desenvolvidos do que os das meninas, seus gestos tendem a ser bruscos. Brincadeiras corporais, como as de luta, os ajudam a adquirir autocontrole. É errado tentar aboli-las totalmente.

·  Enquanto as meninas vivem rodeadas por mulheres durante o crescimento, os meninos convivem pouco com os homens - em geral, são eles que passam mais tempo longe de casa. A falta de referência masculina adulta pode prejudicar a sua formação. Estimule seu filho a passar mais tempo com tios e avôs.

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·        Chocolate só para "eles" causa rixa sexista: A partir de terça, campanha do produto chega à TV inglesa com o slogan "Yorkie, não é para mulheres"

Folha de São Paulo, Dinheiro, domingo, 13 de abril de 2003 - ADRIANA MATTOS

Um chocolate só para homens. Proibido para as mulheres. Afinal, "elas" ocuparam tantos espaços nas últimas décadas que é preciso que "eles" recuperem o posto. Começando pelo chocolate.

Pensando dessa forma, a Nestlé acaba de colocar nas ruas da Inglaterra uma bem-humorada campanha -para alguns, sexista demais- da marca Yorkie com o slogan: "Yorkie, it's not for girls" (Yorkie, não é para mulheres").

A frase tem direito inclusive a um símbolo: a imagem de uma mulher "cortada" ao meio, seguindo a linha do "É proibido fumar" usado em locais públicos (veja a reprodução nesta página).

Logo em seguida aparece um dos slogans da campanha: "Save your money for driving lessons, not yorkies" - algo como "Guarde seu dinheiro para a auto-escola, não para os yorkies".

A ação de marketing -que relançou o produto neste mês- inclui veiculação da nova campanha na terça-feira, na TV inglesa, e gerou irritação e aplausos. Foi criada pela J.W.Thompson.

Na internet (entrar no site www.dooyoo.co.uk e pesquisar com a palavra yorkie) é possível ver a reação dos ingleses -que, segundo recentes pesquisas, preferem chocolate a sexo- em relação à campanha do grupo.

"Sentimos que os homens precisam recuperar algumas coisas em suas vidas e um jeito para começar é ter um chocolate só para eles", diz Andrew Harrison, diretor de marketing da Nestlé na Inglaterra, o terceiro maior país consumidor de chocolates no mundo (quando se conta o consumo por pessoa).

O produto custa em supermercados americanos, em média, US$ 1,60 a barra (pouco mais de R$ 5,10 -meio amargo para paladares brasileiros).

"Não disponível em rosa"

Para deixar clara a estratégia, não faltam slogans. A agência criou outros como "Not available in pink" (Não disponível em rosa) e "Don't feed the birds" (Não alimente os pássaros).

O produto não deve ser comercializado no Brasil.

A possibilidade de importação, por exemplo, poderia encarecer a venda -devido à elevação na cotação do dólar em 2002-e a possibilidade fabricação no país está afastada.

Se, em parte, gerou reações irônicas, a campanha foi alvo de críticas pesadas. "Eles já comem demais. A BBC informa que 1 de cada 200 comedores sofre distúrbios do sono porque come chocolates demais. E os homens são os mais atingidos, não as mulheres", afirma Nancy Ruddigan, advogada, em uma das páginas que reúnem comentários sobre o tema na internet.

A questão é polêmica porque entra no terreno do "antimarketing". Nessas ações, a marca centra o foco num público e "despreza" outro para criar afinidade com o seu principal consumidor.

Anos atrás, o comercial da marca mostrava um motorista de caminhão, com jeito rude, comendo a barra de chocolate.

Foi por isso que os supermercados chegaram a boicotar o produto naquela época. A venda foi cancelada em lojas em cidades como Birmingham e Liverpool por ser muito sexista.

O fabricante reforça que, na prática, a venda é liberada para todos os consumidores que quiserem comprar a mercadoria.

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·        ''Os garotos estão órfãos'': Steve Biddulph, autor do best seller Criando meninos, acredita que a educação do homem moderno deve ser rediscutida

Revista Isto é, Comportamento, EDIÇÃO Nº 1750, 16/04/2003 - Rita Moraes

"Muitos meninos crescem sem sentir o envolvimento masculino em sua criação"

O psicólogo inglês Steve Biddulph, 49 anos, autor de vários livros, estará no Brasil nos dias 14, 15, 16 para falar de Criando meninos (Editora Fundamento, R$ 29,50). A obra, best seller na Inglaterra, Itália, França e Austrália, já vendeu mais de 11 milhões de exemplares em todo o mundo. Com um casal de filhos e terapeuta familiar há 25 anos, Biddulph tem lidado com os meandros do universo masculino e feminino tanto na clínica quanto em casa. E acha que a criação do homem moderno deve ser rediscutida. Ele diz que os meninos estão mais abandonados do que nunca na tarefa de se transformar em homens amáveis, competentes e felizes. Que falta a eles o bom modelo masculino, a presença constante dos pais, que extremamente ocupados em ganhar a vida os deixam sem um modelo seguro de crescimento. Da Tasmânia, na Austrália, onde mora, expôs seus argumentos a ISTOÉ:

ISTOÉ - Por que hoje os meninos estão exigindo maior atenção dos pais?

Steve Biddulph - Nós fizemos um grande e necessário esforço para ajudar as garotas a ampliar seus horizontes. Isto ainda está em curso. Mas os garotos estão atualmente em maior dificuldade. Eles correm três vezes mais riscos de morrer durante a infância e a adolescência por acidentes, violência e suicídio. Estão fazendo pouco na escola e fugindo das universidades. Parecem ter perdido a direção. Isso vem acontecendo há algum tempo e agora temos uma crise.

ISTOÉ - O sr. diz que os pais trabalham demais e os meninos, em especial, se ressentem disso. Mas há 30 ou 40 anos os pais não eram mais distantes da criação dos filhos?

Biddulph - Isso aconteceu ao longo de todo o século XX, desde a industrialização. Quando eu era bebê, meu pai tentou me levar a passear de carrinho. Morávamos na Inglaterra, numa área industrial ao norte, cheia de trabalhadores. As pessoas na rua o apontaram e riram e as crianças correram atrás dele dizendo: seu pai é sua mãe. Muito embaraçado, ele voltou para casa. Só me contou isso na hora de sua morte. Assim como muitos homens daquela época, ele quis ser um pai dedicado aos filhos, mas a sociedade trabalhou contra. Hoje, vemos muitos homens com suas crianças, há uma mudança. Mas é só. As horas de trabalho aumentaram e há muitos casamentos desfeitos. Esta é a maior geração de órfãos de pais da história. Muitos meninos crescem sem sentir o envolvimento masculino em sua criação.

ISTOÉ - As conquistas femininas teriam contribuído para uma possível crise existencial masculina?

Biddulph - Não concordo que "o feminismo confundiu os homens" ou "gerou problemas aos homens". Eles tinham esses problemas antes do feminismo, mas as conquistas das mulheres colocou-os em destaque. Nós não fizemos muito para liberar o homem. Ainda esperamos que ele seja uma "carteira ambulante". O homem se tornou uma máquina de trabalho, com algumas compensações para mantê-lo subjugado. As mulheres, a comunidade e os próprios homens querem uma vida maior. Fazer parte da família, de ações comunitárias, ser criativos e ter tempo para si.

ISTOÉ - O sr. mencionou em seu livro que "pouco tempo com qualidade" não funciona na criação dos filhos. Por quê?

Biddulph - Amor não funciona com escala. As crianças sentem quais são as prioridades. As boas coisas acontecem quando temos longas horas juntos, despreocupadas, casuais e divertidas. Aí a confiança pode crescer e fazer o que é vulnerável vir à tona. Não se pode fazer nada bem com pressa. Nem cozinhar, nem fazer amor, nem criar filhos. A pressa é inimiga do amor.

ISTOÉ - Por que os meninos têm mais dificuldade em desenvolver habilidades sociais, falar de si e de seus problemas?

Biddulph - Isso está relacionado ao desenvolvimento do cérebro. Precisamos abraçá-los, aninhá-los, ler histórias. Ouvir histórias leva a criança a construir imagens e desenvolve mais conexões de um lado do cérebro para o outro.

ISTOÉ - Por que a figura masculina ganha mais importância para os garotos dos seis aos 14 anos?

Biddulph - Aos seis anos, alterações hormonais demonstram aos meninos que eles pertencem ao sexo masculino. Eles querem imitar os pais em tudo e penetrar em seu mundo. Isso é bom. Eles vão aprender com o modo de ser do pai. Aos 14 anos, o nível de testosterona cresce 800% e os meninos começam a querer outro mundo que não o familiar. Nessa fase, eles precisam de outros adultos - tios, amigos da família e outras pessoas que os ame. Por isso, os pais precisam ter certeza de que podem oferecer a eles um meio amistoso, um grupo de amigos que possa estar lá quando precisarem.

ISTOÉ - O sr. diz no livro que a combinação comando-regras-justiça é uma boa forma para tratar com adolescentes. Mas essa combinação não limitaria o desenvolvimento da autonomia que eles tanto precisam?

Biddulph - Essas três regras são mais apropriadas a situações em escolas ou grupos, como os de escoteiros. Em casa, a negociação é o melhor caminho. Por exemplo, se eles provam que são capazes de cumprir o horário combinado para voltar de uma festa, podemos lhes permitir ficar fora um pouco mais. Na medida em que os adolescentes vão crescendo - meninos e meninas -, é melhor estabelecer linhas principais de comportamento que não podem ser negociadas - segurança, fidelidade aos acordos e o respeito pelos outros. Tudo o mais - corte de cabelo, músicas, etc. - pode ser opção para eles. Desse modo eles estarão praticando independência de pensamento, escolhendo suas ações e trabalhando com as consequências. Fixe o que é importante e mantenha em negociação o resto. É importante também que não sejam apenas servidos, que dividam as tarefas de casa e cozinhem.

ISTOÉ - Qual a importância dos ritos para os adolescentes?

Biddulph - É ideal que a comunidade de adultos introduza os garotos no sentido amplo de masculinidade, com intensos e significativos lembretes sobre responsabilidade, liberdade e os sagrados aspectos do que é ser homem. A responsabilidade de proteger, ser honrado, ser amoroso e amável. Se nós não fizermos isso para os nossos garotos, eles vão inventar seus próprios ritos de passagem, por meio da formação de gangues ou por meios perigosos de provar sua entrada na fase adulta. A existência de uma gangue é sinal de que os homens adultos de uma comunidade não estão fazendo seu trabalho. Não é uma falta das mães ou dos pais, mas o resultado do isolamento da família.

ISTOÉ - Qual a receita para formar homens capazes, amáveis e felizes?

Biddulph - Decidir desde os primeiros anos de vida deles que qualidades queremos que nossos filhos desenvolvam - e ensiná-los a fazer isso. Seja fazer uma boa comida, seja ser bons com crianças ou ir atrás do que acreditam. Se formos pró-ativos, não tivermos medo de nossos garotos, eles irão desenvolver bons sentimentos e fortes valores. Isso requer tempo e paixão, mas nos traz muito em troca.

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·        Jogos para meninos, bonecas para meninas: Na história dos brinquedos, os primeiros teriam surgido no tempo dos faraós

O Estado de São Paulo, Economia, Domingo, 23 de março de 2003

A história dos brinquedos é extensa e contraditória. Alguns historiadores registram a existência de bonecos de madeira e marfim que teriam divertido os faraós e eram a representação do Império Egípcio. Para outros, esses mesmos bonecos, datados de 2.000 antes de Cristo e encontrados nas tumbas dos faraós, eram representações rituais. Mas há enciclopédias e pesquisadores que sustentam que o homo sapiens, tal qual as descrições bíblicas da criação do homem, já produzia representações de pessoas e animais em barro, e esses seriam os primeiros moldes de bonecas de que se tem notícia.

Na Grécia e em Roma, 500 anos antes da era cristã, havia bonecas e marionetes. Nos escombros de Pompéia, um corpo de criança foi encontrado junto a uma boneca. Seja como for, a boneca, tal qual a conhecemos hoje, apesar da evolução dos materiais e da sua produção em plástico a partir dos anos 40 do século passado, data do século 15, em Nuremberg, na Alemanha. A cidade reunia artesãos que ficaram conhecidos pelos brinquedos e chegou até a ocorrer rivalidade com os produtores de Leipzig, onde havia feiras em que os produtos eram apresentados e passavam por inovações.

Aos franceses são atribuídos os primeiros bonecos de papel machê, a massa de papel molhado e cola que permitia moldes exclusivos. Daí, foi um passo para o uso da louça na confecção dos rostos, mãos e pés. Mas, se as bonecas se tornaram com o passar do tempo um brinquedo de menina, para os meninos surgiram outros, alguns ligados a jogos. As primeiras bolas de gude de que se têm notícia teriam surgido 3 mil anos antes de Cristo, eram feitas de pedras semipreciosas e estavam no túmulo de uma criança egípcia. Da mesma época datariam os piões, usados na Babilônia, o território onde hoje está o Iraque e é palco dos conflitos da primeira guerra do século 21.

Chocalhos, hoje um brinquedo para bebês e instrumento musical, por sua vez, teriam surgido no Egito por volta de 1.360 a.C, conforme modelo em forma de pássaros e animais existente em museus.

O primeiro esboço de bicicleta, por exemplo, teria saído do famoso desenho de Leonardo da Vinci (1452/1519), mas somente em 1790 ganharia as ruas. Os soldadinhos de chumbo teriam surgido no século 14, quando reis começavam a visualizar suas tropas com esses modelos. Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte, eleito presidente da França em 1848 e três anos depois imperador, era um admirador dos trenzinhos de ferro e tinha vários deles nos palácios franceses.

As caixinhas de música, que tinham tudo a ver com o período romântico, teriam sido criadas na Suíça em 1770, usando o conhecimento de relojoaria, uma vez que tinham um pente com dentes de metal que batia num cilindro que girava movido por peças de relógio.

Os famosos carrinhos dos meninos vão acompanhar a indústria automobilística e surgem nos anos 20. Mas é o plástico, a partir dos anos 40, que populariza os brinquedos então pouco acessíveis aos mais pobres, que tinham acesso apenas a bonecas de pano e brinquedos de madeira. Os de metal e papel machê ou louça eram objeto do desejo de muitos e brincadeira de poucos. (C.F.)

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·        Solteiros convictos podem ter gamofobia: Distúrbio psíquico explica comportamento de homens que têm aversão ao casamento, afirmam especialistas

Folha de São Paulo, Cotidiano, domingo, 23 de fevereiro de 2003 CLÁUDIA COLLUCCI

Homens que adiam sucessivas vezes a data de um casamento têm agora mais uma desculpa para não ser tachados de "enrolados" ou "engana moça". Eles podem sofrer de um distúrbio chamado gamofobia, ou medo do casamento.

A fobia pode até ter alguma relação com experiências de casamentos fracassados na família, mas, segundo psicólogos e psiquiatras, a maior razão é a falta de maturidade de alguns homens em assumir a idade adulta.

"O casamento implica responsabilidades. E eles querem ser adolescentes a vida toda", afirma o psiquiatra José Carlos Zepellini.

O pânico masculino diante da responsabilidade em questões como amor e casamento é tema do filme italiano "O Último Beijo".

O filme, que mostra homens que tentam prolongar ao máximo a adolescência e mulheres ansiosas por formar uma família, ilustra bem a história do farmacêutico José Pedro de Almeida, 46, que adiou o casamento três vezes.

"Cada vez que marcava a data, começava a ter insônia. O passo seguinte eram as taquicardias. Depois, chamava a minha noiva e falava que ainda não estava preparado para casar", lembra.

No terceiro adiamento, a noiva decidiu romper o noivado. "Fiquei meio sem chão porque não era aquilo que eu queria. Eu gostava muito dela, mas tinha pânico de perder a minha liberdade."

O empresário Fernando Porto, 37, tinha um medo parecido mas conseguiu superá-lo. Após oito anos de namoro com Rosalina, 39, ele tomou coragem e a pediu em casamento. "Não acreditava na instituição casamento. Tinha medo de perder a liberdade e da rotina da vida a dois", diz.

Casado há dez anos, Porto garante que não se arrependeu. "Tudo o que consegui até hoje, carro, casa e outros bens, foram graças ao nosso companheirismo. Se tivesse ficado solteiro, teria gasto tudo nos botecos", brinca.

Para a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de casal e família da PUC-SP, muitas vezes a pessoa fantasia "a prisão do casamento" por não se sentir suficientemente amadurecida para compartilhar uma vida a dois. "Elas falam tanto que querem a liberdade, mas saem do trabalho e vão direto para a casa da mãe."

Segundo ela, em geral, esse comportamento é mais característico do homem, que tende a se sentir preso mais facilmente que a mulher. "A mulher pensa no futuro, em ter filhos. Sabe que há um relógio biológico e, por isso, tem urgência em uma relação estável."

A pesquisa Estatísticas do Registro Civil, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), feita a partir de dados de cartórios, mostra que hoje homens e mulheres estão casando mais velhos do que há dez anos.

Em 2001, diz a pesquisa, as mulheres se casaram com idade média de 26,4 anos, e os homens, com 29,9 anos. Em 1990, a média das mulheres era 23,5 anos, e dos homens, 26,9 anos.

Para a técnica Elisa Caillaux, do IBGE, as dificuldades financeiras estão alterando o perfil dos relacionamentos, levando as pessoas a preferirem se firmar no emprego e estudar mais antes de casar.

O editor de imagem Rafael Rampazzo Gambarato, 30, é um exemplo disso. Namora há nove anos a dentista Simone, 28, e diz que o motivo para adiar o casamento, "para daqui a uns quatro anos", não é o medo. "É uma decisão racional. Queremos trocar de carro, viajar para o exterior, comprar terreno, construir casa para depois pensar em casamento."

O casal se conheceu em Americana e, seis meses depois, a partir de janeiro de 1995, passou a se ver apenas nos finais de semana. Primeiro porque Simone foi estudar em Alfenas (MG). Um pouco antes de ela terminar a faculdade, Gambarato mudou-se para São Paulo. "Assim dá menos briga."

Para a psicóloga Noely Montes Moraes, 50, o que acontece com Gambarato e a namorada é um fenômeno cultural contemporâneo e cada vez mais frequente.

"Como hoje há mais liberdade, o casal de namorados pode continuar na casa dos pais, ou morar sozinho, e dormir juntos, viajar, enfim, curtir a vida. É claro que o homem fica temeroso de deixar isso tudo e assumir os compromissos do matrimônio", diz.

Segundo ela, a instituição casamento é hoje muito questionada e, por exigir uma boa dose de renúncia, as pessoas estão se perguntando se vale realmente a pena. "Uma relação estável, comprometida, não precisa necessariamente culminar no casamento", afirma a psicóloga.

Para Moraes, o questionamento também tem sido feito pelas mulheres que têm independência financeira, especialmente aquelas que já casaram anteriormente.

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·        É o fim dos durões. O homem sabe ser sensível: Ele está muito mais afetuoso e participativo; e já não pensa só na carreira

O Estado de São Paulo, Domingo, 22 de setembro de 2002 -Paulo Pinto/AE

A família de Pedro Gasparini: "Não me daria bem com um machista", diz a mulher, Luciana

Se depender dos homens, foi-se o tempo dos durões. Eles querem mais do que realização profissional. Estão dispostos a tirar o terno e a gravata para mostrar que também são sensíveis, afetuosos e interessados em participar da vida familiar. A tendência, percebida em homens de classe média, é confirmada por estudos do Gender Group do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas.

Criado em 1995, o Gender Group é um modelo de terapia para desenvolver o relacionamento entre os gêneros masculino e feminino.

"Ao homem de hoje, é permitido que demonstre afeto", diz o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Gender Group do IPq, que acaba de lançar o livro Homens sem Máscaras: Paixões e Segredos dos Homens (Editora Campus). "Mas a grande transformação masculina é a preocupação com o desenvolvimento dos filhos."

Com apenas 25 anos, Roberto Vila Nova ocupa um cargo de responsabilidade numa grande empresa: é gerente de produto. Mas não basta. Roberto quer mais.

Enquanto construía o começo de sua carreira, ele também investia na vida pessoal. Agora, está com casamento marcado para novembro.

"Já penso em como vou me organizar para dividir a tarefa de criação dos filhos. Quero ir às reuniões de escola, por exemplo." E a idéia não é vista como um fardo, mas uma participação prazerosa. "Ele sempre fala da vontade que tem de participar da vida dos filhos", confirma Luciana Kojima, de 24 anos, noiva de Roberto.

Como base do relacionamento entre homens e mulheres, Roberto destaca compreensão, fidelidade e respeito. Comportamentos que fogem do padrão do estereótipo de homem durão. Roberto não deixa nenhum mal-estar permanecer sem ser esclarecido. "Conversamos de forma aberta, sem medo de nos expor um para o outro", completa Luciana.

"Acho até que falo demais", brinca Roberto.

Prioridades - Quem pensa que ser homem é dar prioridade para a vida profissional se engana. O advogado Pedro Paulo Gasparini, de 35 anos, fez questão de comparecer à primeira festa junina de sua filha Isabella, de 2 anos. "Foi em junho, era uma manhã de dia de semana. Mesmo assim, desmarquei compromissos de trabalho para poder estar com minha filha." Não será diferente com o segundo filho que está a caminho.

Pedro Paulo admite, porém, que o fato de ser profissional liberal facilita a conciliação de trabalho e participação familiar.

Para a mulher do advogado, a procuradora Luciana Gasparini, de 32 anos, esse tipo de disposição que seu marido tem é fundamental nos homens de hoje. "Não me daria bem com um homem do tipo machista", afirma ela.

Demonstrar sentimentos não é dificuldade para Pedro Paulo. "Ele tem até mais facilidade do que eu", confessa Luciana, que admira, respeita e aceita a emotividade masculina. Pedro Paulo é capaz de fazer declarações de amor para a mulher na frente de amigos, por exemplo. "E eu gostn dessas surpresas que ele me faz", diz Luciana. "Acredito haver mulheres que esperam o homem durão e até cobram isso de seus companheiros, mas elas são minoria", completa Pedro Paulo.

O professor de português Heric José Palos, de 35 anos, é mais um do time de novos homens. Casado há quase quatro anos, ele acredita viver em um tempo em que a masculinidade é mais simples. "Não temos de provar nada. A cobrança que o homem sofre para ser sempre o forte é menor." As censuras também são reduzidas. "Uso rosa numa boa, até gosto", brinca.

"Em casa, não temos papéis definidos, ele sendo o homem da casa e eu, a mulher", diz a cirurgiã dentista Natascha Zanetti Palos, de 27 anos, mulher de Heric. "É uma vida em comum." Uma espécie de parceria que tem conta conjunta no banco e, ao mesmo tempo, respeito à liberdade de cada um. "Ainda há mulheres que trabalham fora e acham que o salário do homem tem de dar conta das despesas da casa, não o delas. O que elas ganham é só para gastar com elas mesmas", critica Natascha. Para ela, esse tipo de comportamento é resquício do passado, quando homens eram chefes de família e mulheres, donas de casa.

Nos homens mais velhos, cobranças antigas e ultrapassadas podem ser maiores. Para o empresário Waldemar Calil Filho, de 55 anos, ser homem ainda significa ser o Deus da família. "Isso está mudando, mas ainda existe cobrança de que o homem tem de agüentar e resolver tudo."

Infalível - Waldemar é casado, tem três filhos e dois netos. "Parece que o homem não pode errar, tem de ser infalível." Mas, segundo Waldemar, quem mais o cobrou foi a sociedade, não sua família. O resultado da sensação de sobrecarga foi um enfarte aos 48 anos. "Cheguei ao hospital enfartando e sai com três pontes de safena."

"Algumas mulheres ainda querem homens que as protejam e que também sejam sensíveis", completa o fotógrafo Alex Salim, de 48 anos. "É como se elas estivessem perdidas entre o novo homem e o antigo." Alex é solteiro; namora há dois anos. "Pode dar casamento", revela.

Da mesma geração de Alex, o engenheiro eletrônico Lutero Márcio Rocha, de 47 anos, tem certeza de que seu filho de 19 anos sofrerá menos cobranças para ser um homem durão. Lutero é separado há três anos e pai de um casal de adolescentes. "Para mim, vida profissional e pessoal se completam, mas o mais importante mesmo é a pessoal. É com ela que conseguimos nos realizar mais."

Para a clássica reclamação feminina - "ele é um insensível mesmo" -, há uma resposta. "Se os homens não demonstram afeto, é porque não querem, não porque não sabem fazê-lo", diz Cuschnir. Boa parte dos homens já deu o primeiro passo: eles querem substituir força e agressividade por afeto.

Ainda há um problema sério: as cobranças

Muitas vezes, a necessidade de assumir certos comportamentos se reflete no corpo

Nervosismo, uma certa tristeza e até enxaqueca. Sintomas que invadiram o mundo masculino. Dispostos a demonstrar mais afetividade, os homens ainda se sentem censurados. As cobranças acabam provocando reflexos no corpo. Mesmo assim, eles são otimistas: não se entregam à doença e estão mais satisfeitos com a vida em geral do que as mulheres.

Os homens ainda têm medo de se expor. "Refrear a afetividade é uma imposição da cultura ocidental para os homens", diz o psicólogo Ênio Brito Pinto, do Instituto Gestalt de São Paulo. Para se proteger, eles se escondem por trás do que os especialistas chamam de máscaras. Pretendem ser o que não são e acabam confusos.

A confusão é menor nas gerações mais jovens. "Esse homem sabe o que é máscara e o que é o interior dele mesmo", explica o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Gender Group do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas. "Os mais jovens já aprenderam também que, na relação com as mulheres, nem tudo é para ser exposto." Os homens valorizam a privacidade. "E entendem desse valor melhor do que as mulheres", completa Cuschnir.

Se, no passado, o homem era obrigado a se encaixar em modelos prontos de conduta, hoje é diferente. "Ele pode escolher seu modo de ser", diz Pinto.

"Os modelos do passado foram questionados." Segundo os especialistas, o primeiro passo que os homens precisam dar é reconhecer que estão mais afetivos.

A mudança no perfil dos homens fez carreira no feminismo. Nos anos 70, as mulheres saíram de casa para trabalhar. Vinte anos depois, na década de 90, era a vez dos homens mostrarem que tinham se adaptado a mulheres independentes. Foi nessa época também que o masculismo chegou ao Brasil. "Masculismo é o estudo do comportamento masculino, em busca da definição dos novos valores do homem na atualidade", define Cuschnir.

Ao longo da vida, o homem passa por várias etapas de confirmação de sua masculinidade. Os primeiros conflitos de identidade surgem logo na infância. O menino se mistura com o mundo feminino por causa da relação de proximidade com sua mãe. Em seguida, ele começa a sentir necessidade, ainda que inconscientemente, de provar ser diferente da mulher.

É nessa fase que o menino procura outros meninos, rejeitando as meninas.

"Essas etapas são instintivas. A criança não sabe o que está ocorrendo", esclarece Cuschnir.

Fases - A adolescência agrupa outras duas fases do desenvolvimento do homem. O primeiro desafio é provar não ser homossexual. Em seguida, tem de provar virilidade. Fumar, beber e se opor a tudo são os comportamentos usados pelo adolescente para isso. Cuschnir alerta que essas provas podem significar risco.

Ao chegar à idade adulta, o homem tem mais uma prova de fogo. Ele se prepara para incorporar o papel de profissional de sucesso. Finalmente, ele parte para as duas realizações pessoais: casamento e paternidade. "É nessa fase que o homem está pronto para resolver seus conflitos, exercitar seus vários papéis e viver plenamente", diz Cuschnir.

Mas a vida adulta está chegando com atraso para os homens, segundo Pinto. O período da infância diminuiu. Em compensação, a adolescência anda se estendendo além da conta. "O fenômeno é percebido mesmo entre homens que já trabalham e são independentes financeiramente." São homens adultos com comportamento adolescente. (L.M.)

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