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Estado de São Paulo, Domingo, 26 agosto de 2007 |
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FEMININO |
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Uma
maneira diferente de amar
Poliamor é uma filosofia amorosa - seguida por poucos - que rompe com os padrões
sociais da monogamia
Ciça Vallerio
"Um bando de malucos." É o que muitos vão pensar sobre o
movimento amoroso, chamado poliamor, que vem dando as caras pelo mundo afora,
inclusive no Brasil. Realmente é difícil imaginar que, segundo seus preceitos,
uma pessoa tenha o direito de amar outras simultaneamente, envolvendo-se
afetivamente e sexualmente, sem ciúme nem cobrança de exclusividade.
Ao contrário das relações tradicionais, os
"poliamoristas" - nome dado aos adeptos - mantêm histórias paralelas de forma
aberta e com o consentimento dos parceiros. Bem diferente também da relação
"aberta", cuja conotação sexual é a base da proposta: transar com quem quiser,
desde que não se envolva emocionalmente. No poliamor, a idéia é amar e ser amado
por várias pessoas, seguindo o impulso natural do ser humano, sem se limitar às
convenções sociais da monogamia.
Impossível? Apesar do espanto geral, já existem alguns
poliamoristas por aí. Como são incompreendidos e mal-interpretados, geralmente
não gostam de mostrar a cara publicamente. Por isso, todos os entrevistados
preferiram usar pseudônimos.
A técnica em informática, Marceli, de 25 anos, é um
deles. Ela tem um namorado e uma namorada. Todos se conhecem, se gostam, se
respeitam e pensam até em morar juntos. Esse trio "funciona" há três anos. "Há
quem pense em orgia ou promiscuidade, mas é uma relação baseada na cumplicidade,
respeito e sinceridade", avisa. "É viver sem mentiras nem com o peso da culpa
por manter um caso extraconjugal. E ficar feliz pelo outro, ao saber que a
pessoa que você ama também está feliz."
O namorado de Marceli, o designer gráfico Cláudio, de 26
anos, admite que não é nada fácil administrar uma relação fora do padrão.
"Acredito que o casal deve definir como funciona o relacionamento, que vai
tomando forma de acordo com as particularidades de cada um. Lidar com ciúme é
difícil, mas lidar com a mentira é ainda mais difícil."
Cláudio não é polígamo. Aliás, é muito comum confundir
poliamor com poligamia, que é a união conjugal (oficial) de uma pessoa com
outras. Há países que aceitam esse costume. No Brasil, é proibido pela lei, mas
existem os casos de vida dupla: quando um homem se casa com uma segunda mulher e
sustenta duas famílias, sem que uma saiba da outra. Apesar da diferença ser
tênue, poliamoristas não se relacionam às escondidas e as mulheres se relacionam
também com outros homens, sem exigência de exclusividade.
SINAL DOS TEMPOS?
Poliamor não é um movimento tão desconhecido assim e já
saiu do gueto faz tempo. A psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins reservou
um extenso capítulo na nova edição de A Cama na Varanda - Arejando nossas Idéias
a Respeito de Amor e Sexo (Editora Best Seller, R$ 44,90), para tratar do tema.
O livro foi lançado há 10 anos, tornou-se sucesso editorial, estava esgotado
desde 2004 e agora volta às livrarias atualizado e ampliado, com o acréscimo de
uma parte instigante, que anuncia as novas relações amorosas.
"Estamos vivendo um momento singular, no qual os modelos
de relacionamento tradicionais não dão mais respostas às novas aspirações, ao
desejo crescente de liberdade em contraponto aos padrões sociais que causam
frustração e desencanto", explica Regina. "Cada vez mais as pessoas podem
escolher e respeitar formas diferentes de viver, seja seguindo a estrutura de
relacionamento monogâmico ou optando por outras formas de amar." Tal como o
poliamor, que prenuncia o fim do amor romântico, caracterizado pela idealização
do outro, fusão dos dois num só e pela idéia da exclusividade.
O poliamor nasceu nos Estados Unidos há 20 anos, mas tem
ramificações na Alemanha, Reino Unido e em muitas outras partes do mundo. Em
novembro de 2005, conforme registro na Wikipédia (enciclopédia livre da
internet), realizou-se a Primeira Conferência Internacional do movimento, em
Hamburgo, Alemanha. Segundo Regina, existem no Google (ferramenta de busca da
web) 769 citações da palavra poliamor e 840 mil da palavra polyamory - junção de
poly (do grego, que significa muitos), e amor (do latim).
Adepta dessa filosofia, a vendedora Daniela, de 26 anos,
conta que poliamorista se depara com preconceito, principalmente quando é
mulher. "Perdemos a credibilidade e muitos nos vêem como vulgar", confessa. "Os
homens saem de bacana quando mantêm um relacionamento com várias mulheres ao
mesmo tempo, enquanto nós dificilmente encontramos um homem que aceite dividir a
namorada com outro homem."
Ela tem namorado, mas mantém relacionamento com outro.
Como a relação não é consentida pelo atual namorado, apenas pelo outro parceiro,
Daniela ressalva que não vive exatamente uma relação poliamorista. O "namorado
oficial", aliás, sabe da posição liberal da namorada uma vez que ela faz parte
de uma das várias comunidades brasileiras que existem no Orkut, voltadas para o
tema. Mas, como explica a vendedora, por medo de perdê-la, ele prefere fazer
vista grossa.
"No poliamor, a gente ama o ser humano, o sexo não é o
foco e a relação com os envolvidos é duradoura. O difícil é encontrar pessoas
que consigam se libertar do sentimento de posse", reclama Daniela. "Mas viver ao
mesmo tempo outros amores é maravilhoso, porque curtimos o que cada um tem de
legal e não colocamos toda a expectativa numa única pessoa. Meu namorado, por
exemplo, acompanha meu ritmo intelectual, gostamos de ler, vamos ao teatro, a
exposições; enquanto que o outro é mais carinhoso, gosta de ficar juntinho em
casa comendo pipoca e namorando."
Para quem continua achando tudo isso uma maluquice, a
psicanalista Regina lembra que todo processo de mudança social causa estranheza.
Seria considerado louco, por exemplo, quem dissesse, lá pelos anos 50, que o fim
de um casamento se tornaria comum e que a mulher separada não seria mais
discriminada. E olha só no que deu.
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