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UMA CANÇÃO DE
AMOR
Antonio Carlos
Egypto
UMA CANÇÃO DE
AMOR (Les Chants des Marriées). França/Tunísia, 2008. Direção: Karin
Albou. Com: Lizzie Brocheré, Olympe Borval, Najib Oudghiri e Simon Abkarian. 100
min.
"Uma canção de amor" é um título inadequado para o filme da
diretora francesa (de origem judaica?), Karin Albou. Ele poderia ter sido
chamado de "Canções de casamento" ou mesmo "As canções dos casados", embora este
último não seja bom em português. Pelo menos, estariam mais adequados a um filme
que, por meio de duas jovens, aborda questões relacionadas ao afeto e ao
casamento, ao mesmo tempo em que nos situa no contexto histórico e das
diferenças religiosas na Tunísia, em plena Segunda Guerra Mundial.
As duas adolescentes, Nour e Myriam, uma muçulmana e outra,
judia, convivem harmoniosamente, assim como suas famílias, no mesmo ambiente de
moradia. São muito amigas e as diferenças de seus mundos mais as aproximam do
que as separam. Como costuma acontecer, uma gostaria de ter o que a outra tem. A
muçulmana Nour, por razões religiosas, não pode frequentar a escola e se
desenvolver culturalmente como sua amiga e, é claro, gostaria de fazê-lo. A
judia Myriam desejaria poder noivar e casar com quem ama, como está prestes a
acontecer com sua amiga Nour.
Estamos na Tunísia, em 1942. O país é um protetorado francês, que
só conquistará sua independência em 1956, mais de dez anos após o fim da Guerra
Mundial. A França pode ser vista como opressora, principalmente pela comunidade
muçulmana e por suas mulheres. Mas a França, a esta altura, está ocupada e os
alemães invadem a Tunísia. Se, para os judeus, isto vai significar uma
perseguição brutal e o fim de seu patrimônio acumulado, para os muçulmanos, os
nazistas podem até parecer simpáticos, ao menos por algum tempo.
Em 1943, os aliados retomarão a Tunísia, mas até lá as duas
amigas serão levadas a grandes mudanças de vida, que as colocarão em polos
opostos. A amizade será posta à prova e precisará de muito empenho e confiança
mútua para resistir a tal intempérie.
A vida das mulheres no judaísmo e no islamismo, nesse período
histórico, na África muçulmana, no caso, sob o domínio francês (e, por um
período, também alemão) será mostrada por meio da relação entre as duas amigas.
E a narrativa conduzida por Karin Albou, ao assinalar as diferenças, acaba por
sublinhar as semelhanças. As mulheres, tanto as judias quanto as muçulmanas, têm
sua vida limitada e controlada, espaços reduzidos de ação e decisão, que as
impossibilitam, por razões diversas, de alcançar a autonomia e a felicidade. Uma
vida de sofrimento e opressão masculina, familiar, social e religiosa é o que as
espera. As circunstâncias da guerra mundial servem para transformar o drama em
tragédia, exacerbando os conflitos. Mas o destino, na realidade, não depende
delas, embora, em algumas circunstâncias, possa caber a uma mulher a sorte de
conviver com um homem bom que lhe coube aceitar e daí até nascer o amor. Mas é a
roleta da sorte que determinará isso.
"Uma canção de amor" é um filme que trata das relações de gênero
com um olhar feminino, sensível e competente. A diretora, em seu segundo
longa-metragem, mostra-se capaz de abordar com sutileza e sem qualquer dose de
moralismo ou de militância feminista a realidade da mulher que vive num mundo
que a oprime e limita.
Ela já havia tratado da questão feminina na comunidade judaica de
Paris, no seu primeiro longa "A pequena Jerusalém", que agora pode ser visto em
DVD. Num mundo onde a diversidade cultural, social e religiosa se impõe e exige
que estejamos abertos a compreender e lidar com as diferenças, filmes como esses
são importantes e atuais, mesmo que sua trama nos remeta ao distante 1942, como
é o caso de "Uma canção de amor". Mais do que um filme histórico, é uma película
que nos ajuda a refletir sobre algumas questões fundamentais da atualidade.
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