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ANTES QUE
O MUNDO ACABE
Antonio Carlos
Egypto
ANTES QUE O MUNDO
ACABE. Brasil, 2009. Direção: Ana Luiza Azevedo. Com Pedro Tergolina, Eduardo
Cardoso, Caroline Guedes, Eduardo Moreira, Janaína Kremer e Bianca Menti. 102
min.
"Antes que o
mundo acabe", o filme dirigido por Ana Luiza Azevedo, é uma produção da Casa de
Cinema de Porto Alegre e conta, entre seus roteiristas, com Jorge Furtado, Giba
Assis Brasil e Paulo Haim, além da própria diretora. Um handicap e tanto.
Jorge Furtado
dirigiu um dos melhores curtas de toda a história do cinema brasileiro: "Ilha
das Flores". Dirigiu também um ótimo filme para adolescentes: "Houve uma vez
dois verões". É responsável ainda por filmes como: "Meu tio matou um cara" e "O
homem que copiava", películas que dialogam muito bem com o público, inclusive o
público adolescente. "Saneamento básico, o filme" é o mais recente trabalho do
diretor e reafirma o seu talento para se comunicar de modo inteligente e
divertido com diversos tipos de espectadores, entre eles, os mais jovens.
São os filmes
dirigidos principalmente às crianças e aos adolescentes aqueles que podem
construir plateias mais identificadas e afinadas com a produção nacional,
superando preconceitos atávicos que permeiam a nossa história cinematográfica.
"Antes que o mundo acabe" é um exemplo muito bem acabado desse diálogo do cinema
brasileiro com os adolescentes.
Numa narrativa
fluente, envolvente, com diálogos inteligentes e bem humorados, Ana Luiza
Azevedo conta a história de Daniel (Pedro Tergolina), 15 anos, a partir da ótica
de sua irmã menor, Maria Clara (Caroline Guedes).
Eles vivem na
cidade de Pedra Grande, um município interiorano do Rio Grande do Sul, que não
fica muito longe de Nova York, outra cidadezinha gaúcha, que aprendemos que
existe, pelas conversas dos adolescentes da cidade. Daniel vive sua vida
pacata, de jovem do interior, mas as questões típicas da idade do crescimento
são problemas que mexem muito com ele. Por exemplo, a namorada Mim (Bianca
Menti), que não sabe bem o que quer, o triângulo amoroso à "Jules e Jim", de
Truffaut, e que envolve seu maior amigo e ele e uma acusação de roubo no colégio
que atinge o amigo Lucas (Eduardo Cardoso), sendo que ele está bem envolvido na
história.
O mau humor
típico do adolescente é narrado por Maria Clara com sutileza e graça, a cada
chegada em casa do irmão, ora agressivo, ora chato, ora insuportável, ora
apaixonado, ora decepcionado, ora deprimido, ora crente de que vai morrer. São
mostradas as relações de Daniel em casa, não só com a irmã mas com a mãe e o
padrasto, estes, compreensívos e negociadores. A vida dos jovens e suas
relações em Pedra Grande, em viagem a Porto Alegre e na escola, estão presentes
na história. Mas a melhor sacada da trama é o pai distante, também chamado
Daniel (Eduardo Moreira). Ele vive agora na Tailândia e resolve se comunicar
com o filho que não conhece e que não o conhece, enviando cartas e fotos pelo
correio.
O pai é fotógrafo
e vive pelo mundo, registrando-o como ele é, antes que a globalização faça tudo
virar shopping. É no amor pela diversidade e pelo idealismo aventureiro que ele
terá possibilidade de conquistar o respeito e a admiração de seu filho Daniel.
O adolescente
descobre, por meio desse pai distante, que o mundo é muito maior do que ele pode
imaginar. E se ele sabe onde fica Nova York, não tem ideia da existência das
tribos poliândricas da Malásia e o que isso possa ter a ver com as questões
vividas por ele neste momento.
As fotos das
paisagens e pessoas da Tailândia ganham uma importância que ele jamais poderia
imaginar. Afinal, é preciso fazer "algo antes que o mundo acabe". Belíssima
abordagem para os adolescentes que precisam aprender a parar de olhar só para o
próprio umbigo. O mundo é muito maior do que os nossos pequenos problemas. Há
muito mais coisas em jogo, se formos capazes de olhar para a diversidade humana
e cultural. Isso vai muito além de apenas reclamar do mundo ou denunciar
coisas.
O filme tem todo
esse enfoque, amplo e generoso, passa muita afetividade, tem uma veracidade
notável, valoriza muito bem a fotografia e o grafismo. E faz tudo isso a partir
de personagens e situações singelas, recheadas de humanismo. Assim como "Houve
uma vez dos verões", de Jorge Furtado, de 2002, um filme altamente recomendável
para os adolescentes e para os educadores.
O filme é baseado
em livro homônimo, de Marcelo Carneiro da Cunha, e conta com um elenco afiado,
onde ninguém destoa. Ótima pedida.
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