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REENCONTRANDO A FELICIDADE
Antonio
Carlos Egypto
REENCONTRANDO A
FELICIDADE (Rabbit Hole). Estados Unidos, 2010. Direção: John Cameron
Mitchell.
Com Nicole Kidman, Aaron Eckart, Dianne West, Miles Teller, Sandra Oh.
91 min.
"Reencontrando a felicidade" é um dos piores títulos em português que poderiam
ser pensados para "Rabbit Hole". Provavelmente, o buraco do coelho ou
a toca do coelho deve ter soado infantil para os distribuidores do filme no
Brasil. Ocorre que eles remetem a Alice, de Lewis Carroll, e à entrada
num universo desconhecido, onde nunca se fica à vontade ou em paz, tudo parece
incomodar, o tempo é um problema e o personagem não se reconhece naquele
labirinto em que se enfiou. É disso mesmo que trata o filme. Ele também
poderia ter sido batizado de universos paralelos, em alusão a um livro
que a personagem principal lê, e a uma história em quadrinhos, que é produzida
por outro personagem, um adolescente diretamente envolvido na trama. Eles
remetem igualmente a esses universos desconhecidos e desconfortáveis. Universos
de perplexidade e dor, em que a questão da felicidade nem se coloca. Trata-se,
isso sim, da perda, do luto.
Faz
parte do roteiro da vida que os pais morram antes dos filhos. Quando isso não
acontece, a dor da perda é muito grande. Tratando-se de um filho pequeno, morto
num acidente em que não se pode atribuir culpa a ninguém, a perplexidade e a dor
se instalam.
Como
viver depois disso? Como conseguir elaborar uma perda assim tão forte e
decisiva? O chão se abre e a vida passa a ser um buraco negro, em que a própria
identidade vai se desfazendo. Parece não haver reparação possível.
O apelo
mais comum é à crença religiosa. Mas Becca (Nicole Kidman), a mãe em luto, é
crítica demais para se colocar na condição de uma pessoa ingenuamente conformada
com os desígnios de Deus, claramente incompreensíveis nesse caso. Grupos de
autoajuda costumam ir por aí. O compartilhar da dor pode ser muito importante,
mas nem sempre traz conforto de fato. Quem sabe compartilhar uns cigarros de
maconha com alguém na mesma situação possa ajudar? Bem, pelo menos é o que
acaba fazendo o pai, Howie (Aaron Eckart).
Ele
procura elaborar a sua perda, apegando-se a imagens e objetos do filho morto.
Ela, ao contrário, procura apagar tudo isso para sofrer menos. E desencontros
como esses irão produzir um distanciamento entre os dois. O sexo, que se liga à
reprodução e, eventualmente, poderia substituir o filho perdido, sai de cena, se
torna uma impossibilidade. Tudo vai se tornando difícil, cada vez mais
complicado.
É da
dolorida elaboração do luto que torna a vida inóspita, tensa, ríspida, estranha
em todos os sentidos, que trata o filme, baseado num texto denso e forte,
oriundo de uma peça teatral. As imagens do filme, com cores frias, e o clima
que se instala, mostram com clareza todo esse sentimento e a luta interior que
se estabelece, contando com o desempenho notável tanto de Aaron Eckart quanto de
Nicole Kidman. Eles dão consistência interpretativa a toda essa dor e aos
conflitos intensos de seus personagens.
O
diretor não faz do drama uma coisa pesada e insuportável, até dá alguns
respiros, mas consegue pôr em imagens a dor e a perplexidade que estão no centro
da narrativa e pontuam o confronto do casal enlutado.
John
Cameron Mitchell surpreende, num registro bem diferente de seus longas
anteriores: "Hedwig, Rock, Amor e Traição" (2001) e "Shortbus" (2006), esse
último lançado há pouco tempo no circuito cinematográfico no Brasil. "Hedwig"
remetia a uma cantora de rock, de Berlim Oriental, que nasceu homem e teve
problemas na operação de mudança de sexo. O papel vivido pelo próprio diretor,
também roteirista, é ousado, colorido, com muita música e humor, apesar de
amargo. "Shortbus" é um filme sobre sexo, amor, hedonismo - a busca do prazer e
a sua perspectiva libertadora. Contém cenas de sexo explícito, num
direcionamento pansexual, que, no entanto, se revela insatisfatório para seus
próprios personagens. É outro filme ousado, mas que, com tudo isso, consegue
ser sutil e questionador. E não descamba para o mau gosto. Mérito inegável do
diretor.
Esses
dois filmes são produções independentes, de baixo orçamento, diferentes de
"Rabbit Hole", cujo projeto é mais ambicioso e foi oferecido a Cameron
Mitchell. Não era originalmente projeto seu. A sensibilidade que ele
demonstrou na realização desse filme, porém, foi tão grande que parece criação
sua, em todos os sentidos. Talvez porque sua vida pessoal e familiar tenham
sido marcadas por essas elaborações de luto, o que pode ter produzido toda essa
empatia com a trama filmada. E, é claro, demonstra o talento e a versatilidade
do realizador.
http://cinemacomrecheio.blogspot.com
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