|
Nova pagina 1
O Estado de São Paulo, Domingo, 31 de Janeiro de
2010 | Versão Impressa
Jovens estouram contas das famílias
Pesquisa mostra que famílias com jovens entre 12 e 19 anos gastam, em média, 5%
a mais do que ganham
Márcia De Chiara
O ímpeto consumista dos jovens,
especialmente de classe média alta, está levando as finanças das famílias para o
vermelho. Os lares com filhos entre 12 e 19 anos têm despesa mensal familiar que
excede em 5% as receitas, enquanto as famílias sem adolescentes conseguem poupar
5% do que ganham, revela pesquisa realizada pela Kantar Worldpanel (ex-
LatinPanel). A consultoria visita semanalmente 8,2 mil domicílios no País para
fotografar o consumo do brasileiro.
O furo no orçamento que está
levando as famílias a se endividarem para quitar as contas do mês é ainda maior
entre as camadas sociais mais altas. Os domicílios das classes A/B, com renda
mensal superior a dez salários mínimos (R$ 5,1 mil), gastam em média 8% a mais
do que ganham por causa das despesas de consumo dos adolescentes. No caso da
classe C, a despesa excede em 3% a receita e nas camadas D/E o diferencial é de
5%. "Hoje os filhos são paparicados e os pais estão endividados", resume a
diretora da consultoria e responsável pela pesquisa, Christine Pereira.
O engenheiro Wagner Varela, de
48 anos, pai de Beatriz, de 17, confirma a constatação da pesquisa: "Hoje está
difícil poupar". Varela conta que há vezes que precisa recorrer ao cheque
especial para fechar o mês. Entre despesas com faculdade, aulas de inglês,
piano, jazz, academia, cabeleireiro, celular, cinema, lanche, transporte e
roupas, ele gasta com a filha única cerca de um terço da renda familiar. Só com
roupas, o desembolso gira em torno de R$ 300.
Beatriz não se considera
consumista perto dos amigos que vão todo os finais de semana ao shopping e
exibem, com frequência, um par de tênis novos, mas ela admite que prefere roupa
de marca. "Calça eu compro na ponta de estoque da Carmim porque ela veste bem",
afirma a adolescente, que não gosta de balada. "O que eu mais gasto é com
roupa."
De fato, a pesquisa revela que
as famílias com adolescentes desembolsam 43% a mais com artigos de vestuário do
que as famílias sem jovens. As despesas com serviços de comunicação e
alimentação fora de casa também são 9% e 10% maiores, respectivamente, nas
mesmas bases de comparação.
Outra pesquisa, só que
qualitativa, feita pela empresa Millward Brown para avaliar relação dos jovens
com as marcas no mundo digital, mostra que de sete consideradas como grandes
marcas pelo público jovem, quatro são de artigos de vestuário. Valkiria Garre,
diretora da empresa e responsável pela pesquisa, conta que os jovens falam das
marcas de roupa como seus pais, ressaltando a qualidade.
Rodrigo Messias, diretor de
Sport Performance da Adidas, que é uma das marcas tidas como consagradas pelos
adolescentes, segundo a pesquisa, diz que mais da metade do faturamento da
empresa vem das vendas para o público jovem e entre 70% e 80% dos lançamentos
estão voltados para esse consumidor. "Os teens são muito representativos no
mercado de material esportivo", observa.
Nas Lojas Renner, especializada
em itens de vestuário, por exemplo, as vendas para o público teen não
representam a maior fatia da receita. "Mas têm um papel estratégico", afirma
Gabriela Lima, gerente geral de Estilo da rede. Ela ressalta que, se esse
consumidor jovem for conquistado pela empresa, poderá se tornar fiel à loja
quando adulto. Hoje a rede tem três marcas próprias de artigos de vestuário
voltadas para jovens. Uma delas, a Mix Teen masculina, está apoiada na Adidas
como marca principal entre os itens vendidos na loja. Gabriela diz que a Adidas
é referência para os meninos que têm ídolos no esporte.
GIGANTISMO
O mercado de consumo dos teens
é gigantesco. Nas contas de Christine, da Kantar Worldpanel, entre alimentos
diferenciados, roupas de marca, celulares sofisticados e serviços de
cabeleireiro, por exemplo, são movimentados R$ 48 bilhões por ano. A cifra se
equipara ao total de desembolsos destinados à indústria feitos pelo BNDES entre
janeiro e setembro de 2009.
A pesquisa revela também que a
alimentação em casa é a despesa que mais pesa no orçamento das famílias com
adolescentes (18%). O carrinho de supermercado dos lares com jovens é mais cheio
do que o das famílias sem teens, em todos os estratos sociais. Segundo a
enquete, as famílias das classes A/B com adolescentes compram 41 categorias de
produtos, quatro a mais que os lares sem teens. No caso das classes D/E, o
diferencial é ainda maior: 38 categorias no carrinho das famílias com
adolescentes, ante 32 categorias nos lares sem jovens.
O engenheiro Varela, por
exemplo, conta que conheceu alguns itens, como bebidas isotônicas e lanches
rápidos que vão direto ao micro-ondas, por intermédio da filha adolescente. E
esses itens foram incorporados à lista de compras da casa.
Um dos destaques da pesquisa,
observa Christine, é exatamente a forte presença de alimentos práticos e rápidos
na lista de compra das famílias com jovens. A penetração do catchup é 23% maior
no carrinho de compras das famílias com jovens em relação ao das famílias sem
jovens. No leite aromatizado e na massa instantânea, por exemplo, os índices de
penetração são 20% e 13% maiores, respectivamente, nas mesmas bases de
comparação.
|