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Folha de São Paulo, Ilustrada, domingo, 31 de janeiro de
2010
Relações "descartáveis" são maioria em novelas
Estudo classifica casos de amor e personagens em 13 tramas do horário nobre,
exibidas pela Globo de 2000 a 2008
"Homens conquistadores e mulheres fáceis" aparecem com frequência; para
pesquisador, ficção retrata "modernidade líquida"
AUDREY FURLANETO, DA SUCURSAL DO RIO
"Ela foi casada cinco vezes. Primeiro com um italiano, depois com um português,
mais tarde com um judeu, logo após com o mesmo italiano e, em seguida, com um
japonês."
A julgar pela quantidade de casórios da sinopse, Safira, papel de Cláudia Raia
em "Belíssima" (2005), está inserida na "modernidade líquida" -ela e boa parte
dos personagens de 13 novelas que a Globo exibiu de 2000 a 2008 no horário
nobre. É uma das primeiras conclusões do trabalho de doutorado do mestre em
educação Marcus Tavares, 35.
Para o estudo, em andamento na PUC-Rio, ele categorizou os relacionamentos dos
folhetins seguindo os perfis, como o de Safira, descritos no site Memória Globo
(núcleo que pesquisa a história da emissora).
Segundo o ranking, são 32 casos de "mais de um casamento ou relação estável",
seguidos por 29 "relacionamentos curtos e descartáveis, com filhos fora do
casamento" e 20 histórias de "homens "conquistadores" e mulheres "fáceis".
"Autores [de novelas] estampam a realidade, e o que dizem sociólogos, como [o
polonês Zygmunt] Bauman e sua "modernidade líquida", diz o pesquisador. O amor
no horário nobre, enfim, é tão fluido quanto fora dele.
A moral dos ídolos
Tavares se refere à formação de um "novo indivíduo, dono da sexualidade,
destituída da função reprodutiva". No ranking, há ainda 13 casos de
"prostituição por prazer ou necessidade" e, empatados com 11 registros,
"relações entre membros da família" e "extraconjugais ou estáveis com traição
masculina".
Os números, apresentados no 1º Seminário Internacional de Classificação
Indicativa, realizado em Brasília no final de 2009, serão a base para discutir a
influência das tramas em crianças. "O que se sabe em educação é que os modelos
influenciam. Os ídolos são muito importantes", diz Tavares.
"Não estou sendo conservador ou defendendo a família tradicional. Mas precisamos
saber de que forma a escola trabalha questões amorosas atuais que são reforçadas
pela mídia".
Para Maria Immacolata Vassallo de Lopes, coordenadora do Centro de Estudos de
Telenovela da USP, "é importante não ter uma atitude moralista ou algum juízo de
valor" nas categorias do estudo. "Não sei se cabe o termo "descartável" para uma
relação, apenas pelo fato de ela durar pouco", diz.
O fato de retratar a relação entre tradição e modernidade, segundo Lopes, liga
as telenovelas à história do país:
"Desde que o gênero se abrasileirou, com "Beto Rockfeller", [de 1968, na TV
Tupi] que era um malandro brasileiro, a novela passa a fazer parte da
modernização do Brasil". E, atualmente, diz, "o fluido é a própria condição da
modernidade".
Com 23 novelas no currículo (17 delas na Globo), o autor Lauro César Muniz
defende que, além de atuar na modernidade, a dramaturgia ajuda a "organizar as
relações".
"Os relacionamentos passaram a ser mais rápidos, e a TV tem a função positiva de
organizar isso. Como a dramaturgia é orgânica e precisa se comunicar, tenta
organizar isso de forma clara".
Para Muniz, "as crianças não sofrem tanto [os efeitos das novelas] quanto dizem
os moralistas". "Elas estão inseridas na realidade. É como receber lições sem
palavras de ordem."
Economista vê aumento de divórcios
DA SUCURSAL DO RIO
As novelas brasileiras refletem um segmento específico da sociedade:
setores urbanos, de classe média ou alta, independentes e emancipados. É a
conclusão do economista peruano Alberto Chong, do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID).
Coordenador de dois estudos sobre as novelas brasileiras -um focado em
taxas de fertilidade e outro, em índices de divórcio-, Chong e equipe analisaram
115 novelas exibidas pela Globo às 19h e às 20h, entre 1965 e 1999.
As taxas de fertilidade (número de nascidos vivos por mulher em idade
reprodutiva) caíram 60% no período, enquanto os divórcios aumentaram mais de
cinco vezes desde a década de 80. Nos mesmos anos, a presença dos aparelhos de
TV nos domicílios aumentou em mais de dez vezes.
"Nossos resultados indicam que, mesmo levando-se em conta outros fatores
ligados a desenvolvimento [do país] e similares, ainda notamos um impacto
significativo das novelas em longo prazo", diz Chong.
Áreas com e sem sinal da Globo, por exemplo, têm diferenças consideradas
significativas pelo economista. Caiu 0,6 ponto percentual a taxa de fertilidade
em regiões que recebiam as novelas da emissora.
O contrário ocorre com o divórcio: é maior (de 0,1 a 0,2 ponto percentual)
a porcentagem de mulheres separadas ou divorciadas de 15 a 49 anos em áreas de
alcance do sinal.
Nas novelas, segundo o estudo, 26% das personagens principais eram infiéis.
(AF)
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