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Revista Época, 28/01/2010 - 11:58 - ATUALIZADO EM
29/01/2010 - 20:09
Mulheres & dinheiro
Elas têm mais poder que nunca
sobre as finanças em suas vidas, nas famílias e nas organizações. E não vão
usá-lo do mesmo jeito que os homens
MARCOS CORONATO E DANIELLA CORNACHIONE
Elas chegaram lá com alguma violência, por um caminho nada cor-de-rosa. As
mulheres começaram a escalar os degraus do poder no mundo ocidental ainda no
século XIX, em campanhas pelo direito ao voto que chocavam seus contemporâneos.
Precisaram de duas guerras mundiais para que o século XX reconhecesse o valor de
sua força de trabalho. Continuaram a escalada com o feminismo estridente dos
anos 60 e uma dedicação inabalável aos estudos. Havia homens barrando o caminho,
mas elas começaram a atingir o topo das carreiras na política e nas empresas.
Pelo caminho, deixaram um mundo transformado. Há mais educação. Mais
produtividade. Menos filhos por casal, mais bem cuidados. Não houve mudança
social maior nos últimos 100 anos - e ela mal começou. Agora, um número
crescente de mulheres pode ou precisa decidir por si só o próprio futuro
financeiro, e delas dependem mais e mais famílias e empresas. A mudança seria
notável de qualquer forma, pelo rearranjo de poder, mas ela traz um componente
mais instigante: e se as mulheres usarem o dinheiro de um jeito diferente do que
se considerou "normal", enquanto os homens detiveram todo o poder econômico?
Surpresa: é isso que elas fazem.
Economistas, sociólogos e psicólogos vêm tentando há anos entender melhor nossas
decisões e escolhas a respeito de dinheiro. No processo, surge uma montanha de
evidências de que emoções e impulsos primários desempenham um papel muito maior
do que esperávamos em nossos atos relacionados a ganhar, gastar e investir. Isso
revela que existem um modo mais masculino e um mais feminino de lidar com o
tema. O jeito feminino traz benefícios para a sociedade, mas ele passará por
dores do parto antes de se tornar dominante. "Além de as mulheres, neste
momento, ainda terem menos educação financeira, elas mostram emoções mais
facilmente - pode ser tanto o medo de fazer uma dívida quanto o encantamento por
um objeto de consumo", afirma a economista Roberta Muramatsu, professora da
Universidade Mackenzie e Ph.D. em finanças comportamentais.
As diferenças ganharam também a atenção de Suze Orman, a mais famosa guru de
finanças pessoais dos Estados Unidos. Seu livro As mulheres e o dinheiro foi
lançado em dezembro no Brasil. Ela conta que sempre pensou em orientação
financeira indistinta para homens e mulheres, até que não pôde mais ignorar as
necessidades específicas que via em suas amigas e conhecidas. Sem precisar se
preocupar com o rigor científico dos pesquisadores, Suze dispara: está cansada
de ver mulheres "inteligentes, competentes e realizadas" convivendo com um
permanente caos financeiro. "Seu instinto maternal reina absoluto; você faz tudo
para todos antes de fazer para si mesma", afirma, num recado às leitoras do
livro.
O espírito desse tempo, de escancarar as diferenças, encontra boas definições em
dois trocadilhos em inglês. Um deles é "womenomics", ou economia das mulheres,
termo criado pelas jornalistas americanas Katty Kay e Claire Shipman no livro de
mesmo nome. Elas defendem uma nova investida feminina contra os abalados
alicerces do mercado de trabalho, a fim de mudá-lo de vez. Conseguir jornadas
mais flexíveis e incentivar o trabalho a distância estariam entre as
prioridades. O outro termo que ganhou popularidade foi "mancession", a recessão
do homem. A palavra lembra que a crise global teria sido provocada pelo excesso
de agressividade, ousadia e testosterona nos grandes bancos. O resultado dessa
crise provocada por homens foi especialmente devastador para os homens. Nos
Estados Unidos, a diferença no nível de desemprego entre os sexos, a favor
delas, chegou ao maior nível em 60 anos. Embora o Brasil não tenha sofrido tanto
com desemprego, tem sua versão da "mancession": a maior parte dos cortes de
postos de trabalho por aqui ocorre entre homens, que são os trabalhadores com
menor grau de instrução. A maior parte dos postos de trabalho criados vai para
as mulheres, que são maioria entre os que têm nível superior.
A fim de entender melhor o suposto jeito das mulheres de lidar com dinheiro,
ÉPOCA consultou os livros e as pesquisas mais recentes a respeito do tema e
pediu um estudo à recém-criada Sophia Mind, empresa especializada em
comportamento e tendências no universo feminino. A pesquisa foi feita no segundo
semestre de 2009 com mais de 2 mil mulheres com acesso à internet banda larga
nas seis maiores capitais brasileiras. Seu resultado está apresentado nestas
páginas. Ele faz constatações importantes: a realização de investimentos por
parte das mulheres cresce principalmente com o nível de educação, e não tanto
com o nível de renda; elas dividem as responsabilidades financeiras domésticas
de maneira bem igualitária com os companheiros (ou, pelo menos, afirmam
dividir); aplicam dinheiro de maneira errática, sem rotina definida (com as
fluminenses mostrando mais disciplina que as paulistas); demoram demais para
começar a pensar em aposentadoria e organizar um bom plano com esse objetivo; e
gastam mais em moda do que com saídas.
A partir do estudo, Andiara Peterle, executiva-chefe da Sophia Mind, chama a
atenção para o que considera comportamentos financeiros a corrigir. Em parte,
essas atitudes ruins se parecem com as encontradas no universo masculino
brasileiro. "Elas tendem a se preocupar mais que o necessário com possuir um
imóvel e menos que o desejável com planejamento de aposentadoria", diz Andiara.
Outras atitudes preocupantes parecem bem específicas das mulheres. "Elas
investem pouco, e isso melhora menos do que esperávamos com o avanço da idade e
da renda. Entre aquelas de 40 anos, muitas ainda contam muito com a presença e a
ajuda futura de marido e filhos." Esse tipo de avaliação tem importância
crescente devido à ascensão da importância econômica feminina, parte mais
evidente dessa história.
Mulheres representam 41% da força de trabalho no Brasil. Nos Estados Unidos,
acabam de se tornar mais da metade. Nos dois países, a participação delas
cresce, e com velocidade ainda maior entre os postos de trabalho que exigem
nível superior. Por aqui, elas chefiam 35% dos lares, respondem por 46% das
transações com cartões de crédito e estão à frente de 52% das pequenas e
microempresas, informa Sueli Daffre, sócia-diretora da empresa de pesquisa SD&W.
Todos esses indicadores continuam subindo, e a mudança poderá se acelerar no
futuro, se depender do empenho delas em melhorar a própria formação. No Brasil,
há muito mais mulheres que terminaram a universidade (3,6 milhões, em relação
aos 2,5 milhões de homens). Na faixa dos adultos até 32 anos, elas já investem
50% a mais que os homens em educação, segundo a empresa de pesquisas Bridge. "E
elas dizem que vão aumentar esse investimento, no futuro, em escala maior do que
a planejada pelos homens da mesma idade", diz Renato Trindade, diretor da Bridge.
O mercado financeiro apelidou o fenômeno global de "O poder da bolsa" (Power of
the purse), por causa do título de um relatório publicado em agosto de 2009 pelo
banco americano Goldman Sachs. O estudo afirmava que o "poder da bolsa" seria
especialmente sentido em China, Rússia, Vietnã, México, Coreia do Sul e Brasil,
que combinam fortalecimento da mulher com crescimento da classe média.
A segunda parte da história é compreender as tais diferenças, que vão determinar
como elas usarão esse poder recém-adquirido. Confira algumas delas - sempre
lembrando que se tratam de generalizações, limitadas por natureza:
- Conservadorismo:
as mulheres mostram maior aversão ao risco. Isso as torna menos inclinadas que
os homens a confiar em suas habilidades e fazer grandes apostas;
- Expectativa de relações duradouras:
elas tendem a organizar a vida financeira como se o parceiro fosse estar a seu
lado para sempre;
- Prioridades flexíveis:
mulheres empregam o melhor de seus esforços no bem- -estar dos outros, incluindo
filhos, companheiro, pais idosos e subordinados;
- Equilíbrio:
elas mostram interesses mais diversificados, divididos entre carreira, família e
projetos pessoais;
- Apego aos detalhes:
as mulheres facilmente assumem as pequenas contas domésticas e se afastam das
grandes decisões financeiras familiares;
- Tendência gregária:
elas gostam mais que os homens de atuar e tomar decisões em grupo;
- Consistência temporal:
mulheres tendem a se apegar mais a suas estratégias financeiras ao longo do
tempo.
Como em outros aspectos da vida - relacionamentos amorosos, por exemplo -, o
jeito feminino de fazer as coisas pode trazer vantagens e desvantagens para
elas. Leia o quadro:
Diferenças
Novas pesquisas estão desvendando o jeito feminino de lidar com dinheiro. Alguns
pontos já estão claros
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Benefício |
Risco |
Solução |
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São mais avessas ao risco |
Elas arriscam menos, o que resguarda o patrimônio familiar para fins nobres
como educação |
Arriscar pouco demais significa abrir mão de lucros possíveis no longo prazo
em investimentos como ações |
Aventurar-se, sem deixar de ser moderadas. Na Bolsa, mulheres costumam obter
lucro médio maior que homens |
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Contam com casamento duradouro |
Planos de longo prazo beneficiam a família. Pessoas casadas tendem a
acumular mais riqueza que as solteiras |
Cresce o número de divórcios e mulheres vivem mais que homens. Elas precisam
saber cuidar do dinheiro sozinhas |
O casal deve compartilhar decisões e conhecimento, além de manter metas
financeiras individuais |
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Dão prioridade à família |
Uma mãe que acompanhe o crescimento e o desempenho escolar dos filhos vai
prepará-los melhor |
Laços de dependência: mulheres tendem a se colocar em risco financeiro para
ajudar filhos já adultos |
Educação financeira desde cedo é um belo legado aos filhos. estabeleça
limites claros e prévios para a ajuda |
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Não têm obsessão por carreira |
Mulheres perseguem interesses vários. A carreira é um. Trata-se de um
equilíbrio mais saudável |
Elas ainda têm salários menores. Suspeita-se que as empresas já "descontem"
a dispersão de interesses |
Ajustar os interesses à necessidade de ganhar dinheiro - e cobrar relações
de trabalho mais flexíveis |
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Concentram-se em detalhes |
Elas tendem a fazer gastos melhores para o bem-estar da família e conseguem
equilibrar contas |
Exposição frequente ao consumo (mais risco) e incapacidade de valorizar seu
papel familiar |
Deixar claro em casa o valor do controle de pequenos gastos e dividir
tarefas com o companheiro |
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Gostam de tomar decisões em grupo |
Decisões compartilhadas podem ser mais inteligentes e éticas que as
individuais em vários casos |
Dificuldade de identificar suas necessidades pessoais e dar a elas
prioridade; não ganhar reconhecimento |
Avaliar se a situação requer mesmo uma decisão em grupo. Preservar as
prioridades pessoais |
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