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Revista Época, 29/01/2040 - 22:20 - ATUALIZADO EM
29/01/2010 - 23:03
Uma pílula contra o vício?
Um cardiologista
francês conta em livro como se curou do alcoolismo usando um remédio comum
contra espasmos musculares
ALINE RIBEIRO
SOB CONTROLE
Foi um apagão de consciência que devolveu a clareza ao cardiologista Olivier
Ameisen. Corria o ano de 1997, numa noite fria em Nova York. Dentro de um táxi,
o francês radicado nos Estados Unidos abriu os olhos, retomou aos poucos os
sentidos e se deu conta do sangue escorrendo pelo nariz - consequência de mais
uma de suas bebedeiras. Horas depois, num hospital dos arredores, diz que
entendeu de uma vez por todas para onde o alcoolismo o levara: o fundo do poço.
Ameisen fora um médico bem-sucedido nos Estados Unidos. Deu aulas na
Universidade Cornell, tinha um consultório em Manhattan, tratava de
celebridades. Sua história rumo ao vício é como a de muitos. Ele começou com
doses aceitáveis de vodca em rodas sociais e, aos poucos, avançou para o
descontrole. Aos 44 anos, havia parado de trabalhar e de dirigir. À epifania no
hospital, seguiram-se anos de luta diária com a bebida, inúmeras internações e
uma série de medicamentos. Nada disso teve resultado. Até que, em 2001, Ameisen
deparou numa revista médica com um artigo científico sobre o baclofeno, um
relaxante usado no tratamento de espasmos musculares. O remédio havia
apresentado resultados animadores na cura de viciados em cocaína.
Desesperado com a própria condição, Ameisen decidiu testar o baclofleno contra o
álcool, usando a si mesmo como cobaia. Seu autotratamento com o baclofeno durou
dois anos. Agora, aos 56 anos (seis deles sem ter problemas com bebida), Ameisen
diz conseguir parar no primeiro copo. Ele se considera recuperado e conta como
alcançou a cura no livro O fim do meu vício, que acaba de chegar às
livrarias brasileiras sob o selo Fontanar. "Eu quero partilhar minha experiência
com outras pessoas que sofrem do mesmo pesadelo e que podem ter a vida salva",
disse a ÉPOCA.
Segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid),
30 milhões de brasileiros bebem em excesso, ou seja, tomam quantidades
suficientes de álcool para ter problemas de saúde ou de outra espécie, como
brigas e acidentes com automóveis. Desses que bebem demais, 22 milhões são
considerados alcoólatras, o equivalente a 12% da população do país. "É um
problema comum, recorrente e que destrói famílias", diz Arthur Guerra,
presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa).
Segundo a definição médica, alcoólatras são as pessoas que bebem com frequência,
independentemente de horário, local ou motivação. Elas não lutam contra o vício.
Pelo contrário, acham que alcoolismo não é doença. Os médicos consideram
dependentes as pessoas que tomam qualquer tipo de bebida, desmaiam com
regularidade e se lembram pouco (ou nada) do que ocorreu enquanto embriagadas.
Tradicionalmente, são os homens que bebem assim (a cada quatro que fazem uso de
álcool no Brasil, um se torna dependente), mas a atenção de especialistas se
volta agora para o sexo feminino. Em dez anos, aumentou em 50% a quantidade de
mulheres brasileiras que bebem mais do que seria recomendável. Estima-se que
7,3% do PIB brasileiro é gasto em consequência de problemas relacionados ao
álcool - desde o tratamento das condições médicas até a perda da produtividade
decorrente de seu uso. No mundo, a Organização Mundial da Saúde mostra que o
consumo abusivo de álcool é responsável por 3,7% das mortes e 4,4% das doenças.
Apontado por Ameisen como a libertação do vício, o baclofeno atua sobre uma área
do cérebro que os neurologistas chamam de "sistema GABA", responsável pelo
controle da ansiedade. É a mesma em que o álcool exerce seus efeitos. Logo nos
primeiros goles, a pessoa se sente mais relaxada e desinibida. Se ela chegou a
uma festa ansiosa, com medo de ser criticada ou de estabelecer relações, uma
pequena dose já vai torná-la menos preocupada com a opinião alheia. O baclofeno
reproduz essa química, engana e satisfaz o cérebro e, com isso, o consumo pode
ser controlado ou extinto. Essa, ao menos, é a teoria proposta por Ameisen. Ele
afirma que mais de 400 pessoas já foram tratadas com o medicamento e que o
porcentual de cura chega a 85%.
Na prática, não parece ser tão simples. O especialista Ronaldo Laranjeira,
coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp, testou o
baclofeno numa amostra limitada, mas diz não ter obtido resultados. "Ele só
precisa aumentar as doses", recomenda o francês Ameisen. Os brasileiros
ingeriram uma quantia cinco vezes mais baixa que o cardiologista, que chegou a
tomar 300 miligramas diariamente. Embora embrionário, o interesse pela droga
começa a ganhar corpo por aqui. Um grupo da Universidade de São Paulo (USP)
pretende testá-la em 150 dependentes sadios. Se aprovado, o projeto deverá ser
concluído em três anos. "É um medicamento interessante e seguro, mas que precisa
ser experimentado por uma grande população", diz Danilo Baltieri, coordenador de
pesquisas do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da USP.
Outros remédios já foram, no passado, apontados como a salvação dos dependentes.
Princípios ativos considerados promissores, como o dissulfiram, o topiramato e a
naltrexona (leia abaixo), mostraram ter eficácia limitada - que varia de
paciente para paciente. "Existem avanços, mas não há uma medicação que sirva
para todo mundo", afirma Ronaldo Laranjeira. "O alcoolismo é uma doença
complexa. Cada um responde de uma forma diferente a determinada substância." A
Novartis, laboratório que fabrica o baclofeno no Brasil com o nome comercial de
Lioresal, sabe do uso da substância no combate ao alcoolismo, mas, por ora, não
pretende investir em pesquisas próprias nessa área e tampouco cogita pedir
aprovação da Anvisa para incluir na bula do Lioresal a indicação contra o
alcoolismo. A menos que a campanha de Ameisen a faça mudar de ideia.
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Promessas de cura
Apontados como a
solução para o alcoolismo, medicamentos apresentam resultados limitados |
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Dissulfiram |
Naltrexona |
Topiramato |
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Nome comercial |
Antietanol |
Revia |
Topamax |
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Como age |
Causa sensação
desagradável no paciente que ingere a bebida e ajuda na prevenção das
recaídas. Pode provocar vômito e cansaço. A reação pode evoluir para
confusão mental e, em casos mais graves, levar à morte |
Diminui o prazer
proporcionado pelo álcool e a ocorrência de recaídas. Foi a primeira
substância a atingir a essência do alcoolismo: o desejo. A bebida se torna
sem graça para o paciente em tratamento |
Originalmente usada no
tratamento de epilepsia, a droga diminui o prazer proporcionado pelo
álcool e reduz a chance de recaídas |
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Desde quando |
Usado a partir de
1951, foi o primeiro aprovado pelo fda para tratar o alcoolismo |
Autorizado para o
tratamento de dependentes em 1995 |
No mercado desde 2000,
ainda não tem aprovação do fda |
Fonte: Arthur Guerra, presidente do Centro de
informações sobre saúde e álcool (CISA)
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