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O Estado de São
Paulo, Domingo, 07 de Fevereiro de
2010 | Versão Impressa
Na
hora do parto, a
falta de escolha
Brasileiras opinam pouco
quando se trata de escolher a forma de
parir
Karina Toledo
O
medo da dor, a preocupação com o bem-estar do
bebê e com o
próprio corpo são alguns dos fatores que tornam o
parto um dos momentos mais
delicados na vida da mulher. Mas, com exceção da
parcela da população que
procura atendimento humanizado e pode pagar por ele, as brasileiras
opinam
pouco quando se trata de escolher a forma de parir.
A
arquiteta Anna Amorim, de 27 anos, sempre teve o desejo e a
certeza de que teria um parto normal. Durante o pré-natal do
filho Pedro, ela
chegou a trocar de obstetra porque "sentia que a cesárea era
certa".
O segundo médico, que atendia pelo mesmo convênio,
lhe deu um prazo: 40
semanas. "Embora seja considerada normal uma
gestação de até 42 semanas,
ele avisou que não esperaria mais que 40."
Na
data marcada, ainda sem sinais do trabalho de parto, Anna foi
avaliada. "Ele disse que não ia dar certo. Eu acreditei."
Depois
de passar por experiência parecida em sua primeira
gravidez, a psicóloga Pérola Boudakian, de 32
anos, decidiu contratar uma
equipe especializada em parto humanizado para assistir o nascimento da
caçula
Beatriz. "Fui atrás do prontuário do primeiro
parto e descobri que o
médico havia forjado um diagnóstico para
justificar a cesariana ao plano de
saúde. Não quis arriscar passar por isso de novo."
Pérola
enfrentou 33 horas de um trabalho de parto difícil, mas
fez valer sua vontade de dar à luz a filha sem cirurgia. "Se
não fosse uma
equipe humanizada, não teria esperado."
Humanização
do parto é procurar fazer com que o nascimento seja
o menos traumático possível para mãe e
bebê, explica o obstetra Francisco
Vilella. "Procuro respeitar os processos da natureza, evitar
intervenções", conta.
Mas
isso tem um custo, que varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil.
"Às vezes fico mais de 12 horas acompanhando um parto", diz
Vilella.
O médico Marcos Tadeu relata o mesmo. "Não
consigo realizar mais que
quatro ou cinco partos por mês. Fico à
disposição da gestante 24 horas por dia
durante nove meses. É impossível fazer isso com o
que se recebe dos
convênios."
A
remuneração pelo parto na saúde
suplementar varia de R$ 300 a
R$ 600. "Uma coisa é ganhar esse valor com hora marcada,
outra é viver de
sobreaviso", diz Olímpio de Moraes Filho, da
Federação Brasileira das
Associações de Ginecologia e
Obstetrícia. "Há dez anos se faz campanha
para diminuir as taxas de cesariana nos convênios, mas os
números só crescem.
Estamos em quase 90%, embora pesquisas tenham mostrado que
só 30% das
brasileiras fazem essa opção no início
do pré-natal."
Para
Moraes Filho, é preciso mudar o paradigma do atendimento
obstétrico no País. "O Brasil é um dos
poucos lugares onde existe essa
relação pessoal entre gestante e obstetra."
Uma
saída seria os hospitais privados receberem verba dos
convênios para manter uma equipe de obstetrícia. A
gestante faria o pré-natal
com um grupo de médicos e o parto com o que estivesse de
plantão. "Muitos
obstetras não querem dividir as pacientes. A
situação atual é cômoda para
os
convênios. É difícil mudar. As maiores
prejudicadas são as mulheres, que ficam
sem autonomia."
ACOMPANHAMENTO
Pesquisa
recente da Organização Mundial da
Saúde aponta que a
mortalidade materna, a necessidade de transfusão de sangue e
de internação em
UTI é quase três vezes mais frequente nas
cesarianas sem indicação médica do
que no parto normal. O estudo, feito na Ásia e publicado na
revista The Lancet,
traz resultados mostrando vantagens do parto normal que, apesar de
muito
divulgadas no País, não conseguem diminuir o
índice recorde de cesáreas: 43%.
Na
rede pública, cesária é
exceção
No
SUS, ao contrário dos hospitais privados, a regra
é o parto
normal. "Não existe cesariana a pedido", conta Melania
Amorim. A
médica, referência em parto humanizado, coordena
uma maternidade pública na
cidade de Campina Grande, na Paraíba.
"O
SUS tem um programa de assistência humanizada, mas
são
experiências pontuais, acessíveis a poucos
usuários. O comum é o que chamamos
de parto Frankenstein, ou seja, cheio de
intervenções, o que torna a
experiência traumática para a mulher."
O
obstetra Marcos Tadeu, que coordena a maternidade do Hospital
Ipiranga, em São Paulo, revela que nem mesmo a anestesia
é uma opção sempre
disponível, por falta de recursos.
Para
Olímpio Moraes Filho, o parto vaginal, assim como a
cesárea, deve ser uma opção e
não obrigação. "Parto é
como sexo. Pode ser
muito bom, mas também pode ser uma agressão."
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