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O Estado de São Paulo, Domingo, 07 de Fevereiro de 2010 | Versão Impressa

Fim do crack é prometido há 10 anos

Droga, que era apreendida em gramas em 1995, ganhou área própria em SP e hoje não se vê solução a curto prazo

Elvis Pereira

"Temos de preparar a contraofensiva agora que estamos informados sobre o que vem por aí." O alerta foi dado em 1988 pelo então delegado Naief Saad Neto após ouvir de um traficante detalhes sobre a chegada do crack à capital paulista. Os anos se passaram e as apreensões que antes se resumiam a gramas se converteram em quilos. As primeiras promessas de autoridades, de "acabar" com o crack, completaram dez anos.

Mas o subproduto da cocaína conquistou um território próprio: a cracolândia, um punhado de ruas no centro da capital paulista onde viciados, de todas as idades e classes sociais, se aglomeram e acendem cachimbos diversas vezes ao dia para sentir o curto e intenso "barato" proporcionado pela pedra. Um ritual que, na opinião de quem tentou enfrentá-lo na última década, não tem previsão para acabar.

A trajetória do crack em São Paulo está ligada ao centro velho. A primeira apreensão da qual se tem notícia na capital data de 1986. O então Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) flagrou Antonio Viana com 100 gramas da droga na Rua Major Sertório, na Vila Buarque. A companheira dele, Noemia Siqueira, guardava mais 600 gramas num apartamento na Alameda Barão de Limeira, na República. Ambos se declaram "mulas": ou seja, teriam sido contratados para transportar a encomenda de Corumbá (MS), sem saber do que se tratava. A Justiça absolveu o casal. Dois anos depois, um traficante revelou ao Deic que a droga vinha sendo inserida facilmente pela rota entre Corumbá e a cidade de Porto Suárez, na Bolívia.

Em 1991, o Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) recolheu pela primeira vez a pedra na Boca do Lixo, nome pelo qual era conhecido o quadrilátero formado pelas Avenidas São João, Rio Branco, Ipiranga e Rua Mauá. Naquele ano, o total de droga recolhida em toda a cidade chegou a 150 gramas. 

Dali em diante, o tráfico enraizou-se, instalando laboratórios de refino da droga em hotéis. Traficantes aliciavam crianças para distribuí-las no centro. Em 1992, já era mencionado que a Boca do Lixo dera lugar à cracolândia. Em 1995, o governador do Estado, Mário Covas, morto em 2001, ordenou a criação de uma delegacia para investigar o crack. 

Os esforços das Polícias Civil e Militar se tornaram cada vez mais frequentes. De 1997 para cá, houve em média pelo menos uma operação por ano na cracolândia. Prenderam-se centenas, entre fornecedores, distribuidores e usuários. Entre eles duas mulheres apontadas como "rainhas do crack", além de um "rei". Pelo menos dois viciados foram assassinados ali. Um deles fora queimado por um traficante por não pagar a compra do crack. Por mais de 80 vezes a Prefeitura interditou hotéis, pensões e cortiços em situação irregular.

"O problema ali não é especificamente de segurança pública. Ele é por um lado de saúde e por outro de intervenção urbana", afirmou o procurador de justiça Marco Petreluzzi, secretário de Segurança Pública entre 1999 e 2002. Ao assumir o cargo, ele anunciara a meta de erradicar o crack em quatro anos. "No meu tempo, nunca tive a ilusão de que resolveria o problema ali com a polícia", avalia o procurador hoje. "Mexer com droga é enxugar gelo. Tira-se um traficante e vem outro. Enquanto houver consumidor vai haver traficante." 

Ao se tornar prefeita, em 2001, Marta Suplicy prometeu que recuperaria o centro. "Durante a minha gestão, (a cracolândia) causava total preocupação. Mas eu tinha clareza de que se fosse lidar somente com aquela área iria levá-la a outros locais, sem resolver o problema."

Em 2005, ao se tornar subprefeito da Sé, o empresário Andrea Matarazzo elegeu como desafio mudar a cracolândia. "Ela melhorou muito em relação ao que era, mas tem um longo caminho pela frente". "Desde o início", acrescentou, "eu imaginava que o processo de revitalização era de pelo menos dez anos". "Não é porque você urbanizou que os usuários de crack vão deixar de existir. Aquela população precisa de tratamento, de internação."

Centenas de usuários vagam pela região

Polícia cerca território, mas teme aumento nos índices de furto

Atualmente, entre 220 e 250 usuários de crack vagam pela região central, estima a polícia. São homens, mulheres e crianças que, a qualquer hora do dia, reúnem-se em esquinas para consumir o crack. Durante o dia, ocupam os cruzamentos da Rua Helvétia e da Alameda Dino Bueno. À noite, perambulam principalmente pelas Avenidas Duque de Caxias, Rio Branco, São João, Ruas dos Gusmões, Conselheiro Nébias e Mauá. Movem-se dentro de um território cercado propositalmente pela polícia, aos fins de semana, para impedir que eles migrem para Higienópolis e Santa Cecília. 

O receio é de que aumentem os índices de furto nessas regiões, a exemplo do que ocorre nas imediações de Anhangabaú, Campos Elísios, República e Santa Ifigênia. Em dezembro, houve em média pelo menos 18 furtos por dia nessas áreas. 

O tenente-coronel Renato Cerqueira Campos, comandante do 7º Batalhão da PM, afirmou que o policiamento é intensificado nos pontos de consumo. "Se houver flagrante há prisão. Mas precisamos considerar que a indigência não é crime. É um problema social." A presença da PM, entretanto, não inibe os viciados. Nos dias 28 e 29, a reportagem presenciou o consumo de crack em pelo menos seis pontos das imediações da Nova Luz, alguns deles a menos de 100 metros de distância de viaturas. No mais distante, no acesso do Minhocão para a Rua Sebastião Pereira, em nenhum momento a polícia foi avistada. 

Policiais alegam ter dificuldades para impedir o consumo. Ao se aproximarem, contam, os dependentes jogam as pedras no chão. Assim, não se sabe a quem pertence. Quando ocorre a identificação, o usuário é levado à delegacia, assina um termo circunstanciado e retorna às ruas. "Temos um problema crônico de mais de 15 anos", definiu o delegado titular da 1º Seccional, Aldo Galeano. Segundo ele, parte dos hotéis da Nova Luz ainda aceita a circulação do crack para ter mais lucro. "O dono prefere alugar o quarto cinco, seis vezes por dia, a alugar uma vez." Para ele, a cena de usuários aglomerados em ruas da cracolândia não será eliminada enquanto não se resolver o "problema de internação" dos usuários do crack. 

"Aqui há uma cultura. Entra um e sai outro", explicou o delegado. "Todo dia se prende alguém." Entre julho do ano passado e janeiro, 205 adultos foram presos por envolvimento com o tráfico na região da Nova Luz, como parte da Operação Centro Legal, executada em conjunto com a Prefeitura. Foram encaminhados 62 dependentes para a delegacia. "O centro é ponto atrativo em qualquer capital do mundo. Em São Paulo é o contrário. Está totalmente deteriorado", afirmou Galeano.