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O Estado de
São Paulo, Domingo, 07 de Fevereiro de
2010 | Versão Impressa
Luta
diária de quem
tenta deixar o vício
Seis meses depois de a lei
antifumo entrar em vigor, três
paulistanos contam suas batalhas pessoais contra o cigarro
Vitor Hugo Brandalise
Em
seis meses de lei antifumo, que proíbe o cigarro em
espaços
fechados em São Paulo, foram várias as tentativas
de impedir a legislação de
vigorar - no total, 27 pedidos de liminares foram protocolados,
solicitando
liberação do fumo no Estado. Nenhum deles,
porém, foi aceito pelo Judiciário e
até aqui o Estado vence tranquilamente a guerra nos
tribunais. Algo diferente
ocorre nas pequenas batalhas particulares, nos embates
diários de quem luta
para largar o fumo. Guerra contra o próprio corpo que se
mostra, frustração
após frustração, bem mais
difícil.
Entre
julho e agosto do ano passado - até que a lei entrou em
vigor, em 7 de agosto -, o Estado acompanhou a trajetória de
três paulistanos,
que tentavam abandonar o vício. Em 26 dias de contatos
telefônicos diários,
Aparecida Santucci dos Passos, de 43 anos, Alex do Nascimento, de 31, e
Elton Isaac
dos Santos, de 40, relataram suas frustrações e
dúvidas, enquanto tentavam
finalmente chegar à categoria de ex-fumantes. Na
época, conseguiram avanços,
diminuíram quantidades, mas o cigarro continuava presente em
suas vidas.
Seis
meses depois, nenhum dos paulistanos conseguiu parar -
continuam entre os cerca de 2 milhões de moradores da cidade
que fumam, segundo
a Pesquisa Especial de Tabagismo, realizada no ano passado pelo
Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aparecida
está frustrada por ter
recaído no vício após quatro meses de
abstinência, diz se sentir
"fraca" e relata "medo" de tentar novamente. Alex sente
falta de "algum incentivo a mais" para conseguir largar os poucos
cigarros que ainda fuma. E Elton diz que falta pouco, mas ainda
não "tomou
vergonha na cara" o suficiente. Em comum, todos dizem que ainda
vão
conseguir.
Outra
opinião comum entre os três é a de que
não foram
influenciados pela nova lei na decisão de parar de fumar.
Eles relatam, porém,
que ver menos pessoas fumando nos lugares que frequentam ajuda a manter
afastada a tentação. "Fumante e ex-fumante,
quando vê alguém com cigarro
na boca, sente vontade na hora de fumar", diz a cardiologista Jaqueline
Issa, coordenadora do Ambulatório de Tratamento do Tabagismo
do Instituto do
Coração (Incor). "Manter quem está se
tratando longe da tentação é outro
mérito da lei."
Emergência
familiar fez voltar fissura
A
primeira iniciativa foi esconder os cigarros numa fonte no
quintal de casa, na Mooca, zona leste de São Paulo. Mas o
vício era tanto para
quem fuma desde os 14 anos que só o barulho da
água fazia voltar a vontade. A
solução foi despistar a fissura, guardando os
maços no armário. A dona de casa
Aparecida Santucci dos Passos, de 43 anos, experimentou
várias táticas. Com
medicamentos e distante de tudo que a lembrasse de cigarro, ficou
quatro meses
sem fumar.
Acompanhada
pelo Estado entre julho e agosto, ela dizia ter dois
apoios: família e água - quando a vontade batia,
tomava um copo. Foi como
enganou o vício entre agosto e dezembro. Até que,
no começo de dezembro, o
filho teve de operar o joelho por causa de uma contusão de
futebol. Aparecida
lembrou de um irmão que perdeu a perna esquerda por causa de
tétano. Ela ficou
tensa. Numa noite, foi ao quintal e reacendeu o vício. "Foi
um fracasso
enorme. Sinto medo de tentar e fracassar novamente. Mas tracei meu
objetivo:
agora é isso que tenho de vencer, e vou vencer."
Ela
não vai ao Centro de Referência de
Álcool, Tabaco e Outras
Drogas (Cratod) desde novembro. Também não toma
mais medicamentos. E estacionou
em 11 cigarros por dia. "Sei que só vou parar com
remédios. Pretendo
voltar ao Cratod até dia 15, para retomar o tratamento com
fluoxetina (remédio
contra depressão) e Ansitec (contra ansiedade)", disse.
"Não
desisti."
Ela
conta com a família e a água. "Mas vou adicionar
força
de vontade e um novo hobby." Praticará tênis no
Parque da Mooca. "Vou
ficar tão cansada que não terei força
nem para levar o cigarro à boca."
Cerveja
traz tentação do tabaco
O
professor Elton Isaac dos Santos, de 40 anos, tem convivência
íntima com o cigarro. É uma de suas armas na luta
para tirar crianças e
adolescentes do mundo do crack, no instituto de caridade no qual
trabalha, na
zona leste de São Paulo. "A maioria deixa o crack e vai
direto para o
tabaco. É uma forma de redução de
danos, e entendemos isso como natural",
diz. "O problema é quando alguém que
não tem problemas maiores não
consegue deixar esse vício."
Santos
se refere a ele mesmo. Diminuiu o cigarro a cinco unidades
diárias, mas ainda cai na tentação
quando as tragadas vêm junto com a cerveja
do fim das tardes. "Isso é que me mata", desabafa. Nesses
momentos,
pode vir a fumar até meio maço - algo
inaceitável, ele diz, para alguém que
precisa "de uma vez, tomar vergonha na cara".
Mesmo
com os alunos chamando sua atenção, como relatou
ao Estado
em julho e agosto do ano passado, ainda não conseguiu ir
até o fim no
tratamento. "Usei os adesivos no braço até que a
progressão chegou a um
nível mínimo de nicotina. Agora é por
minha conta, preciso me dedicar
mais", diz o professor, que frequenta o Centro de Referência
de Álcool,
Tabaco e Outras Drogas (Cratod) para acompanhamento
psicológico.
"Fiquei
no máximo quatro dias sem cigarro, mas estou
trabalhando para isso aumentar pouco a pouco", conta. "A
próxima meta
é ficar uma semana sem fumar. E, depois, mais e mais. Vou
conseguir."
De
60 para 2 cigarros diários
O
problema de Alex do Nascimento, de 31 anos, não é
mais os três
maços de cigarro que costumava fumar a cada semana desde a
adolescência - a
dificuldade atual é largar os míseros dois
cigarrinhos, que fuma para
"começar e terminar bem" o dia.
"O
mais complicado é deixar o hábito. Quero parar de
fumar,
vou parar de fumar, mas ainda não sei quando. Acho que no
momento em que
decidir que quero mesmo não vai ter para ninguém.
Falta só um pouquinho de
força de vontade", admitiu. Alex é daqueles que
não acredita ser, como
disse, "quimicamente viciado" em cigarro. "Fumo mais pelo
prazer", justificou. "Não acho que preciso de tratamento."
Nos
30 dias em que o Estado o acompanhou, entre julho e agosto,
Alex repetia diariamente que pararia de fumar "em breve". Quatro
meses depois, o prazo estabelecido ainda é relativo.
"Continua sendo em
breve", disse. "Talvez até o fim do ano largo esses
últimos dois que
faltam."
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