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Revista
Isto É, COMPORTAMENTO, |
N° Edição: 2100 |
05.Fev - 21:00 | Atualizado em 05.Fev.10 -
21:26
A
encruzilhada do
Daime - parte 1
O
governo legaliza
o uso religioso do chá alucinógeno, mas peca ao
deixar que mortes ocorram e ao
abrir uma brecha jurídica que pode estimular o
tráfico
Hélio Gomes
Tudo
começou no início do século passado,
no coração da Amazônia.
Caboclos nordestinos atraídos pela
extração da borracha mergulharam na cultura
secular dos povos da floresta, inevitavelmente absorvendo muito de sua
essência. Logo nasceram as chamadas religiões
ayahuasqueiras, grupos em sua
maioria cristãos que incorporaram o consumo de um
chá alucinógeno utilizado
pelos indígenas em seus rituais. Hoje, essas mesmas seitas
estão no centro de
uma polêmica que envolve questões delicadas e
perigosas, como o respeito à
liberdade de crença, tráfico de drogas e morte.
No
dia 25 de janeiro, em resolução publicada no
“Diário Oficial da
União”, o governo brasileiro oficializou o uso
religioso do chá ayahuasca –
também conhecido como daime, hoasca e vegetal. Sem
força de lei, o texto,
formulado depois de décadas de
negociações e estudos realizados pelos
órgãos de
combate às drogas, define as responsabilidades das
religiões
institucionalizadas e garante o direito de consumo do
alucinógeno a adultos,
mulheres grávidas, jovens e até
crianças durante os rituais. Por outro lado,
ele veta a comercialização e a propaganda do
composto feito a partir do cipó
mariri e das folhas da erva chacrona, além de sugerir que
qualquer tentativa de
turismo motivado pelo chá seja coibida.
A
decisão do governo repercutiu com força.
Políticos como Eduardo
Suplicy e Fernando Gabeira, por exemplo, defendem a medida.
“A resolução é o
reconhecimento de uma religião autenticamente
brasileira”, diz Suplicy. Por
outro lado, outras vozes levantaram a hipótese de que a
liberação do daime
poderia abrir o perigosíssimo precedente para a
criação de religiões que
incorporem drogas como a cocaína e a maconha em seus
rituais. E ainda há quem
considere o trabalho desenvolvido pela comissão
multidisciplinar – composta por
médicos, juristas, psicólogos e membros de
religiões como Santo Daime,
Barquinha e União do Vegetal, entre outros especialistas
– do Conad (Conselho
Nacional Antidrogas) um exemplo de respeito aos direitos individuais a
ser
exportado para o mundo. Porém, o noticiário
indica outra direção.
No
penúltimo final de semana, Alexandre Viana da Silva, 18
anos,
morreu afogado em um lago em Ananindeua (PA), depois de tomar o
chá em um culto
independente. Claro que não é possível
afirmar que o alucinógeno levou o rapaz,
que não sabia nadar, a enfrentar uma
situação de risco sem medir as
consequências. Mas a hipótese não pode
ser ignorada.
Outra
história contundente é a de Fernando Henrique
Queiroz
Tavares. Aos 15 anos, ele era usuário regular de haxixe, LSD
e ecstasy. Depois
de muito sofrimento, encontrou ajuda na chácara
Céu de Krishna, sede da seita
Encantamento dos Sonhos, localizada na região metropolitana
de Goiânia (GO).
Lá, participou de rituais que envolviam o consumo de
ayahuasca durante três
anos. “Ele deixou o vício, voltou à
escola e até parou de sair à noite”,
diz
sua mãe, Neila Maria Queiroz. Ela foi duas vezes
até a chácara. Na primeira,
para assistir a uma das cerimônias. Depois, para alertar a
todos que Fernando
Henrique sofria da síndrome de Marfan, enfermidade
degenerativa do coração.
Por
volta das 4h30 da manhã do dia 15 de novembro do ano
passado,
depois de consumir 150 ml do chá em um intervalo de quatro
horas e meia, o
rapaz de 18 anos sentiu-se fraco, apresentou dificuldade para respirar
e caiu
no chão. Segundo seu atestado de óbito, a morte
foi causada por um ataque
fulminante do coração, com rompimento da
artéria aorta. Apesar de o laudo
oficial com a causa do ataque só ter previsão de
publicação daqui a dois meses,
o que a ciência já sabe sobre os efeitos da
ayahuasca no organismo indica forte
possibilidade de relação entre o consumo do
chá e o ocorrido. “Estamos realizando
análises sofisticadas e fora do padrão.
Precisamos de mais tempo”, afirma
Rejane Sena Barcelos, diretora do Instituto de
Criminalística Leonardo
Rodrigues. Segundo o delegado que cuida do caso, Maurício
Massanobu Kai, “se o
chá facilitou ou potencializou a morte, o
responsável pelo ritual responderá
por homicídio doloso”. O delegado fala de Marcelo
Henrique Ribeiro, líder do
ritual Encantamento dos Sonhos. “Foi como perder um
filho”, diz Ribeiro.
Segundo
a nova normatização das regras do uso religioso
da
ayahuasca, as seitas cadastradas pelos órgãos
passam a ser totalmente
responsáveis pelo que acontece com seus adeptos durante os
rituais. Cabe a elas
decidir quem está apto ou não, tanto do ponto de
vista médico quanto do
psicológico, a tomar o chá. Também
não há regras de dosagem: quem serve a
bebida decide quanto o usuário deverá ingerir.
Por fim, a determinação
recomenda que todos os participantes permaneçam nas igrejas
até o final dos
rituais – e dos efeitos alucinógenos do
chá.
Não
é preciso dizer que o risco de algo dar errado é
alto, o que
pode transformar o caso em uma questão de saúde
pública. Se alguém que começa a
frequentar uma academia de ginástica é obrigado a
passar por avaliação médica,
o mesmo não deveria ser feito por quem consome um
alucinógeno? “Assim como em
se tratando de qualquer instituição desportiva,
de ensino ou recreativa, quem
quer que dê causa, por negligência,
imprudência ou imperícia, ao prejuízo
alheio responderá civil e criminalmente pelos atos que
praticar”, diz Paulo
Roberto Yog de Miranda Uchôa, secretário nacional
de Políticas sobre Drogas e
secretário executivo do Conad.
O
texto publicado no “Diário Oficial”
recomenda que as entidades
façam uma entrevista com aqueles que forem ingerir o
chá pela primeira vez e
evitem seu uso por pessoas com transtornos mentais e por
usuários de outras
drogas. Segundo Enio Staub, secretário do Cefluris
– Culto Eclético da Fluente
Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo, que
reúne as igrejas conhecidas
como Santo Daime –, esse primeiro contato é
fundamental. “As pessoas que buscam
a ayahuasca devem obter informações da origem dos
grupos para verificar sua
confiabilidade. Temos essa responsabilidade”, diz.
O
Santo Daime ganhou notoriedade nos anos 80, quando chegou aos
centros urbanos do Sudeste e do Sul do País. Celebridades
como Lucélia Santos e
Ney Matogrosso entraram para a seita e o perfil de seus seguidores
mudou. Era a
vez das classes mais abastadas, universitários e todo tipo
de profissional
entrarem na história. Paralelamente, a União do
Vegetal também cresceu
rapidamente. Hoje, segundo dados fornecidos pelas duas
instituições, o Santo
Daime conta com cinco mil associados e visitantes, enquanto a UDV
contabiliza
cerca de 15.000 sócios. Ambas estão presentes em
países como Estados Unidos,
Espanha, Reino Unido e Canadá, nos quais, segundo os
religiosos, o chá entra de
forma totalmente regular. “Não corremos
atrás das pessoas. Elas vêm até
nós”,
diz Flávio Mesquita da Silva, presidente da União
do Vegetal.
PARTE 2
A encruzilhada do Daime - parte2
Mesquita,
54 anos, narra uma história muito
parecida com a de inúmeros adeptos do daime.
“Consumia todo tipo de droga e
bebia muito na adolescência. Conheci a UDV e tudo
mudou”, diz. De fato, a
promessa da resolução de males como a
dependência química e a depressão
é um
dos maiores chamarizes das seitas. Apesar de a
normatização governamental
sugerir que o chá não seja usado em conjunto com
outras drogas, muitos
seguidores fazem isso. A substituição de um
vício por outro é altamente
condenada pela medicina porque, no fundo, não resolve o
problema. Fica a
pergunta: o daime é uma droga?
Um
dos pilares da argumentação do Conad para a
regulamentação do
uso religioso da ayahuasca é uma decisão da ONU.
“São consideradas drogas
ilícitas todas aquelas nas listas de substâncias
proibidas das Convenções das
Nações Unidas, das quais o Brasil é
signatário”, diz Miranda Uchôa, do
Conad.
De acordo com o texto publicado no “Diário
Oficial”, “a decisão da ONU relativa
à ayahuasca afirma não ser esta bebida nem as
espécies vegetais que a compõem
objeto de controle internacional”. Sandro Torres Avelar,
presidente da
Associação Nacional dos Delegados de
Polícia Federal, vê a questão de forma
diferente: “O efeito do daime preocupa porque é
semelhante ao de drogas
proibidas no ordenamento jurídico”, afirma.
Infelizmente, uma distorção
preocupante do processo já ocorre na internet.
Basta
digitar “comprar ayahuasca” no Google para
encontrar ofertas
de todo tipo. Há quem tente maquiar o comércio
usando o modelo das seitas
organizadas e peça uma carta do possível
comprador na qual ele divida suas
angústias e diga por que quer tomar o chá. Depois
da análise dos vendedores,
sobre a qual não há nenhum controle, o
alucinógeno é vendido. Pior: sob os
dizeres “Pronto para o consumo e bem concentrado –
enviamos para o Brasil e
para o mundo”, outra página oferece o litro do
chá por R$ 45, mais o Sedex, a
quem estiver disposto a pagar por ele. Tráfico puro e
simples, portanto, e
espiritualidade zero.
A
falta de controle do governo preocupa e não para por
aí. Além
das três religiões institucionalizadas,
inúmeros cultos independentes como o
frequentado pelo jovem Fernando Henrique, em Goiânia,
espalham-se pelo País.
Segundo o Conad, cerca de 100 organizações
já estão cadastradas. Trata-se de
centros espíritas, cultos universalistas e terreiros de
umbanda, entre outros,
surgidos de dissidências das seitas originais ou que
simplesmente incorporaram
o uso de ayahuasca em seus ritos.
“Achei
que aquela religião
não era para mim quando fui tomar o chá. Agora,
vivo feliz”
Carlos
Maltz, ex-baterista dos Engenheiros do Hawaii e sócio da UDV
Diante
do quadro de desorganização e alto risco,
não espanta que o
Cefluris e a União do Vegetal apoiem a
normatização do governo e cobrem
atitudes que garantam seu direito adquirido. “Acredito que a
publicação no
“Diário Oficial” servirá
principalmente para orientar os órgãos de
repressão e
fiscalização”, diz o presidente da UDV.
“É mais ou menos como se tivéssemos
passado 30 anos lutando para dirigir do lado direito da estrada. Agora,
alguns
que querem partir para a pista da esquerda nos atrapalham”,
resume Mesquita da
Silva.
Não
há dúvida de que as religiões
ayahuasqueiras têm os seus
méritos. Na apuração desta reportagem,
ISTOÉ ouviu histórias comoventes de
transformação, que traduzem
intenções semelhantes às de
crenças seculares como
o catolicismo, o islamismo e o judaísmo, para citarmos
apenas algumas.
Baterista
da formação original dos Engenheiros do Hawaii,
Carlos
Maltz viveu todos os excessos que a vida de um pop star é
capaz de reunir – “do
sexo inseguro ao uso de todo tipo de droga. Eu queria morrer
jovem”, diz. Hoje,
aos 47 anos, ele atua como psicólogo junguiano e
é sócio da União do Vegetal em
Brasília, onde vive com sua mulher e suas três
filhas. Eis a sua história.
“Em
1995, tive uma briga muito feia com o Humberto (Gessinger) e
saí da banda. Acabou a fama, acabou a grana e tudo ficou
escuro. Fui convidado
para ir até a UDV e tomar o chá. Quando vi aquela
gente fardada, pensei que não
era para mim. Depois de tomar o vegetal, vi várias letras de
música passando na
minha frente e reconheci o meu estilo no texto. Uma voz me disse:
‘Gostou? É
tudo seu.’ Respondi que sim e disse que queria anotar as
letras. A voz explicou
que eu só conseguiria fazer isso depois que tirasse a
mágoa do meu coração e
perdoasse o meu parceiro. Explodi e vi que realmente ainda estava
magoado.
Então a voz me disse que eu deveria compor uma
música de amor para o Humberto e
que, só depois disso, estaria preparado para evoluir. Hoje
somos amigos como
nunca, vivo feliz e tenho orgulho do meu trabalho, mas ainda
não escrevi a
canção.”
Para
garantir que histórias como a de Maltz continuem a ser
escritas, é preciso muito mais do que normatizar as regras
para o uso da
ayahuasca em rituais. Se a intenção do governo
é legitimar o patrimônio
religioso brasileiro, é preciso evitar mortes absurdas e
garantir que algo
sagrado para alguns não entre para o rol das
substâncias que corroem nossa
sociedade.
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