|
Revista
Isto É, COMPORTAMENTO, |
N° Edição: 2100 |
05.Fev -
21:00 | Atualizado em 05.Fev.10 - 21:31
A
paranoia da beleza
inatingível
Na
era dos
retoques por computador, o padrão de beleza difundido
é irreal, o que gera
infelicidade para quem está distante dele e
deformações em quem o persegue
Claudia Jordão
Mulheres
de 50 anos com rosto de moça de 25.
Senhoras de 60, 70 e até 80 anos com a pele livre de rugas e
esbanjando a
firmeza do colágeno. Celebridades de corpos cada vez mais
esguios, de
proporções tão perfeitas que desafiam
a natureza. O padrão de beleza atual,
idealizado pela sociedade e disseminado em campanhas
publicitárias e revistas
voltadas para o público feminino, nunca esteve
tão distante da mulher comum. É
que, também, nunca foi tão falso. Prova disso
é a série de escândalos
envolvendo fotografias de editorias de moda e campanhas
publicitárias alteradas
através do Photoshop – programa de computador de
manipulação de imagens. O mais
recente são as fotos sem tratamento que caíram na
rede da pop star Madonna no
ensaio feito em dezembro de 2008 no Rio de Janeiro para a revista
americana
“W”. Este soma-se a outros registros da cantora sem
manipulação que vazaram na
internet, como o da revista americana “Vanity
Fair”, o da campanha da Louis
Vuitton e o do disco “Hard Candy”. As imagens
impressionam. Afinal, ninguém
está acostumado a ver as marcas do tempo da
cinqüentenária estrela- mor do
entretenimento mundial. A revista americana
“Newsweek” colocou no ar em seu
site uma galeria de imagens alteradas por computador na
última década.
Boa
parte delas é de Madonna, que prefere posar para seu
fotógrafo
de confiança Steven Klein, e faz questão de
aprovar qualquer retrato posado que
for publicado. A ilusão provocada por essas imagens
– que nesses casos valem
menos do que qualquer palavra – tem duas
consequências negativas: geram infelicidadeem
mulheres que se sentem cada vez mais distantes do padrão
propagado por essas
beldades ou, pior, suscitam uma perseguição
desenfreada por este ideal de
beleza. “Elas partem para uma busca incansável por
intervenções estéticas
desnecessárias, que não trazem
satisfação duradoura”, diz o psiquiatra
Táki
Cordas, coordenador do Ambulatório de Transtornos
Alimentares do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas, que estuda a
obsessão pela beleza há 20
anos. As mulheres nunca gastaram tanto com a aparência. Em
2008, o mercado de
cosméticos, perfumaria e higiene movimentou R$ 21,6
bilhões no Brasil, um
crescimento de 13,5% em quatro anos. O número de cirurgias
plásticas realizadas
também bate recorde a cada ano – foram 629 mil em
2008. Ainda assim, elas não
estão felizes com o que veem quando se olham no espelho. Um
levantamento com
3.400 entrevistadas, com idade entre 15 e 64 anos, realizado em dez
países
(inclusive o Brasil), em 2004, mostra que nove em cada dez mulheres
querem
mudar algum aspecto de sua aparência. E comprova: a venda de
falsas ilusões
mexe de fato com a cabeça delas. Entre as brasileiras, 62%
consideram difícil
se sentir belas diante das fotos das modelos e celebridades estampadas
em
campanhas publicitárias e revistas. Quando tentam apagar as
marcas da passagem
dos anos a qualquer custo, as consequências podem ser
desastrosas. Hoje, com o
arsenal disponível, o limite do estica-e-puxa é o
bom senso.
Do
contrário, em vez de conquistar o rosto e o corpo de seus
sonhos, ficam deformadas. A estilista italiana Donatella Versace, 54
anos, é o
exemplo público mais simbólico do extremo a que
esse frisson pode chegar.
Talentosa e rica, ela modificou completamente a fisionomia com o
excesso de
preenchimento de ácido hialurônico para dar volume
aos lábios e aplicação de
colágeno, que confere firmeza à pele. Ainda
assim, parece não estar disposta a
parar com as intervenções. Sua filha, Allegra, 22
anos, segue o mesmo caminho,
pois é anoréxica há alguns anos.
Mãe e filha sofrem da síndrome de
dismorfofobia, um mal cada vez mais comum, em que a pessoa tem uma
visão
distorcida de sua imagem. “A doença é
estimulada pela comparação que as pessoas
fazem de si mesmas com imagens exibidas em outdoors e
revistas”, diz Romeu
Fatul, cirurgião plástico do Hospital
Sírio Libanês, de São Paulo, e
coordenador do Simpósio de Rejuvenescimento Facial do centro
de saúde do
hospital, realizado todos os anos, que defende práticas
menos invasivas. “O
fato de muitas fotografias serem mentirosas agrava ainda mais a
situação.
”
É preciso ter uma boa estrutura emocional para
não se deixar
levar por tanta propaganda enganosa, num mundo onde impera a
lógica capitalista
do “você é o que você
consome”. “Somos bombardeadas por
anúncios de
cosméticos milagrosos e soluções
mágicas para qualquer questão de cunho
estético que a mulher possa ter”, diz a
psicóloga Ana Kernkraut, coordenadora
do Serviço de Psicologia do Hospital Israelita Albert
Einstein. “Cada uma deve encontrar
o seu equilíbrio. Nada mais saudável do que se
cuidar e buscar o bem-estar. O
que não pode é sair atrás de
cirurgiões plásticos pedindo a boca da Angelina
Jolie, o nariz da Gisele Bündchen e os olhos da Sophia Loren.
Isso acontece
muito e é patológico.” Para atingir
esse equilíbrio, o psiquiatra Táki Cordas
recomenda deixar as preocupações com a
aparência um pouco de lado e resgatar
outras questões, como as emocionais, filosóficas
e intelectuais. “Se a mulher
canaliza suas energias para um único tema, deixa de lado
todos os outros, que
poderiam lhe dar mais estrutura para passar ilesa por todo esse frisson
de
padrão de beleza”, avalia o psiquiatra.
No
Exterior, o poder público está acordando para as
consequências
desta busca desenfreada pela perfeição e
começa a tomar providências. Em
janeiro, o Parlamento espanhol aprovou uma lei que proíbe a
exibição de
anúncios na tevê que “exaltam o culto ao
corpo” das 6h às 22h. Os alvos são
produtos de emagrecimento, beleza e cirurgias. Segundo os
parlamentares, eles
associam o sucesso a padrões físicos determinados
e influenciam negativamente
crianças e adolescentes. Na França, sob
recomendação do Ministério
Público, os
legisladores estão debruçados sobre um projeto de
lei inovador, que, se
aprovado, deve inspirar outros países. Da mesma forma que
cigarros e bebidas
alcoólicas trazem avisos do Ministério da
Saúde que alertam para os malefícios
do tabaco e do álcool, as campanhas publicitárias
e os editoriais de moda devem
informar o público quando as imagens tiverem sido
manipuladas digitalmente. Se
o esclarecimento não for veiculado, pagam multa. Em outubro
passado, a
publicação francesa “Paris
Match” veiculou uma foto alterada do presidente
francês, Nicolas Sarkozy, 55 anos. Ele aparece remando uma
canoa e, no lugar de
sua barriga saliente, surgiu uma versão tanquinho
– como se um chefe de Estado,
marido da bela cantora Carla Bruni, não pudesse ter
pneuzinhos. É muita
paranoia.
|